A Importância dos Fósseis na Filogenia das Plantas

Escrito em: 08 de dezembro de 2024

Por: Lorenna Paiva

O artigo “Fossils and Plant Phylogeny”, publicado no American Journal of Botany em 2004 por Crane et al., discute a importância dos fósseis na compreensão da história evolutiva das plantas, especialmente na construção das árvores filogenéticas das espécies vegetais. Embora os avanços na biologia molecular tenham fornecido importantes insights sobre as relações evolutivas, os fósseis continuam a desempenhar um papel crucial na elucidação de eventos evolutivos antigos e no preenchimento de lacunas na história das plantas.

A filogenia das plantas descreve a evolução dos grupos vegetais ao longo do tempo, permitindo a comparação de características morfológicas e genéticas para inferir as relações de parentesco entre as linhagens. No entanto, muitos grupos de plantas originados em períodos geológicos remotos não possuem representantes vivos, ou suas linhagens evolutivas foram modificadas de tal forma que a análise genética direta se torna difícil.

Nesse contexto, os fósseis se tornam essenciais, pois fornecem informações sobre formas vegetais antigas, suas adaptações e interações com o ambiente. Estudar fósseis permite que os paleobotânicos reconstruam características morfológicas e transições evolutivas de plantas que não têm contrapartes modernas.

O artigo de Crane et al. sublinha a importância dos fósseis para compreender a origem das principais linhagens de plantas, como as gimnospermas e angiospermas. Fósseis de estruturas vegetais antigas fornecem evidências cruciais para determinar como essas linhagens se diversificaram ao longo do tempo, principalmente por conservarem informações estruturais que as metodologias moleculares atuais não conseguem extrair de plantas viventes. Assim, em muitos casos, as informações fósseis complementam os dados moleculares e ajudam a preencher lacunas na árvore filogenética das plantas.

Além disso, os fósseis desempenham um papel significativo na compreensão das interações das plantas com os ecossistemas do passado. Estudar fósseis permite aos cientistas inferirem como as plantas interagiam com seu ambiente e com outras formas de vida, como fungos, animais e bactérias. Essas interações ecológicas são essenciais para entender como as plantas se adaptaram a eventos-chave da história evolutiva, como a transição do ambiente aquático para o terrestre. Através dos fósseis, é possível observar como as plantas moldaram e foram moldadas pelos ecossistemas ao longo de milhões de anos.

Os autores também abordam os desafios enfrentados pela paleobotânica, como a preservação incompleta ou danificada de alguns materiais e a complexidade das formas morfológicas. A integração de dados fósseis com informações genéticas tem sido eficaz para superar essas dificuldades, proporcionando uma visão mais abrangente da evolução das plantas. Contudo, essa integração ainda enfrenta obstáculos, pois as diferenças na taxa de fossilização e nas características morfológicas podem gerar ambiguidades.

Em conclusão, o artigo enfatiza que, apesar dos avanços na biologia molecular, os fósseis continuam sendo essenciais para a compreensão da evolução das plantas. Eles não apenas ajudam a preencher lacunas na árvore genealógica das plantas, mas também oferecem informações valiosas sobre a diversificação e adaptação das plantas ao longo da história da Terra. O estudo dos fósseis vegetais é uma ferramenta indispensável para entender a complexidade da evolução das plantas e suas interações com o ambiente.

Texto fonte: CRANE, P.; HERENDEEN, P. & FRIIS, E. (2004). Fossils and Plant Phylogeny. American Journal of Botany 91(10): 1683–1699. DOI: https://doi.org/10.3732/ajb.91.10.1683.

Disponível em: https://bsapubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.3732/ajb.91.10.1683

Acesso em: 11 de março de 2026.

Fonte e legenda da imagem de capa: Prancha ilustrada de um conjunto remanescentes orgânicos vegetais mineralizados. Conjunto de fósseis vegetais em prancha.

Disponível em: https://www.lindahall.org/about/news/scientist-of-the-day/james-parkinson/


Texto revisado por: Giulia Alves e Alexandre Liparini.

