Os Ácaros Sempre Foram Pequenos?

Escrito em: 3 de novembro de 2023

Por Daniel Bastos

Você provavelmente já viu e leu sobre fósseis de dinossauros, preguiças-gigantes e mamutes. São fósseis raros, mas possíveis de se encontrar por aí. Mas e os microrganismos aqueles que só conseguimos ver através de microscópios, como bactérias, alguns fungos e vírus: eles podem ser preservados? Ao contrário do que muitos pensam, os ácaros não são insetos, mas sim aracnídeos, assim como as aranhas e os escorpiões. Estes pequenos animais são amplamente conhecidos por viverem na poeira domiciliar e causarem alergias respiratórias em seres humanos. Entretanto, os ácaros domésticos representam uma parcela mínima de sua biodiversidade, pois este grupo de animais conta com mais de 55 mil espécies descritas em todo o mundo que colonizaram o ambiente terrestre, marinho e de água doce. Além de serem diversos, os ácaros também têm uma longa história evolutiva na Terra, uma vez que os fósseis mais antigos conhecidos datam de 410 milhões de anos atrás, no período conhecido como Devoniano Inferior. 

Uma das características mais marcantes dos ácaros é o seu pequeno tamanho corporal, o que desempenha um papel fundamental em sua capacidade de se adaptar a diversos tipos de ambiente e explorar nichos ecológicos de pequena escala. A partir disso, uma pergunta que podemos fazer sobre a história evolutiva desse grupo é a seguinte: os ácaros sempre foram pequenos? Uma resposta para esse questionamento pode ser adquirida através da análise de fósseis de ácaros oriundos de diferentes eras geológicas e da comparação de seus respectivos tamanhos médios. 

A partir da comparação do tamanho de 260 fósseis de ácaros de diferentes idades, variando de 410 a 15 milhões de anos atrás, foi constatado que os tamanhos máximos encontrados ocorreram nos indivíduos mais recentes do registro fóssil, medindo aproximadamente 7500 micrômetros, ou 0.75 cm. Ou seja, sim, os ácaros sempre foram pequenos. Isso indica que a miniaturização foi um processo evolutivo que antecede a existência do grupo, ou seja, já era uma característica presente nos ancestrais desses animais. 

Ao longo da história geológica da Terra, é possível observar pequenas variações nos tamanhos médios dos ácaros. Os ácaros mais antigos, com idade entre 410 e 320 milhões de anos, tinham um tamanho médio de cerca de 200 a 400 micrômetros. Os menores tamanhos observados no registro fóssil ocorreram durante o Triássico, há cerca de 230 milhões de anos atrás, no qual foram observados ácaros com tamanhos inferiores a 100 micrômetros, enquanto os maiores são encontrados principalmente durante o Mioceno, há cerca de 15 milhões de anos atrás. 

É válido ressaltar que, devido à maior facilidade de preservação dos fósseis, parte considerável dos ácaros utilizados no estudo é de origem mais recente, o que pode afetar a precisão da análise devido a uma amostragem desigual ao longo das eras geológicas. Entretanto, com base nesses achados paleontológicos, é possível inferir que o tamanho médio dos ácaros sofreu variações ao longo de sua história evolutiva, as quais podem ter ocorrido por diferentes motivos que ainda precisam ser estudados em maior profundidade.

Texto fonte: Sidorchuk, E. A. (2018). Mites as fossils: forever small? International Journal of Acarology, v. 44, n. 8, p. 349–359. Doi: 10.1080/01647954.2018.1497085 Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/epdf/10.1080/01647954.2018.1497085?needAccess=true acessado em: 07/11/2023

Fonte e legenda da imagem de capa: Ácaro extinto da família Glaesacaridae, fossilizado em âmbar báltico, que viveu há aproximadamente 44 milhões de anos durante o período Eoceno. Wikimedia Commons contributors, ‘File:Milbe cf Glaesacarus rhombeus.jpg’, Wikimedia Commons, 9 outubro 2020, 01h49min UTC, Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=File:Milbe_cf_Glaesacarus_rhombeus.jpg&oldid=484626299> acessado em: 08/11/2023


Texto revisado por: Lucélio Batista e Alexandre Liparini.

Como Preservar um Vírus em Sílica

Escrito em: 3 de novembro de 2023

Por Samantha Viegas

Você provavelmente já viu e leu sobre fósseis de dinossauros, preguiças-gigantes e mamutes. São fósseis raros, mas possíveis de se encontrar por aí. Mas e os microrganismos – aqueles que só conseguimos ver através de microscópicos, como bactérias, fungos e vírus: eles podem ser preservados?

A resposta é sim! Já foram encontrados microfósseis de fungos e bactérias em rochas antigas. Mas e quanto aos vírus? Já imaginou como seria possível preservar um parasita que só se reproduz dentro de uma célula e são ainda menores do que bactérias?

