Escrito em: 07 de dezembro de 2024
Por: João Pedro Araújo Miranda
Em 2017 e 2018, 2 filhotes de Panthera spelaea vereshchagini (Goldfuss, 1810), conhecidos popularmente como leões das cavernas, foram encontrados muito próximos na região do rio Semyuelyakh, na Sibéria, por caçadores de marfim de mamutes. A fêmea foi batizada de Esparta, já o macho foi chamado de Boris. Apesar da proximidade entre os filhotes, estes animais não eram relacionados, com Boris sendo datado de aproximadamente 43.400 e Esparta de 27.900 anos de idade.
Achados de animais mumificados por congelamento não são raros na região, famosa por sua fauna do Pleistoceno (era do gelo), como mamutes, lobos, bisões, rinocerontes lanosos, ursos, renas e diversos outros. Porém, achados deste tipo sobre felinos são excepcionalmente raros, em especial neste estado de preservação, com todos órgãos internos preservados, ossos e musculatura intactos e pelagem altamente preservada, até mesmo o conteúdo estomacal contendo leite materno foi encontrado. Curiosamente, os únicos achados deste tipo para a espécie também são 2 filhotes congelados encontrados na mesma região anos antes, indicando que este local era de importância para a reprodução da espécie e possuía condições excepcionais de preservação.
Esses filhotes vêm ajudando os cientistas a compreender melhor a vida destes grandes predadores. Em especial sobre a ontogenia, o estudo do crescimento e desenvolvimento dos organismos. Os pesquisadores acreditam que os filhotes tinham entre 1 e 2 meses de idade quando faleceram. Porém, em comparação com os filhotes de leões modernos pareciam se desenvolver mais rapidamente, em especial sua dentição. Isso pode indicar uma adaptação para a reprodução no ambiente extremo que viviam, na qual o filhote deveria crescer o mais rápido possível durante o verão curto antes que o período de frio e escuridão extrema retornasse.
Outra característica que chamou a atenção dos paleontólogos foi a pelagem dos filhotes, que é distinta da dos adultos, sendo de cor mais amarronzada e escura em comparação com o cinza mais claro dos indivíduos maduros. Isso pode indicar que a pelagem dos filhotes era mais adaptada para a camuflagem em um ambiente sem neve, e na medida que cresciam se tornava mais adequada para se camuflar no ambiente de estepe. Outra questão que instigou a atenção foi a ausência de pintas semelhantes a de onças, presente nos filhotes de leões modernos e completamente ausentes nos filhotes encontrados.
Além disso, acredita-se que o dimorfismo sexual, isto é, a diferenciação entre machos e fêmeas se desenvolvia cedo nestes animais, com o filhote macho encontrado sendo maior e apresentando uma pelagem mais transicional para os adultos, fato curioso é que esses leões não parecem apresentar a tão icônica juba presente em seus parentes modernos. Análises genéticas iniciais já foram realizadas nos filhotes. A genética pode ajudar melhor a entender a evolução, características em vida e como a espécie se relaciona na árvore da vida com os outros felinos do gênero Panthera. O DNA preservado também pode tornar possível em um futuro a clonagem desses animais utilizando como base o DNA de leões.
Texto fonte: Gennady G. Boeskorov at all. (2021). The Preliminary Analysis of Cave Lion Cubs Panthera spelaea (Goldfuss, 1810) from the Permafrost of Siberia. Quaternary, Advances in Quaternary Studies: The Contribution of Mammalian Fossil Record II.
Disponível em: https://www.mdpi.com/2571-550X/4/3/24
DOI:https://doi.org/10.3390/quat4030024
Fonte e legenda da imagem de capa: Filhotes de Leão encontrados congelados
Gennady G. Boeskorov at all. (2021). The Preliminary Analysis of Cave Lion Cubs Panthera spelaea (Goldfuss, 1810) from the Permafrost of Siberia. Quaternary, Advances in Quaternary Studies: The Contribution of Mammalian Fossil Record II.
Disponível em: https://www.mdpi.com/2571-550X/4/3/24
Texto revisado por: Ana Luísa Ferreira e Alexandre Liparini.