Fóssil de pássaro do Cretáceo tardio encontrado no Brasil pode ajudar a explicar a evolução do crânio e do sistema nervoso central das aves

Escrito em: 25 de novembro de 2024

Por Raquel Teles Rocha

Os enantiornites são uma subclasse de pássaros voadores que viveu durante a era dos dinossauros, no Mesozoico, e provavelmente foi extinta no final do período Cretáceo, junto com os dinossauros. Um dos desafios de estudar esses animais é que, nos locais onde seus fósseis são encontrados, as camadas de rocha muitas vezes esmagaram os ossos, dificultando a preservação de crânios completos em três dimensões. Isso cria uma lacuna de cerca de 60 milhões de anos na história da evolução das aves, entre os primeiros pássaros, como o Archaeopteryx, e os mais modernos, como o Ichthyornis e o Hesperornis.
Recentemente, uma descoberta feita por cientistas de instituições no Brasil, na Argentina e nos Estados Unidos pode ajudar a preencher essa lacuna. No Sítio Paleontológico José Martín Suárez, em Presidente Prudente (São Paulo), foi encontrado o crânio completo e tridimensionalmente preservado de uma ave chamada Navaornis hestiae, que viveu no final do Cretáceo. Essa espécie apresenta características intermediárias entre pássaros antigos e modernos.
Por meio de uma tomografia computadorizada, os pesquisadores reconstruíram a estrutura do crânio do N. hestiae e identificaram traços em comum com aves primitivas e atuais. Por exemplo, o crânio não possui dentes e tem grandes cavidades oculares, além de um cérebro dobrado, características típicas de aves modernas. Ao mesmo tempo, ele apresenta traços primitivos, como um palato fixo (parte superior da boca), duas aberturas atrás dos olhos e um maxilar dominante. O cerebelo do Navaornis também é menor e mais simples, parecido com o de pássaros antigos, embora os hemisférios cerebrais mostrem sinais de expansão, algo visto em aves mais avançadas.
Essas características sugerem que mudanças complexas no cérebro das aves começaram antes que seus crânios e cérebros se tornassem totalmente modernos. Isso reforça a hipótese da evolução modular, que propõe que diferentes partes do cérebro evoluíram separadamente e se adaptaram a funções específicas, como melhor coordenação motora e integração sensorial, que são típicas de pássaros atuais.

Texto fonte: CHIAPPE, Luis M.; NAVALÓN, Guillermo; MARTINELLI, Agustín G.; CARVALHO, Ismar de Souza; SANTUCCI, Rodrigo Miloni; WU, Yun-Hsin; FIELD, Daniel J (2024). Cretaceous bird from Brazil informs the evolution of the avian skull and brain. Nature, 635, 376-381. Doi:10.1038/s41586-024-08114-4.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41586-024-08114-4#Abs1 acessado em 25/11/2024

Fonte e legenda da imagem de capa: Retirada do artigo no qual foi baseado o texto. Elaborada pelos pesquisadores do Museu de História Natural do Condado de Los Angeles. O fóssil encontrado e as reconstruções obtidas por meio de tomografia computadorizada, evidenciando as estruturas intermediárias presentes no animal.


Texto revisado por: Lucélio Batista, Alexandre Liparini.

Dinossauros X Mosquitos: A batalha invisível que marcou a Era Mesozoica

Escrito em: 25 de novembro de 2024

Por: Júlia Paula Rabelo

Sabe-se que os dinossauros tiveram grande sucesso evolutivo, eles existiram entre 230 a 65 milhões de anos atrás, vivendo por uma extensa história de 165 milhões de anos, muito mais larga que a da espécie humana, que conta com, no máximo, apenas 300 mil anos aproximadamente. Contudo, uma curiosidade pouco conhecida é que, tal qual nós humanos sofremos cotidianamente, essas espécies também foram vítimas de pequenos “predadores”, conhecidos popularmente como mosquitos.

    Embora os dinossauros tenham sim um destaque e uma conquista do ecossistema por toda a Era Mesozoica, sobretudo no período Jurássico, eles não eram as únicas espécies habitando a Terra nesse período. Os insetos surgiram bem antes deles, a cerca de 350 milhões de anos atrás e coevoluíram com vários vírus e outros microrganismos patogênicos, tornando-se importantes transmissores de patógenos, inclusive no passado. Dentro desses insetos, se destacavam os mosquitos e os flebótomos, que são hematófagos(seres que se alimentam do sangue de outros) e, durante o repasto sanguíneo, podiam transmitir algumas espécies de parasitos por meio da saliva. 

   Esses insetos não se intimidaram com a grandeza dos dinossauros e começaram a atacá-los, principalmente aqueles dinossauros que possuíam peles mais finas e com penas. Mesmo as espécies como pele mais grossa não escapavam desses mosquitos, uma vez que esses pequenos artrópodes conseguiam picar entre as escamas grossas de queratina desses animais. Portanto, todos estavam suscetíveis à picada desse assassino, afinal, em uma época sem repelente, inseticidas e roupas, os dinossauros não tinham proteção alguma contra os mosquitos.