Bom, um grupo de cientistas na França conseguiu – simulando experimentalmente o processo de microfossilização natural. Para isso, eles selecionaram 3 vírus diferentes, começando por um com formato de bastonete que infecta arqueias – microrganismos que, apesar de se parecerem com bactérias, são mais proximamente relacionados aos eucariotos, incluindo os seres humanos – que vivem em nascentes vulcânicas. Também foram selecionados dois vírus com formato de limão: um infecta arqueias encontradas em chaminés hidrotermais a 2.700 metros de profundidade, e outro, arqueias de águas profundas e hiper quentes. Todos esses vírus têm algo em comum: são capazes de infectar arqueias hipertermofílicas, microrganismos que se parecem bactérias, mas não são, e vivem em ambientes com temperaturas acima de 80 °C.

Ou seja, tanto esses vírus quanto as arqueias parasitadas por eles vivem em ambientes muito extremos, que lembram as condições na Terra há alguns bilhões de anos, quando os primeiros organismos surgiram. Isso quer dizer que esses microrganismos potencialmente se parecem com as primeiras formas de vida, já que vivem em ambientes tão extremos quanto os do passado. Porém, não ouvimos falar de fósseis de vírus encontrados por aí. A explicação para isso está no seu tamanho: vírus podem ser centenas a milhares de vezes menores do que uma célula.

Então como os cientistas conseguiram fossilizar os vírus?

Bom, tudo começou com a sílica, um mineral que hoje é encontrado em rochas e areia, mas que era muito abundante nos oceanos da Terra primitiva, bilhões de anos atrás. De fato, os fósseis mais antigos de microrganismos já encontrados foram preservados em restos silicificados. Nesse processo, a sílica se precipitou ao redor das estruturas, formando ligações químicas com proteínas e outras moléculas que ajudaram na sua preservação. E foi a partir disso que os cientistas tiveram a ideia de tentar realizar a fossilização experimental daqueles três vírus em sílica, avaliando sua preservação ao longo de vários meses.

E de fato eles conseguiram fossilizar os vírus, com diferentes níveis de sucesso – o vírus em formato de bastonete demonstrou maior afinidade com a sílica, enquanto os outros dois, que possuem envelopes lipídicos, mostraram menor interação. O que provavelmente aconteceu é que as partículas virais foram aprisionadas no precipitado de sílica, e isso ajudou na conservação das proteínas e envelopes. Por microscopia eletrônica de transmissão, eles puderam ver as partículas virais ao longo do tempo, algumas cobertas e preenchidas por um precipitado escuro, provavelmente composto de sílica.

A conclusão disso tudo é que sim, vírus podem ser fossilizados com sílica, e os seus restos e vestígios podem ser preservados no registro geológico. Porém, não é tão simples assim: a identificação destes microfósseis pode ser um desafio por causa do tamanho diminuto dos vírus, que os torna difíceis de diferenciar de artefatos minerais. A boa notícia é que isso prova que vírus podem ser fossilizados, e que olhares mais atentos talvez encontrem vestígios de vírus fossilizados por aí no futuro.

Texto fonte: Orange, F.; Chabin, A.; Gorlas, A.; Lucas-Staat, S.; Geslin, C.; Le Romancer, M.; Prangishvili, D.; Forterre, P.; Westall, F. (2011). Experimental fossilisation of viruses from extremophilic Archaea. Biogeosciences, v. 8, p. 1465–1475. https://doi.org/10.5194/bg-8-1465-2011.

Fonte e legenda da imagem de capa: Partícula viral coberta e preenchida com precipitados de sílica. Fig. 3G do texto fonte. Disponível em < https://bg.copernicus.org/articles/8/1465/2011/ >, acesso em: 13/01/2025


Texto revisado por: Lucas Rabelo e Alexandre Liparini.

O valor da podridão: como um tronco em decomposição desvendou relações entre fungos e plantas

Escrito em: 2 de novembro de 2023

Por: Diego Raphael Lewer Silveira

Do bolor de pão à levedura utilizada para fazer queijo, o reino fungi é diverso e fascinante. A maioria deles são sapróbios, ou seja, se alimentam de matéria orgânica, sendo fundamentais para a reciclagem de nutrientes no ambiente. Também, fungos modernos frequentemente formam relações estreitas com as plantas, podendo auxiliar essas na obtenção de nutrientes.

Um dos elos mais antigos de relações plantas-fungos data de cerca de 400 milhões de anos atrás durante o devoniano inferior! Há o envolvimento da planta fóssil chamada Aglaophyton major, ela apresentava características semelhantes às samambaias atuais, pertencentes do grupo das pteridófitas. No entanto, evidências fósseis de fungos associados as plantas terrestres tem sido notavelmente escassas, em teoria devido às características intrínsecas dos fungos, como seu tamanho microscópico, e seu padrão de decomposição, além dos desafios da preservação fóssil de plantas.

Todavia, recentemente foi encontrado na Formação Morrison localizada em no estado de Utah nos Estados Unidos, um fóssil permineralizado – ou seja, com precipitação de minerais no interior dos tecidos – de madeira com as hifas preservadas. Esse tronco data do Jurássico Superior, cerca de 161 milhões de anos atrás, e foi identificado como de uma espécie enigmática pertencente a um gênero semelhante ao das coníferas, o Xenoxylon.

