O Poseidon Brasileiro

Escrito em: 28 de novembro de 2024

Por: Sandro Ferreira de Oliveira

Os titanossauros são dinossauros conhecidos pelo seu porte grande, estando inclusos no clado Titanosauria os maiores dinossauros que já existiram. Eles andavam sobre quatro patas, tinham o pescoço bastante comprido com uma cabeça pequena em relação ao corpo que usavam para se alimentar de plantas. São considerados um grupo cosmopolita, pois habitavam diversas regiões do planeta e representam um dos clados mais abundantes dos Sauropoda. O Brasil possui alguns titanossauros descritos, e em 2016 foi apresentada a primeira espécie gigante do país.

O Austroposeidom magnificus foi encontrado nos arredores da cidade de Presidente Prudente, no sudoeste do estado de São Paulo. Datado do período Cretáceo Superior, este dinossauro foi descoberto pelo paleontólogo Llewellyn Ivor Price em 1953. É um achado incrível que, por ter sido encontrado nessa região, aumenta a diversidade de espécies brasileiras do Grupo Bauru, que possui diversos depósitos de vertebrados.

O nome “Austro” homenageia a América do Sul, enquanto que “Poseidon” faz alusão ao deus grego do mar Poseidon, responsável pelos terremotos e tempestades. O epíteto específico “magnificus” vem do latim e significa “elevado, nobre, grande” em referência ao seu grande tamanho,  estimado em 25 metros de comprimento. Dessa forma, não havia uma forma melhor para se nomear este dinossauro como esta.

Foram encontradas duas vértebras cervicais incompletas, uma costela cervical, uma vértebra dorsal completa e 7 fragmentos de vértebras dorsais, além de um fragmento de vértebra sacral. Tudo isso contribuiu para descrever o maior dinossauro brasileiro conhecido naquele momento. Todos esses fósseis pertencem ao mesmo indivíduo,  cujo espécime recebeu o número Tombo: MCT 1628-R, que é um número de identificação feito para cada fóssil descoberto. 

A espécie foi comparada com outros 34 titanossauros, o que permitiu analisar as características entre eles e confirmar que A. magnificus era realmente uma nova espécie de dinossauro. A descrição dela possibilitou aumentar o nosso conhecimento a respeito dos titanossauros brasileiros, particularmente os gigantes, que não haviam sido relatados anteriormente em nosso país. Atualmente esse dinossauro ocupa a segunda posição no ranking de maiores dinossauros brasileiros, mostrando o quanto nosso país é biodiverso desde as eras passadas.

Texto fonte: BANDEIRA, Kamila LN et al. (2016). A new giant titanosauria (Dinosauria: Sauropoda) from the late cretaceous Bauru Group, Brazil. PloS one, v. 11, n. 10, p. e0163373.

Disponível em: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0163373.

DOI: ttps://doi.org/10.1371/journal.pone.0163373.

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação de Austroposeidon magnificus forrageando em seu habitat natural, sendo este o primeiro dinossauro brasileiro representado em um documentário.

Disponível em: https://dinoplanet.com.br/2022/05/30/dinossauro-brasileiro-e-representado-pela-primeira-vez-em-um-documentario/.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira, Pedro Marzano e Alexandre Liparini.

Uma planta ou tartaruga? Desvendando um engano paleontológico

Escrito em: 8 de dezembro de 2024

Por Júlia Roberta Teixeira

A história começa na Colômbia, no sítio geológico Marine Reptile Lagerstätte of Ricaurte Alto. Nesse local, existem rochas datadas entre 132 e 113 milhões de anos atrás, de um período chamado Cretáceo Inferior, assim como uma impressionante quantidade e diversidade de fósseis, como répteis marinhos, tartarugas, crocodilomorfos (que inclui os crocodilos e seus parentes extintos), dinossauros e plantas! 

Em 2003, o padre colombiano Gustavo Huertas, identificou um fóssil dessa região e na época o nomeou como Sphenophyllum colombianum, uma suposta representante das plantas esfenófitas. Duas décadas depois, este achado chamou atenção de Héctor Palma-Castro da Universidade Nacional da Colômbia e de outros cientistas colaboradores, isso porque as plantas do gênero Sphenophyllum eram amplamente distribuídas pelo mundo e viveram entre 419 e 252 milhões de anos atrás, período conhecido como Devoniano ao Permiano, respectivamente. Mas lembra que as rochas nas quais o fóssil foi encontrado são do Cretáceo Inferior, período muito mais recente do que na época conhecida em que as plantas daquele gênero viveram? Isso intrigou os pesquisadores e levantou duas possibilidades: ou essas plantas viveram muito além do que se pensava, ou a identificação do fóssil estava incorreta.