    Essa relação entre grandes e pequenos seres foi inferida pelo descobrimento espécimes de dípteras (ordem das moscas e pernilongos, por exemplo) conservados em âmbar, uma resina vegetal polimerizada, que continham sangue com DNA de dinossauros e tinham o material genético de uma das espécies do parasita causador da malária, que, posteriormente, também foram encontrados em coprólitos e no vaso sanguíneo de um tiranossauro. Isso prova que os dinossauros sofreram os impactos do Plasmodium sp., que conseguiu superar o sistema imunológico desses organismos, por ser causar diferentes respostas imunológicas e sintomas nos seres vivos. Além disso, se formos analisar o clima da Terra na época dos dinossauros, percebemos que era o ambiente ideal para a reprodução dos mosquitos, sendo quente e úmido. Ou seja, os dinossauros estavam totalmente suscetíveis aos efeitos da grande concentração de insetos hematófagos do período Jurássico.

Por fim, há diversos artigos científicos que firmam a ideia de que os dinossauros foram extintos pelo impacto do meteoro Chicxulub e por atividades vulcânicas intensas na Terra. Entretanto, é interessante pensar que a malária pode ter debilitado essas espécies e ter contribuído com seu declínio, originando espaço para a ascensão dos mamíferos. Assim, numa Era dominada por gigantes e implacáveis, os pequenos e silenciosos mosquitos mostraram-se mais adaptados ao meio ambiente e às mudanças do mesmo.

Texto fonte:  WINEGARD, Timothy C. O mosquito: a incrível história do maior predador da humanidade. Tradução de Alves Calado. São Paulo: Intrínseca, 2020.

Disponível em: https://statics-americanas.b2w.io/produtos/4754459070/documentos/4754459070_1.pdf

ISBN:  978-65-5560-510-5

Fonte e legenda da imagem de capa: Arquivo Pessoal. (Ilustração feita por Júlia Paula Rabelo, 2024); Ilustração colorida de um dinossauro sendo picado por um mosquito, em uma paisagem semelhante ao senso comum de como era o período Jurássico.

Disponível em: https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.adk6320.


Texto revisado por: Luís Filipe Cardoso Queiroz e Alexandre Liparini.

Anomalocaris: O Quebra-Cabeça de 100 Anos

Escrito em: 06 de dezembro de 2024

Por Tiago Lopes Siqueira

Os Anomalocaris foram animais que viveram nos oceanos do período Cambriano, de 539 a 485 milhões de anos atrás. Durante esse período, esses animais eram o pior pesadelo para qualquer outro: possuindo 50 centímetros enquanto a maioria dos outros animais da época não passavam de 10, o Anomalocaris era um verdadeiro colosso. Esse tamanho era essencial para conseguir seu alimento, já que ele foi o primeiro predador ativo que existiu no planeta, nadando atrás de sua presa com objetivo de predá-la.

Só isso já coloca uma importância enorme nesse animal, mas não é só disso que vive a fama do nosso grande predador. A sua descoberta também foi marcada por inúmeras controvérsias que duraram 100 anos para serem esclarecidas, ainda existindo a chance de ter sobrado uma lacuna ou outra nessa história. Para começar, em 1892, foi descrito um fóssil de um crustáceo alongado com várias pernas que nomearam de Anomalocaris. Alguns anos depois, em 1911, foram descritos outros dois fósseis de importância, um tipo de água-viva, chamada Peytoia, e um pepino-do-mar bem grande, nomeado Laggania.

Outros 74 anos se passaram, e depois de diversas análises, cientistas perceberam que esses três fósseis não eram de animais diferentes, mas de apenas um. Laggania, o pepino-do-mar, era o corpo desse animal. O crustáceo com várias pernas, era um apêndice, um braço, que o animal utilizava para segurar outros animais. E a água-viva era a boca do Anomalocaris, nosso querido predador do cambriano.

Em 1985 ele foi descrito por inteiro como um grande animal nadador, que possuía dois apêndices frontais, para segurar e manipular o que encontrar, e um disco bucal na parte de baixo da cabeça, que possivelmente removia pedaços de outros animais com o auxílio de seus apêndices.Em 1996, foi publicado o nome Anomalocaris para o animal inteiro, Peytoia foi utilizado em um outro animal, parente próximo do nosso predador, e Laggania ficou perdido como um sinônimo, mas também como história de um quebra-cabeça incrivelmente longo. Deixando um legado de que, no estudo dos fósseis, os paleontólogos trabalham com o que tem no momento, o que nem sempre é suficiente. No final das contas, o trabalho em equipe é essencial para a resolução de diversos quebra-cabeças que possam existir dentro da paleontologia e qualquer outra ciência.

Texto fonte:  POTIN, G. J.-M. .; DALEY, A. C. The significance of Anomalocaris and other Radiodonta for understanding paleoecology and evolution during the Cambrian explosion. Frontiers in Earth Science, v. 11, 9 maio 2023.

Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/earth-science/articles/10.3389/feart.2023.1160285/full

Fonte e legenda da imagem de capa:

Reconstrução em modelo do Anomalocaris canadensis.

https://www.shapeoflife.org/sites/default/files/styles/large_480_wide_/public/global/anomalcaris_0.png?itok=Pn29QI1-


Texto revisado por: Fernanda Moreira Batitucci e Alexandre Liparini.

Anomalocaris canadensis e a predação de trilobitas

Escrito em: 08 de dezembro de 2024

Por: André Durço

Na terra, 538 milhões de anos atrás, acontecia a “explosão do cambriano”, onde surgiram alguns grupos de animais ancestrais que se assemelham muito aos artrópodes que temos hoje em dia. Parentes distantes de aranhas e escorpiões, mas que habitavam um ambiente marinho bastante diversificado. Um desses parentes é o Anomalocaris, considerado um superpredador desse período. 

O Anomalocaris possuía duas projeções frontais. Ao longo desses dois apêndices estão inseridos pequenos “espetos”, chamados “enditos”. Acredita-se que os enditos eram usados para capturar, manipular e talvez até triturar a presa antes de levá-la para a boca. Acredita-se também que eles eram predadores ativos, que nadavam atrás de suas presas e caçavam em mar aberto, possuindo várias vítimas como artrópodes de esqueleto externo biomineralizado, como os trilobitas, por exemplo. No entanto, no artigo: “Raptorial appendages of the Cambrian apex predator Anomalocaris canadensis are built for soft prey and speed” eles debatem essa noção, através de simulações realizadas em cima de uma reconstrução digital desses apêndices, feita usando dados morfológicos de fósseis de Anomalocaris canadensis, e comparadas a apêndices raptoriais de artrópodes atuais, como os dos aracnídeos amblipígios e uropígios. Estes testes simulavam a hidrodinâmica e resistência dos apêndices, durante o nado, e durante a captura de uma presa. Os testes acabaram mostrando que, mesmo que eficientes na captura, eles não seriam resistentes o suficiente para aguentar a força exercida durante a predação de animais com partes biomineralizadas, e acabariam danificados. Como a grande parte dos fósseis encontrados não possui enditos danificados, surge a ideia de que então, na realidade, Anomalocaris canadensis era predadores de outros animais, sem uma carapaça externa resistente, que nadavam rápido na coluna d’água, e não de trilobitas.

Texto fonte:  Texto fonte: Bicknell Russell D. C., Schmidt Michel, Rahman Imran A., Edgecombe Gregory D., Gutarra Susana, Daley Allison C., Melzer Roland R., Wroe Stephen and Paterson John R. 2023. Raptorial appendages of the Cambrian apex predator Anomalocaris canadensis are built for soft prey and speed. Proc Biol Sci 1 July 2023; 290 (2002)

Disponível em: https://royalsocietypublishing.org/rspb/article/290/2002/20230638/86810/Raptorial-appendages-of-the-Cambrian-apex-predator

DOI: https://doi.org/10.1098/rspb.2023.0638

Legenda da imagem de capa: Apêndice frontal de Anomalocaris canadensis

Disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?search=anomalocaris&title=Special:MediaSearch&go=Go&type=image


Texto revisado por: Tiago Lopes Siqueira e Alexandre Liparini.

Paleontologia Molecular e as Descobertas sobre Nosso Ancestral Comum

Escrito em: 02 de dezembro de 2025

Por: Flávia Hirabayashi

*Texto publicado também no Espaço Biótico

Você sabia que o ancestral comum de todos os eucariotos — incluindo humanos, plantas e fungos — era muito complexo? Nós sabemos que a ancestralidade comum é um dos lemas na biologia. Sendo assim, se todos descendemos de um ancestral comum, quem foi esse ser vivo que deu origem a toda diversidade do planeta?

O Primeiro Ser Foi o LUCA?

O Último Ancestral Comum Universal (LUCA) foi o ancestral de todos os seres vivos, surgido em uma Terra primitiva marcada por alta radiação, calor e atmosfera instável. Ele fazia parte de colônias de seres microscópicos e se destacou por conseguir se reproduzir, transmitindo características fundamentais da vida.

A partir do LUCA, surgiu o LECA (Último Ancestral Comum Eucariótico), que deu origem aos eucariotos, excluindo os procariotos. Diferentemente do que se pensava, o LECA já era uma célula altamente complexa, com sistemas avançados que sustentaram a evolução das linhagens eucarióticas.

Então, Quem Foi LECA?