Examinando seções finas do fóssil no microscópio, os pesquisadores conseguiram comparar áreas com maior decomposição com outras mais intactas, embora a evidência mais embasada da presença do fungo foi a verificação de um micélio bem preservado. Os padrões de decomposição de fungos modernos chamados de “white rot”, (principais fungos decompositores de lignina, substância presente em troncos), é extremamente parecido com o observado, o que sugere que as observações feitas no tronco permineralizado são de um processo de decomposição avançado, e não um mero artefato da fossilização. Além disso, a identificação das hifas permitiu a inclusão desse fungo em um gênero, o Palaeancistrus.

Por meio da observação do passado com um objeto do presente, é possível compreender as relações ecológicas do Jurássico Superior entre plantas e fungos. Além disso, o simples tronco fossilizado serviu como uma janela para reconstruir a biodiversidade fúngica tanto em termos temporais quanto geográficos na região.


Palavras-chave: Fungos, plantas, Jurássico, Formação Morrison, coníferas, fóssil

Fonte e legenda da imagem de capa: https://www.nps.gov/dino/learn/nature/images/Morrison-Plants-2_3.jpg : Ilustração da reconstrução da flora da Formação Morrison. Já foram encontrados diversos fósseis de plantas do local que permitem uma reconstrução cheia de samambaias, cicadófitas, ginkos e coníferas tão altas quanto as sequoias atuais. Créditos: NPS / Bob Walters and Tess Kissinger

Texto fonte: Ancient Basidiomycota in an extinct conifer-like tree, Xenoxylon utahense, and a brief survey of fungi in the Upper Jurassic Morrison Formation, USA

Disponível em: https://doi.org/10.1017/jpa.2023.12

Texto revisado por: Gabriel Félix Diório

E se cruzássemos um canguru latino com um dente-de-sabre?

Escrito em: 7 de novembro de 2023

Por: Eloy Ramos Seixas

O Thylacosmilus atrox foi um mamífero que habitava o continente sul-americano durante o Plioceno, cerca de 5 milhões de anos atrás, e embora não seja um canguru, ele pertence ao mesmo grupo, os marsupiais. O T. atrox era um quadrúpede de porte semelhante ao de uma onça-pintada que possuía caninos hiperdesenvolvidos semelhantes aos de um tigre-dente-de-sabre. Esses dentes especializados são frequentemente citados como um exemplo clássico de convergência evolutiva, um fenômeno em que uma característica evoluiu independentemente em diferentes espécies, sem estar presente em um ancestral comum.

Essa semelhança aparente entre o T. atrox e outros “dentes de sabre”, como o Smilodon fatalis, da ordem Carnívora, sugere morfologias e comportamentos predatórios semelhantes. Por isso, é razoável supor que esses grandes dentes tenham exigido adaptações anatômicas e ecológicas específicas para seu desenvolvimento e uso. Tais mudanças eram direcionadas, por exemplo, no tamanho e orientação dos músculos adutores para possibilitar uma maior extensão da mandíbula, além de outras adaptações que permitiam esses animais fincar seus “dentões” em suas presas sem prejudicar a si mesmos. No entanto, será que a semelhança anatômica por si só é suficiente para afirmar que esses dois animais desempenhavam o mesmo papel ecomorfológico?

Um estudo publicado no periódico PeerJ, pelos pesquisadores Christine M. Janis, Borja Figueirido, Larisa DeSantis e Stephan Lautenschlager, analisou o crânio e a dentição do T. atrox e do S. fatalis, revelando várias disparidades nessas estruturas. Os pesquisadores concluíram que esses dois animais não desenvolveram seus super-caninos para a mesma finalidade e não compartilhavam um comportamento predatório idêntico. Para chegar a essa conclusão, eles realizaram uma análise detalhada e comparativa das características craniodentais, considerando morfologia, desgaste dos dentes, comportamento e preferências alimentares. Além disso, conduziram simulações do desempenho do crânio e da dentição desses animais, explorando a biomecânica dessas estruturas em diversos cenários predatórios.

Os resultados obtidos demonstram que o T. atrox possuía uma combinação única de características, que o distinguia de qualquer carnívoro placentário com “dentes de sabre” conhecido. Com base nessas descobertas, os pesquisadores propuseram diferentes estratégias de predação, mas reconheceram que a anatomia do T. atrox fornece poucas pistas sobre como ele realmente caçava suas presas. O estudo também destaca que essas particularidades não podem ser atribuídas apenas ao fato dele ser um marsupial em vez de um mamífero placentário. Em outras palavras, essas características foram adaptadas em contextos ecomorfológicos distintos dos observados nos felinos “dentes de sabre”.

Outro ponto interessante abordado pelos pesquisadores é o costume de tentarmos encaixar um bicho extinto dentro do que já conhecemos de outros animais viventes, como já se fez com elefantes e girafas extintos. No entanto, parece não haver nenhum organismo vivo ou extinto com papel ecomorfológico análogo ao do dente-de-sabre marsupial. Sendo assim, essa análise não apenas expande nosso entendimento sobre a diversidade da vida pré-histórica, mas também nos lembra que a evolução é um processo complexo e multifacetado, que molda as espécies de maneiras únicas e surpreendentes.