Os novos estudos revelaram que o fóssil, inicialmente descrito como “Sphenophyllum colombianum”, não se tratava de uma planta. Na verdade, era uma carapaça de um filhote de tartaruga marinha, parcialmente preservada, vista ventralmente, com cerca de 6,1 cm de comprimento. Com isso, a classificação anterior foi invalidada e agora esse exemplar é identificado como Panchelonioidea indet., uma classificação que engloba as tartarugas marinhas e outras espécies relacionadas.

A identificação equivocada ocorreu devido à interpretação incorreta das estruturas do fóssil encontrado. Sabe-se, através de exemplares bem identificados de Sphenophyllum, que suas folhas eram organizadas ao redor do caule, semelhante a fatias de pizza, e apresentavam nervuras, como se fossem “risquinhos” que irradiavam ao longo dela.  Já o fóssil da carapaça de tartaruga, apresenta as estruturas ósseas do animal, como costelas e vértebras, com áreas onde a superfície tem uma textura irregular com sulcos e padrões de crescimento ósseo radial. Esses detalhes foram confundidos com as nervuras das folhas, levando Huertas a interpretá-lo erroneamente como planta.

Além do recente estudo corrigir um erro de identificação, o mesmo revela pela primeira vez um registro fóssil de um filhote de tartaruga da região noroeste da América do Sul. Anteriormente, já foram registrados fósseis de ovos e adultos com todas suas estruturas, mas não um indivíduo juvenil como esse.

A contribuição desta pesquisa vai além dos resultados que já vimos: ela auxilia na desconstrução de uma visão cumulativa e linear do trabalho científico, enfatizando a importância de revisitar conceitos de forma crítica e de compreender que erros podem acontecer no processo e devem ser encarados como parte natural do avanço do conhecimento. Dessa forma, fica evidente que a construção do conhecimento exige trabalho em equipe. A colaboração entre pesquisadores de áreas como paleobotânica e paleontologia de vertebrados é fundamental para evitar identificações equivocadas, especialmente em casos em que os fósseis apresentam descrição desafiadora.

Texto fonte:  PALMA-CASTRO, H. D. et al. (2023). An Early Cretaceous Sphenophyllum or a hatchling turtle? Palaeontologia Electronica, v. 26, n. 3, p. 1–10, 10 dez. 2023.

Disponível em: https://palaeo-electronica.org/content/2023/4017-fossil-plant-or-turtle.

Fonte e legenda da imagem de capa: Será que é uma planta ou uma tartaruga?

Disponível em: https://palaeo-electronica.org/content/2023/4017-fossil-plant-or-turtle.


Texto revisado por: Gabriel Félix Diório, Sandro Ferreira e Alexandre Liparini.

Plantas Se Defendendo de Mamíferos?

Escrito em: 7 de dezembro de 2024

Por Carolina C. Almeida

A herbivoria é uma interação ecológica que ocorre há centenas de milhões de anos. Praticado principalmente por artrópodes e vertebrados, esse comportamento surgiu pouco depois das próprias plantas. Da mesma forma que foram selecionadas, nos animais, características que os possibilitassem se alimentar de plantas, também houve seleção de estratégias de defesa vegetais — processo chamado de coevolução —, já que a natureza é uma grande luta pela sobrevivência. Uma das formas que as plantas têm de se defender é a produção de tricomas urticante, que são estruturas similares a pelos, que liberam substâncias irritantes e tornam a folha desagradável de comer (e até fazem coçar a nossa pele, só de encostar).

Um estudo de 2020, feito por pesquisadores de Ruanda e dos EUA, mostrou que esses tricomas já existem desde a Época do Eoceno (há cerca de 48,7 milhões de anos atrás!) e foram preservados em folhas fósseis, que só agora foram identificadas corretamente e atribuídas às Urticaceae (família da urtiga), devido a sua semelhança com folhas de outras famílias vegetais. A preservação de folhas é bastante rara, por serem tecidos sensíveis, que se degradam facilmente, e a ocorrência de tricomas urticantes típicos dessa família é inédita no registro fóssil.

No estudo abordado, foram analisados registros de folhas comprimidas — preservadas pela alta pressão, sem que houvesse a destruição total das folhas —, de dois tipos morfológicos diferentes. Esses fósseis foram encontrados em Okanogan Highlands, no Canadá, onde há condições propícias para a conservação de estruturas delicadas e onde, inclusive, já foram encontradas pétalas de flores e pólen.