Na ciência, é bom definir algo a partir de algo, então vamos definir LECA a partir de LUCA. O LECA pode ser definido a partir do LUCA, com quem compartilha características como o DNA como material genético, o RNA para leitura e síntese de proteínas, e a membrana plasmática, que delimita a célula.

Sobre as diferenças, elas são várias e fundamentais para compreender como era LECA. Como LECA foi o ancestral comum de todos os seres eucarióticos, ele possuía características comuns a todos nós. Algumas delas são: núcleo com envoltório nuclear (o que dá o nome de eucariótico), sistemas endomembranares (que surgiram de dobras das membranas da célula) adquirindo diferentes funções e mitocôndria (que um dia foi um procarioto que adentrou a célula eucariótica e se tornou uma organela).

O que a Paleontologia Molecular descobriu sobre LECA?

Podemos dizer que poucos fósseis foram deixados desse tempo em que os seres vivos estavam se formando, então muito do que sabemos se deve à Paleontologia Molecular. Por isso, esse assunto não envolve fósseis tradicionais, mas sim a reconstrução e análise de traços moleculares e genéticos de organismos antigos, como LECA. A genômica comparativa, a bioinformática e a filogenia são tão poderosas que foram capazes de provar a tamanha complexidade deste organismo. É como montar um quebra-cabeça do passado usando pedaços que ainda existem. Sendo assim, descobriram que LECA era uma célula altamente complexa, com núcleo, mitocôndrias, sistemas endomembranares, citoesqueleto sofisticado e mecanismos avançados de regulação genética.

Nota-se que a evolução nem sempre segue um caminho de “simples para complexo”. No caso do LECA, ele era mais avançado do que muitos organismos atuais, como alguns parasitas que perderam sistemas ao longo do tempo. Isso mostra que a evolução não é uma escada linear, mas uma árvore cheia de ramificações, perdas e adaptações.

Hoje, ao estudarmos nossas próprias células, encontramos ecos do LECA em cada organela, proteína e função celular. Ele é um testemunho de como a vida pode evoluir de maneiras surpreendentes e organizadas. Graças à paleontologia molecular, podemos vislumbrar a história de um dos organismos mais fascinantes que existiram — e perceber que sua complexidade está na base de tudo o que somos.

Texto fonte: Koumandou, V. L. et al. (2013). Molecular paleontology and complexity in the last eukaryotic common ancestor. Critical Reviews in Biochemistry and Molecular Biology, v. 48, n. 4, p. 373–396. 

Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/epdf/10.3109/10409238.2013.821444?needAccess=true.

DOI:https://doi.org/10.3390/quat4030024

Fonte e legenda da imagem de capa: Árvore Filogenética que explica os grupos originados a partir de LUCA e a complexidade de características de LECA. A partir de LUCA são originados dois grupos principais: Bacteria e Archaea. LECA surge separadamente, mas com características comuns dos procariotos, o que demonstra sua complexidade e os mistérios relacionados à sua origem. A origem dos eucariotos surge de LECA, ou seja, ainda há muito que descobrir sobre esta origem e muitas perguntas podem ser respondidas com estudos de paleontologia molecular a partir das características deste ancestral.

MCGRATH, C. Highlight: Unraveling the Origins of LUCA and LECA on the Tree of Life. Genome Biology and Evolution, v. 14, n. 6, 31 maio 2022. 

Disponível em: https://academic.oup.com/gbe/article/14/6/evac072/6602138


Texto revisado por: Milena Ramos Fonseca e Alexandre Liparini.

2 Filhotes de leões das cavernas são encontrados congelados em permafrost da Sibéria

Escrito em: 07 de dezembro de 2024

Por: João Pedro Araújo Miranda

Em 2017 e 2018, 2 filhotes de Panthera spelaea vereshchagini (Goldfuss, 1810), conhecidos popularmente como leões das cavernas, foram encontrados muito próximos na região do rio Semyuelyakh, na Sibéria, por caçadores de marfim de mamutes. A fêmea foi batizada de Esparta, já o macho foi chamado de Boris. Apesar da proximidade entre os filhotes, estes animais não eram relacionados, com Boris sendo datado de aproximadamente 43.400 e Esparta de 27.900 anos de idade. 

Achados de animais mumificados por congelamento não são raros na região, famosa por sua fauna do Pleistoceno (era do gelo), como mamutes, lobos, bisões, rinocerontes lanosos, ursos, renas e diversos outros. Porém, achados deste tipo sobre felinos são excepcionalmente raros, em especial neste estado de preservação, com todos órgãos internos preservados, ossos e musculatura intactos e pelagem altamente preservada, até mesmo o conteúdo estomacal contendo leite materno foi encontrado. Curiosamente, os únicos achados deste tipo para a espécie também são 2 filhotes congelados encontrados na mesma região anos antes, indicando que este local era de importância para a reprodução da espécie e possuía condições excepcionais de preservação. 