Palavras-chave: Marsupial, Tigre-dentes-de-sabre, Ecomorfologia, Predação

Fonte e legenda da imagem de capa: Ilustração representativa do T. atrox em vida, carregando um filhote no marsúpio. Disponível em: https://paleontologiahoje.com/wp-content/uploads/2025/01/d08fc-thylacosmilusatrox25percent.jpg

Texto fonte: M. Janis C, Figueirido B, DeSantis L, Lautenschlager S. (2020). An eye for a tooth: Thylacosmilus was not a marsupial “saber-tooth predator”. PeerJ 8:e9346 https://doi.org/10.7717/peerj.9346

Disponível em: ttps://peerj.com/articles/9346 acessado em 07/11/2023

Texto revisado por: Fernanda Moreira

Como, depois de 500 milhões de anos, os Náutilus quase desapareceram?

Escrito em: 11 de novembro de 2023

Por: Carolina P. Procópio-Santos

Os Náutilus são um grupo de cefalópodes, parentes próximos das lulas e polvos, que surgiram no período cambriano, há cerca de 500 milhões de anos.

Armados com uma poderosa concha externa, esses animais sobreviverem pelo menos a cinco eventos de extinção em massa, inúmeras mudanças geoclimáticas no planeta e ao surgimento e desaparecimento de várias espécies de predadores ao longo do tempo.

Até o final do Eoceno, em torno de 35 milhões de anos atrás, eles eram extremamente abundantes nos oceanos de todo planeta. Isso nos leva a questionar: o que aconteceu nos últimos 35 milhões de anos que fez um grupo tão grande quase desaparece por completo?

Atualmente restam apenas duas linhagens de náutilos, ambas nativas da região Indo-Pacífica e restritas aos mares ao redor da Indonésia, Malásia, Papua-Nova Guiné e Austrália. Apesar disso, esses animais apresentam uma grande abundância numérica de indivíduos e sinais de que ainda estão passando por processos de diversificação.

Isso sugere que, seja qual for a causa da extinção de várias linhagens de náutilos no passado, ela continua a exercer pressão, limitando a expansão desse grupo até os dias de hoje.

Em 2019, um grupo de pesquisadores propôs uma hipótese intrigante para resolver esse mistério. Qual seria essa hipótese? Focas! Isso mesmo, os pinípedes — um grupo de mamíferos marinhos predadores — surgiram e se diversificaram no Oligoceno, há cerca de 30 milhões de anos. Ao compararem os registros fósseis das espécies de náutilos e dos pinípedes, os pesquisadores observaram um padrão: onde os pinípedes apareciam, os náutilos desapareciam. Embora os náutilos tenham enfrentado outros predadores ao longo da história, muitos desses predadores provavelmente tinham dificuldade em retirá-los de suas conchas. Já os pinípedes, com seus dentes fortes, são capazes de quebrar as conchas e sugar o animal para fora, tornando-se, assim, o predador perfeito.


Palavras-chave: Cefalópodes, Náutilus, Extinção, Fóssil vivo, Diversidade

Fonte e legenda da imagem de capa: Espécime de Nautilus vanuatuensis. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nautilus_vanuatuensis.jpg

Texto fonte: Kiel, S., Goedert, J. L., & Tsai, C.-H. (2022). Seals, whales and the Cenozoic decline of nautiloid cephalopods. Journal of Biogeography, 49, 1903–1910. https://doi.org/10.1111/jbi.14488

Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/share/UM9AQ5HYA8JJGHRTVSSG?target=10.1111/jbi.14488 acessado em 01/11/2023

Texto revisado por: Giulia Alves

Não é um pássaro nem um avião: como os morcegos aprenderam a voar

Escrito em: 07 de novembro de 2023

Por: Teresa Mol Fonseca

Os morcegos possuem características singulares: além de serem capazes de voar, utilizam a ecolocalização, um fenômeno em que emitem ondas sonoras que, ao refletirem nos objetos à sua frente, permitem que eles se localizem no ambiente.

Diversos fatores contribuem para a habilidade de voo dos morcegos, como:

  • Metabolismo acelerado, que fornece a energia necessária para o voo;
  • Ecolocalização, que os ajuda a se orientar no ar mesmo com visão limitada;
  • Corpo aerodinâmico e ossos leves, que reduzem a resistência do ar;
  • Membranas entre os dedos e a lateral do corpo, que formam asas perfeitas para o deslocamento.

O fóssil mais antigo de morcego, da espécie Onychonycteris finneyi, com cerca de 52 milhões de anos, foi encontrado no Wyoming, EUA. Esse fóssil já apresentava algumas dessas características, mas seu corpo não era tão aerodinâmico e ele possuía garras nos dedos das asas. Isso indica que ele era capaz de planar por curtas distâncias e escalava com habilidade, sugerindo uma evolução gradual até os voadores eficientes que conhecemos hoje.