Para entender a qual grupo as amostras pertenciam elas foram comparadas a folhas vivas do gênero Giardinia coletadas em Ruanda, onde o ambiente atual é similar ao de vivência dessas plantas fósseis. Foram constatados, então, muitos tricomas, desde a superfície das folhas até o pecíolo (o cabinho da folha), que tinham forma similar a pequenos espinhos, além de a forma da folha também ser característica da tribo Urticeae, que está contida em Urticaceae.

Os tricomas nas urtigas atuais têm uma ponta mineralizada que se quebra ao tocar e se comporta como uma agulha capaz de injetar a substância urticante na pele. Isso, obviamente, afasta quem tente tocar ou comer essa planta, provavelmente tendo sido uma característica selecionada com esse propósito, mais especificamente para evitar mamíferos!

Outros estudos sugerem a existência dessas plantas desde o Paleoceno (cerca de 66 a 56 milhões de anos atrás), na Ásia, o que leva a imaginar que houve uma transição desse grupo da América do Norte para a Ásia ou vice-versa. Essa questão é importante porque coincide com a diversificação de herbívoros nesses continentes e na Europa, os Perissodactyla, grupo que inclui os atuais cavalos, rinocerontes e antas e o maior mamífero terrestre do Oligoceno (época seguinte ao Eoceno), o Paraceratherium. A morfologia desses animais fósseis leva a crer que se alimentavam de folhas, assim como fazem os gorilas da montanha que vivem no Parque Nacional dos Vulcões, em Ruanda, os quais, inclusive, já tiveram mecanismos selecionados evolutivamente que anulam os efeitos das urtigas. Isso não é incrível?

Resta desvendar se todos os exemplares antigos de Urticeae já possuíam tricomas urticantes, além de entender melhor quais animais se alimentavam dessas plantas e qual é sua história natural com mais respaldo. O estudo dessas interações nos ajuda a entender melhor sobre a evolução da vida na Terra, dando pistas a respeito do estabelecimento de relações entre espécies e do desenvolvimento de diferentes estruturas nos organismos. Saber disso faz com que compreendamos que existe uma infinidade de vida diversa anterior à que conhecemos hoje, e saibamos que estamos presentes numa fração muito pequena da história. Isso porque as espécies sofrem mudanças contínuas — na velocidade do tempo geológico —, o que resulta em diferentes configurações da biodiversidade ao longo do tempo conforme elas sofrem diversas pressões seletivas, como a herbivoria é, para as plantas. Fascinante, não?

Texto fonte: DeVore, M. L.; Nyandwi, A.; Eckardt, W.; Bizuru, E.; Mujawamariya, M.; Pigg, K. B. (2020). Urticaceae leaves with stinging trichomes were already present in latest early Eocene Okanogan Highlands, British Columbia, Canada. American Journal of Botany, v. 107, p. 1449–1456. https://doi.org/10.1002/ajb2.1548.

Fonte e legenda da imagem de capa: Urtica dioica, um exemplar vivente da família Urticaceae. Nas folhas e nos pecíolos é possível ver a grande quantidade de tricomas. Fonte: Wikimedia Commons, acesso em: 28/01/2025


Texto revisado por: Lucas Rabelo e Alexandre Liparini.

Microrganismos no permafrost: fósseis ou vivos?

Escrito em: 07 de dezembro de 2024

Por: Ana Clara Moura e Souza

Uma grande questão que se discute atualmente é o efeito do aquecimento global no ressurgimento de microrganismos que estavam retidos em ambientes congelados. O permafrost é um solo caracterizado por permanecer congelado por pelo menos dois anos consecutivos e por ser um reservatório de carbono orgânico antigo. Com o degelo, os microrganismos ali presentes podem degradar a matéria orgânica que antes estava presa, levando à liberação de gases do efeito estufa, como metano e gás carbônico. Mas afinal, esses organismos estão vivos ou não? 

Por meio da análise dos danos no DNA é possível saber quais estão vivos ou foram fossilizados, pois se estabelece que aqueles que sofreram mais danos pertencem a microrganismos fósseis, uma vez que células ativas mantêm o reparo do DNA. Em temperaturas muito baixas a preservação de material genético é excepcional. No entanto, tanto o DNA extracelular (eDNA) quanto o intracelular (iDNA) ainda podem sofrer danos ao longo do tempo. 

Outra análise foi a razão entre enantiômeros de aminoácidos encontrados nas amostras, que são moléculas com a mesma fórmula molecular, mas que não se sobrepõem; como nossas mãos, que são iguais, mas se você colocar uma sobre a outra os dedos correspondentes não se tocam. Eles são divididos em levogiros e dextrogiros, que para entendermos melhor podemos comparar às mãos esquerda e direita, por exemplo. Sabe-se que os seres vivos utilizam aminoácidos levogiros, então se houver levogiros se tornando dextrogiros, maior a quantidade de fósseis naquela amostra e menos microrganismos vivos.