Esses filhotes vêm ajudando os cientistas a compreender melhor a vida destes grandes predadores. Em especial sobre a ontogenia, o estudo do crescimento e desenvolvimento dos organismos. Os pesquisadores acreditam que os filhotes tinham entre 1 e 2 meses de idade quando faleceram. Porém, em comparação com os filhotes de leões modernos pareciam se desenvolver mais rapidamente, em especial sua dentição. Isso pode indicar uma adaptação para a reprodução no ambiente extremo que viviam, na qual o filhote deveria crescer o mais rápido possível durante o verão curto antes que o período de frio e escuridão extrema retornasse. 

Outra característica que chamou a atenção dos paleontólogos foi a pelagem dos filhotes, que é distinta da dos adultos, sendo de cor mais amarronzada e escura em comparação com o cinza mais claro dos indivíduos maduros. Isso pode indicar que a pelagem dos filhotes era mais adaptada para a camuflagem em um ambiente sem neve, e na medida que cresciam se tornava mais adequada para se camuflar no ambiente de estepe. Outra questão que instigou a atenção foi a ausência de pintas semelhantes a de onças, presente nos filhotes de leões modernos e completamente ausentes nos filhotes encontrados. 

Além disso, acredita-se que o dimorfismo sexual, isto é, a diferenciação entre machos e fêmeas se desenvolvia cedo nestes animais, com o filhote macho encontrado sendo maior e apresentando uma pelagem mais transicional para os adultos, fato curioso é que esses leões não parecem apresentar a tão icônica juba presente em seus parentes modernos. Análises genéticas iniciais já foram realizadas nos filhotes. A genética pode ajudar melhor a entender a evolução, características em vida e como a espécie se relaciona na árvore da vida com os outros felinos do gênero Panthera. O DNA preservado também pode tornar possível em um futuro a clonagem desses animais utilizando como base o DNA de leões.

Texto fonte: Gennady G. Boeskorov at all. (2021). The Preliminary Analysis of Cave Lion Cubs Panthera spelaea (Goldfuss, 1810) from the Permafrost of Siberia. Quaternary, Advances in Quaternary Studies: The Contribution of Mammalian Fossil Record II. 

Disponível em: https://www.mdpi.com/2571-550X/4/3/24

DOI:https://doi.org/10.3390/quat4030024

Fonte e legenda da imagem de capa: Filhotes de Leão encontrados congelados

 Gennady G. Boeskorov at all. (2021). The Preliminary Analysis of Cave Lion Cubs Panthera spelaea (Goldfuss, 1810) from the Permafrost of Siberia. Quaternary, Advances in Quaternary Studies: The Contribution of Mammalian Fossil Record II.

Disponível em: https://www.mdpi.com/2571-550X/4/3/24


Texto revisado por: Ana Luísa Ferreira e Alexandre Liparini.

Descoberta de Novos Fósseis da Biota Fezouata em Taichoute no Marrocos

Escrito em: 04 de abril de 2024

Por: Letícia Soares Lopes da Silva

O início da vida na Terra sempre foi assunto de grande importância e interesse para estudiosos e pessoas que vivem conversando sobre os antigos habitantes do nosso planeta. Os registros geológicos e paleontológicos estimam que a Terra, de aproximadamente 4,5 bilhões de anos, guarda muitos segredos sobre a fauna marinha, que foi o objeto de estudo do artigo publicado na revista Scientific Reports, intitulado “Novas Assembleias Fósseis do Ordoviciano Inferior Fezouata Biota”.

No artigo, é discutido sobre os novos fósseis de artrópodes gigantes de 470 milhões de anos, que são parentes de animais atuais, como camarões e aranhas. Foram encontrados em Taichoute no Marrocos, região desértica que foi um mar raso no passado. Anteriormente a essa descoberta, a fauna de Fezouata já era estudada, a qual tinha diversos animais marinhos que se tornaram fragmentos de fósseis extremamente bem preservados, datando do Cambriano e que eventualmente foram soterrados no local.  

Mas o que difere esses fósseis, já que se encontram numa localização muito próxima? É relatado que alguns fósseis de Taichoute foram depositados numa camada mais profunda de sedimentos no mar, e tudo indica que eles chegaram ali através de tempestades marítimas, diferentemente dos fósseis da região de Zagora a 80 km dali que foram soterrados no próprio local. E concluíram que, muitos dos fósseis bem preservados puderam ter esse nível de conservação devido a esse transporte, e por esse motivo, estudos tafonômicos, que visam desvendar como os fósseis foram preservados na área, também são realizados no local, a fim de trazer mais esclarecimentos num futuro próximo.