Ainda existem debates entre cientistas sobre como essa evolução aconteceu. Uma das principais questões é: o que surgiu primeiro, o voo ou a ecolocalização?

Uma teoria, chamada hipótese da membrana interdigital, sugere que os ancestrais dos morcegos tinham hábitos noturnos, audição excelente e emitiam sons em frequências ultrassônicas para comunicação (que mais tarde evoluíram para a ecolocalização). Esses ancestrais viviam em árvores, possuíam dedos longos para capturar insetos e membranas que impediam que as presas escapassem. Com o tempo, essas membranas começaram a ajudá-los a planar entre as árvores e, com o passar das gerações, evoluíram para as asas, permitindo o voo ativo.

O voo foi crucial para o sucesso evolutivo dos morcegos, permitindo que se espalhassem pelo planeta. Hoje, eles desempenham papéis essenciais nos ecossistemas devido à sua diversidade alimentar: alguns se alimentam de néctar, frutas, insetos e até sangue. Graças a isso, contribuem para a polinização de plantas, a dispersão de sementes e o controle de populações de insetos.

Entender e preservar esses animais é fundamental para manter o equilíbrio da natureza e proteger os serviços ecológicos que eles oferecem.
Palavras-chave: Morcego, voo, membrana interdigital, ecolocalização, evolução

Fonte e legenda da imagem de capa: Morcego da espécie Corynorhinus townsendii voando. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Big-eared-townsend-fledermaus.jpg

Texto fonte: ANDERSON, Sophia C.; RUXTON, Graeme D. (2020) The evolution of flight in bats: a novel hypothesis. Mammal Review, v. 50, n. 4, p. 426-439. Doi: https://doi.org/10.1111/mam.12211. 

Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/mam.12211#:~:text=The%20flight%2Dfirst%20hypothesis%20proposes,allowed%20greater%20control%20and%20manoeuvrability. Acesso em: 07 nov. 2023.

Texto revisado por: Vívian Camargos Pinto

Coníferas: O Legado Verde das Árvores de Natal

Escrito em: 25 de dezembro de 2024

Por: Giulia Alves

O Natal chegou, e você provavelmente já está imaginando as tradicionais árvores de Natal enfeitadas com luzes e estrelas brilhantes. Mas você sabia que as árvores mais associadas a essa data especial, como os pinheiros, são coníferas? Essas árvores antigas têm mais de 300 milhões de anos de história, e sua conexão com o Natal vai muito além das festividades! 

Neste artigo, vamos explorar o fascinante mundo das coníferas, desde suas origens até sua importância nos ecossistemas atuais e, claro, sua relação com o Natal. Prepare-se para viajar no tempo e descobrir como essas árvores se tornaram parte da nossa celebração natalina!

Como base para a presente pesquisa foi utilizado o artigo: Mendão, A. S. N., & Pais, J. (2015). As grandes transformações das plantas ao longo da história da Terra. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Nova de Lisboa.

As coníferas, que incluem árvores como pinheiros, ciprestes e abetos, fazem parte de um dos grupos mais antigos de plantas na Terra. Com alguns de seus fósseis mais antigos, como Swillingtonia denticulata, datando do período Carbonífero.

Embora já existissem nesse período, foi no Triássico que as coníferas realmente se expandiram e começaram a ocupar as regiões mais secas do planeta. Durante esse tempo, as sete famílias de coníferas atuais — Pinaceae, Podocarpaceae, Taxaceae, Cupressaceae, Taxodiaceae, Araucariaceae e Cephalotaxaceae — apareceram no registro fóssil.

Essas plantas se destacam por características adaptativas, como seu crescimento piramidal e as folhas em forma de agulha ou escama, cobertas por uma camada cerosa que as torna resistentes ao frio e à seca. As coníferas também possuem traqueídos dispostos em anel com canais resiníferos, o que as ajuda a manter sua vitalidade em ambientes mais áridos. Além disso, seu pólen possui um tubo polínico, uma adaptação que permite o transporte das células espermáticas diretamente até os óvulos, tornando-as mais evoluídas do que outros grupos de plantas, como as Cycadales e Ginkgoales.

Entre os fósseis mais comuns desse período, destaca-se Utrechia, uma planta que podia alcançar até cinco metros de altura e possuía características semelhantes à Araucaria heterophylla atual. Assim como outras coníferas, Utrechia produzia cones masculinos e femininos na mesma planta. 

Embora as coníferas tenham suas raízes profundas no passado, elas continuam a evoluir. Durante o período Cretáceo, há cerca de 100 milhões de anos, as coníferas experimentaram uma grande diversificação, com espécies se adaptando a novas condições climáticas e geomorfológicas. Essa diversificação permitiu que as coníferas se espalhassem por continentes e se tornassem dominantes em vastas regiões do planeta.

Sua adaptação ao frio, com a preservação de suas folhas em agulhas, também tem uma explicação científica importante: as folhas em agulha reduzem a perda de água, o que é fundamental para sobreviver em regiões onde a água é limitada, como nas altas latitudes.