Na região de coleta na Sibéria, o permafrost tem uma característica curiosa. Há milhares de anos, ocorreu uma transgressão e regressão do mar que formaram um horizonte marinho no Pleistoceno Médio (780 a 130 mil anos) e, por isso, foram coletados 22m desse solo e usadas amostras de profundidades diferentes (3,4m; 5,8m e 14,8m) para se entender a transição entre os paleoambientes marinho e terrestre  que ocasionaram mudanças nos ecossistemas.

Muitos microrganismos podem ter se adaptado às diferentes condições e permanecido ativos e outros podem ter sido extintos e fossilizados. Nas duas  camadas mais profundas, o DNA estava mais danificado e fragmentado em pedaços curtos. A razão entre dextrogiros e levogiros também aumentou com a profundidade, sugerindo uma maior quantidade de dextrogiros. 

Sendo assim, pode-se dizer que, sim, muitos deles ainda estão vivos! Quanto maior a profundidade, maior a quantidade de fósseis, mas ainda podem ser encontrados microrganismos vivos em todas elas. Isso porque alguns ainda apresentavam danos mínimos ao material genético, além de ainda serem encontrados aminoácidos levogiros mesmo que em menor quantidade, nas maiores profundidades.

 Essa pesquisa revela uma nova estratégia para se estudar DNA preservado em ambientes antigos como cavernas, sedimentos de águas profundas e, sobretudo, ambientes congelados. Por meio da comparação dos danos ao DNA antes e após o reparo é possível discriminar vida extraterrestre passada e viva que estão presentes nas diferentes camadas do permafrost de Marte, além de possibilitar a identificação de microrganismos vivos que podem metabolizar compostos orgânicos do solo no contexto do aquecimento global, interferindo no ciclo do carbono.


Palavras-chave: Microrganismos, permafrost, fósseis, DNA

Fonte e legenda da imagem de capa: Solo permafrost fragmentado com as camadas evidenciadas Benjamin Jones/USGS, retirado de Wikimedia Commons. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Collapsed_permafrost_(9356).jpg

Espécime de Nautilus vanuatuensis. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nautilus_vanuatuensis.jpg

Texto fonte: LIANG, Renxing et al. (2021). Genomic reconstruction of fossil and living microorganisms in ancient Siberian permafrost. Microbiome, v. 9, n. 110. Doi: 10.1186/s40168-021-01057-2.

Disponível em: https://microbiomejournal.biomedcentral.com/articles/10.1186/s40168-021-01057-2. Acesso em: 4 de dez. de 2024.

Texto revisado por: Giulia Alves

O que a rara múmia de um filhote de felino-dente-de-sabre descoberta na Rússia tem a nos contar sobre como eram estes animais? A análise desta múmia esclareceu detalhes inovadores sobre os hábitos e aparência desta espécie

Escrito em: 6 de dezembro de 2024

Por: Matheus Soares Silveira

Sempre se falou muito de grandes predadores do passado, como o Megalodonte (Otodus megalodon) e o Tiranossauro Rex (Tyrannosaurus rex), por exemplo. De fato, seu porte grande e magnitude despertam curiosidade aos olhos dos amantes da história e da vida no planeta mas, nem sempre os cientistas têm todas as respostas sobre como eram os seres que viveram e já se foram há milhares de anos.

Esse é o caso dos felinos-dente-de-sabre. Hoje nós veremos detalhes sobre um artigo publicado na revista Nature em 14 de Novembro de 2024, onde os autores descrevem a descoberta e análise da múmia do filhote de uma das espécies de felino-dente-de-sabre, o Homotherium latidens.

MAS O NOME NÃO ERA TIGRE-DENTE-DE-SABRE?

“Uai, mas não era tigre-dente-de-sabre? E como assim uma das espécies?”

São muito comuns essas dúvidas. O que se chamava de tigre-dente-de-sabre não era uma única espécie, mas, sim, várias espécies de felinos com essa característica marcante, todos membros da subfamília Machairodontinae. Na realidade, o nome tigre-dente-de-sabre é muito mais um nome popular do que um nome técnico, afinal esses animais não eram o que se chama hoje de tigre (Panthera tigris), e os cientistas o usavam para fins comparativos, não expressando uma proximidade genética recente.

DESCOBERTA E ANÁLISE DA MÚMIA

Nosso fóssil foi descoberto em 2020, no distrito Abyisky, na República De Sakha (Yakutia), Rússia. O local é chamado de Badyarikhskoe, e situa-se no rio Badyarikha (afluente direito do rio Indigirka, situado na planície de Yana-Indigirka).