Ademais, também foi evidenciado a diferença de idade entre os fósseis de Zagora e Taichoute, indicando que os fósseis deste apresentam uma idade que os enquadraria no Ordoviciano inferior, ou seja, uma diferença significativa que os aproxima de animais marinhos com uma datação mais jovem que os fósseis encontrados em Zagora. Essa evidência torna a região ainda mais rica em objetos de estudo, e possivelmente, ainda poderá trazer novas descobertas em breve.

Texto fonte: Saleh, F et al. (2022). New fossil assemblages from the Early Ordovician Fezouata Biota.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-022-25000-z.

DOI: https://doi.org/10.1038/s41598-022-25000-z.

Fonte e legenda da imagem de capa: Figura 3 do artigo. Fósseis de grandes artrópodes encontrados em Taichoute (Marrocos).

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-022-25000-z.


Texto revisado por: Ítalo Augusto de Oliveira Barboza, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Evidência de vida gregária em paleotocas atribuídas a Mylodontidae (Preguiças-Gigantes)

Escrito em: 26 de março de 2024

Por:  Anna Luisa Matos Morato

Evidências do Plioceno e Pleistoceno (algo entre 5 milhões de anos e alguns milhares de anos atrás) mostram que as paleotocas, tocas fossilizadas de mamíferos gigantes, são icnofósseis que ajudam a compreender o comportamento e os hábitos desses animais. As paleotocas não podem possuir uma datação precisa, já que a idade das rochas formadoras não são as mesmas de quando a toca foi produzida. São classificadas de acordo com o grau de preservação e no geral possuem dois tipos de possíveis escavadores — tatu gigante e preguiça gigante.

A área de estudo onde as paleotocas foram encontradas se situa no norte de Minas Gerais, que possui a geologia local da Formação Nova Aurora (cangas/formações ferríferas associado ao Membro Riacho Poções) e geomorfologicamente, trata-se de uma área de extensas chapadas dissecadas pela erosão. Além disso, o estudo procura focar em membros de uma família de preguiças gigantes chamadas de MYLODONTIDAE (preguiças gigantes).

A metodologia de estudo se dividiu em duas partes, na primeira etapa foram determinadas as paleotocas (foram quinze no total) e na segunda etapa as paleotocas foram classificadas, mapeadas e topografadas. Todas as “tocas” foram documentadas e fotografadas. Além disso, foram quantificados o registro de marcas de garras por metro quadrado que podem ser atribuídas, de acordo com o tamanho e a morfologia, a milodontídeos cavadores (preguiças-gigantes de dois dedos). Em três paleotocas foram feitos moldes de silicone dessas marcas.

As paleotocas se encontravam em vales de encostas íngremes e encaixados em locais de falhas geológicas — isto é, entre contatos de de diferentes tipos de rochas — sendo  compostas por metadiamictitos hematíticos neoproterozóicos do Grupo Macaúbas (Formação Nova Aurora) — rochas com alta dureza e muito antigas — o que sugere que os locais de repouso eram permanentes e não apenas abrigos temporários. Nas paleotocas foram encontradas de 1 a 3 áreas consideradas o local de repouso, que possuem a superfície mais “polida” em formato elíptico, devido ao atrito com a pelagem desses mamíferos gigantes.

A distribuição próxima das paleotocas que estão dispostas nos dois lados dos vales, umas em frente às outras no Vale dos Gigantes (Rio Esmeril) demonstram evidências de vida gregária para esse grupo de preguiças terrícolas, da família Mylodontidae. A diferença de estruturação das paleotocas demonstram grande diversificação nos grupos sociais, o que difere das espécies de preguiça atuais que são solitárias.

Texto fonte: BUCHMANN, F. S; et al. EVIDÊNCIA DE VIDA GREGÁRIA EM PALEOTOCAS ATRIBUÍDAS A MYLODONTIDAE (PREGUIÇAS-GIGANTES). 2016. Revista brasileira paleontologia 19(2):259-270, Maio/Agosto 2016; Sociedade Brasileira de Paleontologia. Disponível em: http://sbpbrasil.org/assets/uploads/files/09_Buchmann_et_al_pg259a270_web.pdf. Acesso em: 31 de março de 2024).

Disponível em:http://sbpbrasil.org/assets/uploads/files/09_Buchmann_et_al_pg259a270_web.pdf
Fonte e legenda da imagem de capa: Fóssil da família MYLODONTIDAE exposto em museu.

Disponível em:https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ground_Sloth,_La_Brea_tar_pit_fossil_DSC_0985_(23255634773).jpg


Texto revisado por: Leticia Lopes e Cruz e Alexandre Liparini.