Além de sua resistência, as coníferas desempenham um papel vital nos ecossistemas modernos. Elas são habitat para inúmeras espécies de animais e contribuem para a saúde do solo, com suas folhas caídas servindo como fertilizante natural. A madeira das coníferas também é amplamente utilizada pela indústria, especialmente em construções e móveis.

Mas, para muitos de nós, as coníferas têm um significado ainda mais especial. Elas se tornaram símbolos de celebração e renovação, especialmente durante o Natal. A tradição de decorar uma árvore de Natal com luzes e enfeites tem raízes profundas na história, com as coníferas sendo escolhidas devido à sua perenidade, representando a vida contínua e a esperança no meio do inverno.

As coníferas não são apenas as árvores que vemos nas festas de fim de ano. Elas são testemunhas de uma história longa e fascinante de adaptação, transformação e sobrevivência. Desde o final do Carbonífero até os dias de hoje, essas árvores continuam a nos surpreender com sua beleza e resistência, conquistando um lugar especial no coração das celebrações natalinas.

Assim, ao decorar sua árvore de Natal, lembre-se: você está não apenas celebrando o Natal, mas também homenageando um dos grupos de plantas mais antigos e duradouros da Terra, que atravessaram milhões de anos para chegar até nós.

Texto fonte: Mendão, A. S. N., & Pais, J. (2015). As grandes transformações das plantas ao longo da história da Terra. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Nova de Lisboa.

Fonte e legenda da imagem de capa: Conífera decorada para o Natal, simbolizando a conexão com a tradição natalina. (Foto: Pixabay/AnnieSpratt/Creative Commons)

Disponível em:

https://globorural.globo.com/vida-na-fazenda/noticia/2018/12/arvore-de-natal-como-comprar-e-cuidar-do-pinheiro-natural-dentro-de-casa.html


Texto revisado por: Alexandre Liparini.

O último olhar às estrelas: o Legado de um filhote do Pleistoceno

Escrito em: 17 de dezembro de 2024

Por: Pedro Marzano

O horizonte é branco assim como os flocos que descansam em seu pelo, mas o frio não te incomoda. Passo a passo, o peso que exerce sobre a neve mal deixa marcas, afinal você ainda é pequeno demais para isso. Por sorte, seus olhos juvenis já estão acostumados com a paisagem pálida, tornando-a trivial. Mas, mesmo no cotidiano esbranquiçado, destaques fazem com que você se oriente.

Você olha para cima e o céu apresenta os mesmos pontos brilhantes de sempre. Mas hoje, tons verdes, azuis e acinzentados parecem dançar junto a eles. É algo novo. Talvez, em breve, a dança do céu se torne tão trivial quanto os pontos brancos que dele caem. Mas, por enquanto, é inédito. Algo que jamais ocorrera na eternidade que compõe as três semanas de sua existência.

Você se distrai com os movimentos celestes. Tão acostumado a olhar para frente, você fica paralisado ao olhar para cima. É como se o tempo parasse. Você ergue o corpo e tenta tocar o que se movimenta acima de você, mas apenas frios flocos de neve tocam suas patas arredondadas.

Por sorte, há alguém que lhe traz de volta à realidade.

Um rugido tímido atinge seus pequenos ouvidos, que orientam sua cabeça de volta àquela que vem lhe guiando desde que você enxergou pela primeira vez. Seu pelo é muito mais escuro do que o dela, que parece se disfarçar no próprio branco que chamam de casa. Mesmo assim, o movimento que ela faz é tão inconfundível  quanto as luzes que dançam ao céu.

É a sua mãe, afinal.

Instintivamente você retorna à sua posição de jornada, virando-se abruptamente em direção ao seu norte materno. Ali, naquele instante, o peso frágil de todo o seu corpo pressiona contra o gelo onde caminha.

Você ouve um barulho.

Um estalo.

E, de repente, o frio aumenta e todo branco se torna azul.

O tempo, de fato, para.

Mas a sua história não termina.

——

Em 2020, pesquisadores encontraram, na fria região da República de Sakha (Yakutia), na Rússia, algo extraordinário. Em meio ao permafrost da região, uma figura amarronzada destoava do gelo ao redor. Ao analisar de perto, o formato da bola de pelo se revelava no que pareciam patas, depois orelhas e depois um focinho. Era uma múmia.

Sem perder tempo, os cientistas iniciaram a extração do espécime para análise em laboratório. Tratava-se de um achado raro, mas não inédito. Apesar de raras, múmias já foram encontradas na região. As condições gélidas do permafrost, junto às nevascas constantes, tornam restos de animais particularmente suscetíveis a este processo no local. Especialmente mamutes.

Um torso com 6 pares de costelas inteiros e 6 fragmentados, dois membros anteriores e uma cabeça foram retirados do local de descanso do animal. Mas algo era ainda mais espetacular. Onde estava a tromba? Por que era tão pequeno? Por que as patas eram assim, arredondadas e afofadas?

Não era uma múmia qualquer. Tratava-se de um felino.