O estudo comparou a aparência do filhote de dente-de-sabre com um filhote de leão moderno (Panthera leo) da mesma idade. “Pela primeira vez na história da Paleontologia, a aparência de um mamífero extinto com nenhuma espécie análoga viva foi estudada.” – Os Autores do artigo.

A datação por radiocarbono – também chamado de carbono 14, é a forma radioativa dos átomos de carbono, que tem queda na quantidade no corpo depois que o ser vivo morre, possibilitando estimar há quanto tempo ele morreu – dos pelos do filhote foi feita e resultou, após calibragem por softwares – que considera variação da quantidade de carbono 14 na atmosfera de cada tempo, pra chegar ao resultado final – numa idade entre 35.471 e 37.019 anos atrás, sendo pertencente à Idade Superior da Época Pleistoceno.

Segundo os autores, achados de mamíferos mumificados desse intervalo de tempo são raros. A maioria das múmias encontradas na Rússia na última década foi naquela região. Nossa múmia em questão tem preservada apenas a cabeça e o tronco até a porção final do peitoral, com alguns ossos da cintura acoplados aos fêmures e a ossos da canela, achados no mesmo pedaço de gelo que a parte preservada.

COMPARAÇÃO E IDENTIFICAÇÃO DO EXEMPLAR

Seu corpo tem uma pelagem espessa, curta (3 centímetros de comprimento) e macia, colorida de marrom escuro. No lábio superior, há dois pares de bigodes.

Os pesquisadores conseguiram descrever gênero, família e subfamília do dente-de-sabre devido às similaridades do crânio, dentes, tamanho do corpo e posição dos ossos e órgãos com exemplares dos mesmos grupos e de outros (estudo de Anatomia Comparada). Pelo grau de brotamento dos dentes incisivos, estima-se que a múmia tenha 3 semanas de idade.

As características do crânio são coincidentes com a família Felidae (felinos) e a mandíbula tem características remetentes ao gênero Homotherium, o que levou a esta classificação.

O pescoço do filhote dente-de-sabre é mais espesso e comprido do que o do filhote de leão, e sua caixa craniana é maior, bem como sua fenda oral, comprimento do crânio e dos ossos das patas dianteiras (ulna e úmero). A grande altura do lábio superior também sugere que ele cobrirá os caninos superiores (dentes de sabre) quando eles crescerem na fase adulta do filhote, o que nos faz reavaliar a ideia de que seus dentes ficavam expostos, como comumente mostrado em filmes e reproduções feitas antes de descobertas que apontam nessa direção.

Este gênero viveu no Pleistoceno e ocupava a Eurásia, América e África. “Por muito tempo, a última presença de Homotherium na Eurásia foi registrada na Época Pleistoceno Médio”, disseram os autores. Isto só mudou quando descobriram a mandíbula de um H. latidens no Mar do Norte. Na América do Norte, os Homotherium daqueles tempos eram chamados de Homotherium serum, pelo menos até análises genéticas mostrarem que eram a mesma espécie, tendo sido priorizado o nome H. latidens. Esta múmia é apenas a segunda evidência de que os Homotherium ocuparam a Eurásia no Pleistoceno Tardio, além da descoberta da mandíbula.

O QUE O ESTUDO TROUXE DE NOVIDADE?
A aparência dos felinos-dente-de-sabre enquanto ainda estavam vivos é amplamente debatida, uma vez que a baixa preservação de tecidos moles em geral (no caso, de pele e pelos) gera uma lacuna frequentemente preenchida com especulações baseadas no visual de felinos atuais. Trabalhos recentes reconstruíram o biotipo muscular destes animais como tendo músculos hipertrofiados no pescoço e membros anteriores (patas dianteiras).

A pesquisa dos cientistas, além de ser outra prova da sobrevivência mais recente destes organismos, é a confirmação do que foi previsto sobre seu porte físico, também mostrando que os juvenis desta idade não eram tão diferentes dos indivíduos adultos.

As patas largas e arredondadas da múmia, em contraste com as palmas finas e alinhadas do filhote de leão, sugerem, somadas ao formato quase quadrado das almofadas de seus dedos, com a ausência de almofadas carpais, que esta espécie estava adaptada a andar sobre a neve e a habitar ambientes frios. De acordo com os autores, a baixa aurícula (arco do ouvido) da orelha também é um indicativo desses hábitos.

“A descoberta da múmia de H. latidens em Yakutia expande radicalmente a compreensão da distribuição do gênero e confirma sua presença no Pleistoceno Superior da Ásia.”, disseram os autores.