Conflitos Ambientais, Sítios Paleontológicos, Ecologia Política, paleontologia mineira

Escrito em: 26 de março de 2024

Por: Vinícius Santos

O estudo de Camila Neves Silva e Angélica Cosenza destaca a compreensão dos conflitos ambientais presentes nos sítios paleontológicos de Minas Gerais, partindo das vulnerabilidades inerentes a esses locais para estabelecer conexões cruciais. Discute-se a crise ambiental como uma crise ecológica e civilizatória, questões como a exclusão das comunidades locais, danos ambientais causados pelo fluxo de visitantes e a perda do sentimento de pertencimento por parte dos habitantes. 

Sítios paleontológicos em MG: características e vulnerabilidades 

Um sítio paleontológico é uma localidade onde ocorrem fósseis e que requer ações de preservação, geralmente pelo poder público. Entretanto, o fato de uma região ser reconhecida como um sítio não garante automaticamente sua proteção. Essa proteção só ocorre por meio de leis específicas. Para os geoparques, o reconhecimento é concedido pela UNESCO.

Em Minas Gerais, há uma grande diversidade de sítios paleontológicos, destacando-se pela sua grande visibilidade no cenário científico e turístico. O estado apresenta uma quantidade significativa desses sítios, com 4 dos 42 reconhecidos e tombados pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (SIGEP). O levantamento sobre a ocorrência de fósseis em MG revelou quatro sítios paleontológicos, além de um sítio paleoambiental, sedimentar e estratigráfico, como também, um sítio espeleológico de importância paleontológica.

Os dados levantados revelam questões comuns entre esses sítios, como a descaracterização das tradições locais após a abertura ao turismo, além de deficiências na infraestrutura para a comunidade local, disputas entre mineradoras, moradores locais e unidades de conservação. Além disso, questões relacionadas ao desemprego, êxodo de jovens, contaminação de água e solo, e moradia em áreas de risco são recorrentes nessas regiões.

Na Bacia do Gandarela, localizada em Rio Acima, ocorrem conflitos devido aos interesses de uso do ambiente entre mineração, sociedade e as unidades de conservação (UCs). Na região encontram-se fósseis de vegetais e estromatólitos com idades entre 53 a 23 milhões de anos (Ma). 

Em Peirópolis, Uberaba, estão  presentes dinossauros, crocodilomorfos, peixes e invertebrados com idades entre 90 e 70 Ma. O local passou por disputas judiciais entre mineração, população e cientistas, resultando na ausência de mineradoras em atividade atualmente. No entanto, enfrenta desafios relacionados à infraestrutura urbana, saneamento, segurança e saúde, além de mudanças culturais em direção ao turismo paleontológico.

O sítio espeleológico da APA Carste de Lagoa Santa enfrenta problemas similares aos mencionados anteriormente. Essa região é conhecida pela abundância de fósseis, incluindo mamíferos da megafauna brasileira e fósseis humanos como a Luzia. Em Lagoa Santa, há conflitos envolvendo a UC e as comunidades locais, cujo acesso livre foi proibido, além de disputas decorrentes da ocupação desordenada do solo, levando à destruição de locais arqueológicos e paleontológicos.

Considerações finais

As comunidades que habitam sítios paleontológicos ocupam territórios influenciados por diversos elementos, tornando-os espaços não neutros. A defesa desses lugares como questões sociais, políticas e ecológicas está ligada à luta pelo direito de existir, envolvendo conflitos ambientais contra a modernização ecológica imposta pelo capitalismo. Esses conflitos refletem situações de injustiça ambiental e impulsionam a defesa do lugar. É crucial promover uma maior participação popular na proteção das riquezas naturais. Sendo fundamental repensar a Paleontologia mediante questionamentos que incentivem ações coletivas nos sítios, reconhecendo-os como mais do que apenas locais para admirar e pesquisar fósseis.

Texto fonte: SILVA, Camila Neves; COSENZA, Angélica. (2021). Paleontologia e Justiça Ambiental: tecendo conexões através da Ecologia Política. Ambiente & Sociedade, v. 24, p. e00892.

Disponível em: https://www.scielo.br/j/asoc/a/TySCNqtr9RzLRW3ftJCnV4K/?format=pdf&lang=pt.

Fonte e legenda da imagem de capa: Sítios de importância paleontológica de Minas Gerais em proximidade a áreas de mineração e unidades de conservação.

Disponível em: https://www.scielo.br/j/asoc/a/TySCNqtr9RzLRW3ftJCnV4K/?format=pdf&lang=pt. Figura 1 do artigo.


Texto revisado por: Damiane Mello Andrade e Cruz e Alexandre Liparini.