Emergido de paredes brancas de gelo, o corpo retorna a paredes brancas de azulejo. É colocado dentro de uma máquina cilíndrica grande, um aparelho de tomografia computadorizada. Por ser valioso demais, os cientistas preferem não arriscar danificar o espécime. Um escaneamento tridimensional é feito, uma reconstrução digital capaz de fornecer informações valiosas para saciar a curiosidade dos pesquisadores.

A tumba de metal gira, range e apita enquanto a anatomia do animalzinho é, ponto a ponto, reconstruída na tela que ocupa os olhos dos cientistas. Sem perder tempo, o trabalho é iniciado. Réguas virtuais são traçadas sobre cada parte da reconstrução, transformando-a em uma série de medidas milimétricas de cada porção do filhote.

Mas havia muito a fazer. Contendo os ânimos, os pesquisadores contentaram-se em encontrar um foco inicial: o crânio. Este sim traria informações fundamentais no momento.

Era preciso entender quem fora aquele filhote. Quem eram seus parentes na família evolutiva? Onde, afinal, estava este bichinho na gigantesca árvore da vida? O crânio, que um dia sustentou o rosto que olhou para as estrelas, era o registro anatômico de onde sairiam aquelas respostas.

Ao analisar marcações específicas do crânio, a ligação entre esses ossos e suas proporções, bem como especificidades da arcada dentária, foi possível dar nome e idade ao animal. As especificidades dessa estrutura posicionaram o filhote como um Homotherium, um predador adaptado ao frio do Pleistoceno Superior. Quanto à idade, pôde-se avaliar com base no desgaste das presas, condizente com o que é observado em leões filhotes de cerca de três semanas de idade.

Inclusive, não foi apenas um filhote de leão usado como comparação. Infelizmente, a falta de parentes recentes dos Homotherium dificultou o trabalho comparativo feito pelos pesquisadores. Por sorte, havia acesso a uma grande coleção de espécimes de leão em coleções locais. Apesar de não ser ideal, os leões são alguns dos felinos mais estudados da atualidade, o que permite que estruturas anatômicas possam ser comparadas e suas funções inferidas com base no vasto conhecimento que a comunidade possui destes felinos.

Outra característica marcante encontrada pelos cientistas fora o pescoço robusto do pequeno animal. Para o seu tamanho, a musculatura ao redor de seu pescoço era impressionante. Não passou muito tempo até que os pesquisadores imaginassem o potencial predador que o animalzinho teria se tornado. A força do pescoço certamente serviria para que a potência fatal de suas mordidas derrubasse a maior e mais veloz das presas.

Assim como o pescoço, os membros anteriores também eram particularmente grandes e compridos. Provavelmente para que fossem lançados na direção de suas futuras refeições enquanto ainda vivas. Se tivesse tido a oportunidade, o filhote teria usado as mesmas patas que estendeu ao céu para capturar seus alvos. Patas essas que pareciam bem mais arredondadas do que àquelas dos leões, o que permitia a espreita astuta e persistente de sua espécie, bem como a protegia do próprio frio que compunha sua identidade.

Em uma última análise antes de publicar a descoberta, os cientistas voltaram-se ao pelo escuro do animal. Uma amostra coletada teve seus isótopos de carbono-14 datados e a pausa no tempo do filhote foi revelada: 35 mil anos.

Ali, na paisagem fria e branca do permafrost russo, 35 mil anos atrás, a história do felino começava.

Mas ainda há muito trabalho a fazer.

E essa história certamente não terminou.

Texto fonte: Lopatin, Alexey & Sotnikova, Marina & Klimovsky, Aisen & Lavrov, Alexander & Protopopov, A. & Gimranov, Dmitriy & Parkhomchuk, Ekaterina. (2024). Mummy of a juvenile sabre-toothed cat Homotherium latidens from the Upper Pleistocene of Siberia. Scientific Reports. 14. 1-10. 10.1038/s41598-024-79546-1.

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/385817965_Mummy_of_a_juvenile_sabre-toothed_cat_Homotherium_latidens_from_the_Upper_Pleistocene_of_Siberia

DOI: 10.1038/s41598-024-79546-1.

Fonte e legenda da imagem da capa: Múmia congelada do Homotherium latidens

Disponível em: https://www.researchgate.net/figure/The-frozen-mummy-of-Homotherium-latidens-Owen-1846-specimen-DMF-AS-RS-no-Met-20-1_fig1_385817965

Texto revisado por: Alexandre Liparini e Sandro Ferreira de Oliveira

TRANSPORTE DE RESTOS ESQUELETAIS DE UMA ESPÉCIE DE PTEROSSAURO DESCOBERTO NO BRASIL

Escrito em: 5 de novembro de 2023

Por: Bárbara Luísa Vieira da Silva

O clima desempenhou um papel significativo na evolução e expansão dos sauropodomorfos, dinossauros que habitaram na Terra durante os períodos Triássico e Jurássico. No início, quando os dinossauros eram raros e geograficamente restritos, o clado Sauropodomorpha ocupava ambientes climáticos mais limitados em comparação a outros grupos, como os dinossauros tetrápodes e não-sauropodomorfos. Eles preferiam habitats mais frios, caracterizados por temperaturas superficiais sazonais. Enquanto isso, os dinossauros tetrápodes ocupavam regiões mais amplas com climas quentes e baixa sazonalidade, lugares onde os sauropodomorfos estavam ausentes. 