De fato, este trabalho trouxe impacto nos estudos paleontológicos, tendo sido o primeiro a trazer o aspecto in vivo dos pelos, focinho e orelhas desta espécie, além de também ter esclarecido detalhes sobre o desenvolvimento de filhotes, expandiu as discussões de sua distribuição ao redor do mundo.
Enquanto o registro fóssil ainda não é totalmente explorado e os cientistas se empenham em aumentar nossos conhecimentos sobre o planeta que chamamos de lar, iremos ficar no aguardo das próximas descobertas.

Texto fonte: Lopatin, A.V., Sotnikova, M.V., Klimovsky, A.I. et al. (2024). Mummy of a juvenile sabre-toothed cat Homotherium latidens from the Upper Pleistocene of SiberiaSci Rep 14, 28016.

Disponível em: Mummy of a juvenile sabre-toothed cat Homotherium latidens from the Upper Pleistocene of Siberia | Scientific Reports.

Doi: https://doi.org/10.1038/s41598-024-79546-1.

Fonte e legenda da imagem de capa: Fotografia da múmia criopreservada do filhote de Homotherium latidens.

Disponível em: https://super.abril.com.br/ciencia/gatinho-dente-de-sabre-extinto-ficou-preservado-como-mumia-no-gelo-por-35-mil-anos.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

O que diz mais sobre alguém? Seus ossos, ou sua casa? A importância do estudo das paleotocas

Escrito em: 10 de janeiro de 2025

Por Fernanda Moreira Batitucci

O título pode até parecer um pouco mórbido, mas já se perguntou como paleontólogos conseguem descrever hábitos de animais que já não estão mais aqui? Os vestígios que eles deixam tornam tudo um pouco mais claro: pegadas, caminhos, coprólitos (fezes fossilizadas) ou as tocas que constroem podem nos ajudar a responder várias perguntas. Mas como uma toca poderia responder alguma pergunta?

As paleotocas, como são chamadas, são cavidades subterrâneas que foram cavadas por animais pré-históricos e preservadas durante milhões de anos, até serem ‘descobertas’ por paleontólogos. Normalmente, são vistas como um abrigo temporário para quem os escavou: para se proteger de predadores, para sua reprodução, etc. A maioria das paleotocas foi escavada por mamíferos (como preguiças gigantes) mas já houve indícios de tocas escavadas por répteis, dinossauros, crocodilomorfos (animais semelhantes aos jacarés e crocodilos) e até peixes! Mas… peixes? Construindo tocas? 

Sim!

Durante uma escavação na Formação Adamantina, no triângulo mineiro, cientistas descobriram uma paleotoca que levantou diversas questões: uma atribuída, supostamente, a um peixe pulmonado!

A formação Adamantina se estende de Minas Gerais, São Paulo, Goiás a Mato Grosso do Sul. Depois de localizar a toca, os paleontólogos coletaram o material que a preenchia (porque, ao longo do tempo, ela se encheu de outros materiais e deixou de ser oca!) que incluía pequenos fragmentos de ossos! Será que eles seriam do animal que construiu a toca? Depois de analisados, os identificaram como ossos de tetrápodes (vertebrados que possuem quatro membros). Mesmo assim, ainda não dava pra ter tanta certeza de quem construiu aquela toca, já que os ossos poderiam ser de outro animal que se apossou de lá… ou um que virou comida.

Mas, e aí, como identificar o responsável pela toca?

Comparando!

Existem várias outras paleotocas descritas ao longo da formação, mas sempre encontramos um problema: a encontrada em Minas Gerais é completamente diferente! Ela não possuía nenhuma câmara, sendo um túnel simples com a sua base plana. Além disso, a inclinação da sua entrada era bem pequena. Assim, foi necessário mais comparações: As paleotocas de tartarugas Podocnemididae encontradas em São Paulo, por exemplo, são mais inclinadas pois eram utilizadas para botar ovos e se abrigar. Então, tartarugas já estão fora de cogitação.

Mas, utilizando a anatomia da toca de base, já dá pra fazer algumas ligações. Peixes pulmonados, desde o Devoniano (período de 416 milhões de anos atrás até 359 milhões de anos atrás) são conhecidos pela construção de tocas verticais para “estivação”, processo em que se enterram para fugir do período de seca. Durante o processo, eles reduzem muito seu metabolismo, entrando em um tipo de “modo descanso”. A paleotoca encontrada em Minas Gerais possui características muito parecidas com as tocas já conhecidas que foram feitas por peixes pulmonados, então a toca em questão foi atribuída à lista. 