No entanto, à medida que avançamos para o período Jurássico, esses habitats começaram a se sobrepor, permitindo que os sauropodomorfos se expandissem para áreas com climas variados, colonizando tanto regiões frias quanto quentes. Isso resultou em uma expansão significativa de sua extensão geográfica à medida que os dinossauros não-sauropodomorfos começaram a migrar para regiões com temperaturas mais frias e com maior sazonalidade. 

Essa mudança no comportamento dos Sauropodomorpha é importante para entender a evolução desses dinossauros. No Triássico, eles habitavam predominantemente ambientes mais frios, excluindo habitats mais quentes de baixa latitude, enquanto no Jurássico, optaram por áreas com climas mais quentes. Essa transição climática representou um marco evolutivo importante para os saurópodes.  

A expansão geográfica desses dinossauros foi possível graças à conservação das condições climáticas favoráveis em seu habitat durante a transição do Triássico para o Jurássico. Em contraste, outros grupos de dinossauros não tiveram a mesma sorte, já que seus ambientes e climas preferidos passaram por mudanças significativas. Durante esses períodos, os sauropodomorfos atingiram seu número máximo de indivíduos em regiões com temperaturas que variavam entre 40°C e 50°C. Isso demonstra claramente que a variação de temperatura desempenhou um papel fundamental na distribuição inicial dos dinossauros, com foco especial nos sauropodomorfos.

Texto fonte: Dunne, E. M. et al. (2023). Climatic controls on the ecological ascendancy of dinosaurs. Current Biology. V. 33. Pages 206-214.e4.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0960982222018942.

DOI: https://doi.org/10.1016/j.cub.2022.11.064.

Fonte e legenda da imagem de capa: Diferentes espécies de dinossauros em habitats diversos onde há variação climática.

Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/wp-content/uploads/sites/12/2022/11/221128081200-02-new-dwarf-dinosaur-species.jpg.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Jurassic Park da vida real? Mosquito fossilizado cheio de sangue é descrito pela primeira vez na história.

Escrito em: 6 de novembro de 2023

Por Ana Lima

Desde o lançamento do filme “Jurassic Park” há 30 anos, cientistas em todo o mundo se perguntam se é realmente possível trazer os dinossauros de volta à vida a partir do DNA encontrado no abdômen de mosquitos fossilizados. No entanto, somente em 2013, ocorreu um marco histórico, quando pela primeira vez descobriu-se o fóssil de um mosquito cheio de sangue preservado, datado de cerca de 46 milhões de anos (Eoceno médio), na Formação de Kishenehn, em Montana nos Estados Unidos. Este espécime foi encontrado em uma rocha de xisto por um estudante de mestrado em geologia durante uma pesquisa de campo e posteriormente doado ao Departamento de Paleobiologia no Museu Nacional de História Natural (NMNH).

       O espécime passou por várias análises laboratoriais que revelaram uma alta concentração de ferro no abdômen, juntamente com moléculas de porfirina, que são derivadas dos mecanismos de transporte de oxigênio pela hemoglobina no sangue. Para os fãs de “Jurassic Park”, infelizmente, o fóssil não possui idade suficiente para ter coexistido com os dinossauros, mas ainda representa uma descoberta significativa para a ciência, uma vez que a preservação de insetos hematófagos, ou seja, que se alimentam de sangue, é um evento extremamente raro.

        Não é possível determinar a que organismo ancestral pertence o sangue encontrado no abdômen do mosquito, uma vez que o DNA se degrada rapidamente, sendo impossível sua preservação ao longo de 46 milhões de anos. Portanto, mesmo que tenhamos o sangue de um animal pré-histórico armazenado em um mosquito fossilizado, seria inviável trazê-lo de volta à vida como os dinossauros retratados no filme. Para clonar esses animais, seria necessário montar um genoma completo a partir de fragmentos de DNA e inserir esse material genético em um óvulo de uma espécie viva semelhante àquela à qual o sangue pertencia. Por enquanto, a criação de um “Jurassic Park” permanece no reino da fantasia.

Texto fonte: Greenwalt, D. E.; Goreva, Y. S.; Siljestrom, S. M.; Rosae, T.; Harbach, R. E. (2013) Hemoglobin-derived porphyrins preserved in a Middle Eocene blood-engorged mosquito. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 110, n. 46, p. 18496–18500. Doi: 10.1073/pnas.1310885110 

Disponível em: https://www.pnas.org/doi/full/10.1073/pnas.1310885110>. Acesso em: 06 nov 2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Mosquito cheio de sangue preservado em rocha por 46 milhões de anos. https://www.pnas.org/cms/10.1073/pnas.1310885110/asset/db50e695-cb28-4db2-a802-16b66a4411ba/assets/graphic/pnas.1310885110fig01.jpeg


Texto revisado por: Lucélio Batista e Alexandre Liparini.