Ainda assim, é importante salientar que mais descobertas podem ser feitas que invalidam essa hipótese, já que ainda é muito ambíguo se ela foi feita ou não por um peixe pulmonado. A ciência é um processo de constante pesquisa e hipóteses, então isso é bom!

Mas, no fim, por que isso importa? Na verdade, muito! O estudo das tocas é tão importante quanto o estudo dos ossos, já que com ele, os hábitos de quem as fez ficam mais claros e pode-se fazer mais hipóteses sobre a vida de animais que já não estão mais aqui. Além disso, é possível encontrar mais registros ainda dentro das paleotocas (como ovos, ossos, fezes…), o que dá uma visão mais clara sobre o animal, deixando paleontólogos se aproximarem do estudo do indivíduo com outros olhos. O jeito em que ela é construída também ajuda a decifrar várias coisas! Marcas de garras podem mostrar como eram construídas, sua inclinação (como vimos no texto) pode mostrar o porquê dela ter sido feita e por aí vai!

No final de tudo, tanto os ossos quanto a “casa” são importantes para os estudos paleontológicos, pois permitem que exista uma visão mais completa sobre a espécie, que talvez estivesse incompleta se não fosse o que foi achado!

Texto fonte: Rangel, C. C., Francischini, H., Rodrigues, S. C., Netto, R. G., Buck, P. V., & Sedorko, D. (2022). A possible lungfish burrow in the Upper Cretaceous Adamantina Formation (Bauru Basin, Brazil) and its paleoecological and paleoenvironmental significance. Revista Brasileira De Paleontologia, v. 25(3), p. 167–179. Doi: https://doi.org/10.4072/rbp.2022.3.01 Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/336  (Acessado em: 05/12/2024)

Fonte e legenda da imagem de capa: Paleotoca encontrada na formação Adamantina. Imagem retirada do texto fonte.


Texto revisado por: Cíntia Xavier e Alexandre Liparini.

Você já ouviu falar sobre fósseis de camarão no Brasil?

Escrito em: 10 de janeiro de 2025

Por Sara Arêdes da Cunha Souza

Será que sua preservação fóssil é possível ?

Quais foram os primeiros fósseis de camarão a serem encontrados no Brasil? 

Os camarões fazem parte do grupo dos crustáceos, caracterizado por possuir animais invertebrados, ou seja, não possuem coluna vertebral e crânio. Porém, estes animais possuem o exoesqueleto, um esqueleto externo rígido e se destacam pela presença de dois pares de antena e cinco pares de apêndices (patas), todos articuláveis, habitam majoritariamente ambientes aquáticos incluindo marinhos e de água doce, contudo, são encontrados também em ambientes terrestres. 

A preservação fóssil ( vestígios de organismos que foram preservados com o passar dos anos) dos camarões é bem rara, pois são animais que se decompõem de forma rápida. Os lugares que apresentam registros fósseis de camarões evidenciam que a sedimentação de minerais que substituíram a matéria orgânica mostrou ser crucial para registros de dados paleontológicos.   

Os fósseis de camarões são pouco estudados, tendo seus primeiros registros na década de 1940, quando o pesquisador Mathias Gonçalves de Oliveira Roxo encontrou os primeiros fósseis de camarão na Fazenda Quatis, no município de Bom Conselho, no estado da Bahia.  Estes fósseis foram os primeiros da infraordem ( grau de classificação taxonômica)  Caridea a serem encontrados no Brasil e na América do Sul. Em 1950, através do estudo dos  registros de Roxo,  o pesquisador Burlen pôde classificar os fósseis encontrados como espécies  Atyoida roxoi e Palaemon bahiaensis ambas datadas do Cretáceo (145 a 65 Ma atrás ). Neste mesmo trabalho, Burlen descreveu um fóssil classificado como espécie Atyoida tremembeensis, encontrado na Formação Tremembé (era paleógeno: 65 a 23 Ma atrás) na Bacia Taubaté, no estado de São Paulo. 

Desde os registros de Burlen as pesquisas sobre fósseis de camarões ficaram estagnadas, sendo retomadas em 1990 por Martins Neto e Mezzalira, por meio de uma revisão taxonômica (identificação, descrição e classificação dos organismos), reclassificando os fósseis encontrados por Burlen e Roxo em outros gêneros, os nomeando então, como:  Pseudocaridinella tremembeensis, Pseudocaridinella roxoi e Bechleja bahiaensis. Além da reclassificação, eles adicionaram mais um táxon à Formação Tremembé, a espécie Bechleja robusta

A Partir daí, vários outros estudos foram publicados identificando, descrevendo, classificando novas espécies e reclassificando taxonomicamente espécies já classificadas, ampliando assim, o conhecimento sobre a diversidade de fósseis desses animais, permitindo a construção de uma linha do tempo evolutiva para estes animais.

Texto fonte: Barros, O.A; Viana, M.S.S; Silva, J.H; Saraiva, A.A.F & de Oliveira, P.V. (2021). O Estudo de Camarões Fósseis no Brasil’, Anuário do Instituto de Geociência- UFRJ, v.44, n.39063, p. 1-12. Doi: 10.11137/1982-3908_2021_44_39063 Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/aigeo/article/view/39063 acessado em: 07/12/20paleotologia24.

Fonte e legenda da imagem de capa: Fóssil de camarão, Fonte da imagem; https://www.museunacional.ufrj.br/dir/exposicoes/paleontologia/pale031.html


Texto revisado por: Lucélio Batista e Alexandre Liparini.

PEGA A PIPOCA: A Era do Gelo como ferramenta pedagógica no ensino da Paleontologia

Escrito em: 8 de dezembro de 2024

Por: Gabriel Félix

Atualmente, a educação básica forma alunos principalmente para o mercado de trabalho e os vestibulares, afastando-se de uma abordagem que priorize a formação de cidadãos críticos e alfabetizados cientificamente.

A cinematografia, por meio do uso de filmes no ambiente escolar, pode estimular os estudantes a refletirem sobre as questões que os filmes abordam, possibilitando questionar os aspectos das cenas e relacioná-las ao conteúdo aprendido em sala de aula. Isso ajuda os alunos a perceberem que o objetivo do filme vai além de simplesmente absorver as imagens apresentadas; trata-se de compreender como os elementos da realidade são expressos na narrativa.

Certos filmes se destacam por serem fiéis ao conhecimento científico atual, o que os torna ferramentas eficazes para o aprendizado, especialmente no ensino da paleontologia. Por meio dessa abordagem, é possível entender sobre a evolução e transformação da vida, além de reconstruir períodos e ambientes passados a partir da análise de fósseis e elementos geológicos.

O conhecimento paleontológico, contudo, ainda é restrito a museus e laboratórios, sendo no ambiente escolar escasso ou fragmentado. Isso se deve ao fato de que os livros didáticos, em sua maioria, limitam-se a abordar temas relacionados à origem da vida e à evolução.

Nesse contexto, o filme A Era do Gelo é apresentado como uma ferramenta pedagógica eficaz, por meio de uma análise qualitativa de sua narrativa. O filme aborda o período do final do Pleistoceno (2,58 milhões a 11,7 mil anos atrás), marcado pela última glaciação, ocorrida há cerca de 18 mil anos. Ele retrata a fauna da época, composta majoritariamente por clados de mamíferos – muitos deles atualmente extintos – que habitavam o continente americano. A espécie humana também já estava presente nas Américas no final do Pleistoceno, com registros arqueológicos no Centro-Oeste brasileiro datando de 12,4 a 8 mil anos atrás.

Os elementos representados no filme são recursos valiosos para o ensino da paleontologia, pois contextualizam o período a ser ensinado (Final do Pleistoceno). Essa abordagem permite que o cinema pedagógico se expresse de maneira divertida, coletiva e contextualizada, estabelecendo conexões entre os seres vivos representados e a riqueza paleontológica do continente americano, especialmente do Brasil.

Além disso, ao relacionar os elementos do filme com o cotidiano dos alunos, o conhecimento paleontológico se torna menos abstrato. A narrativa também ajuda na construção do conceito de que a paleontologia estuda tanto os seres pretéritos extintos quanto os que ainda vivem, como antas e tamanduás, que fazem parte da trama de A Era do Gelo.

Texto fonte:  REZENDE, Richard Lima et al. (2017). “A Era do Gelo–O Filme”: uma análise de seu potencial para o ensino de Paleontologia. Periódico Eletrônico Fórum Ambiental da Alta Paulista, v. 13, n. 7, p. 42-54.

Disponível em: https://doi.org/10.17271/198008271372017.

Legenda da imagem de capa: Scrat, esquilo pré-histórico personagem do filme A Era do Gelo.

Imagem Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Macys_Thanksgiving_Parade_(38565565926).jpg.


Texto revisado por: Vivian Camargos Pinto e Alexandre Liparini.

Um tumor do passado: A marca cancerígena descoberta através de um fóssil de dinossauro

Escrito em: 6 de novembro de 2023

Por: Izabela Oliveira

O osteossarcoma é um tipo de câncer que se desenvolve nos ossos, possui uma incidência alta de 3,4 milhões de casos por ano. 

Geralmente, em seres humanos o osteossarcoma é mais incidente na adolescência e na vida adulta jovem, isso porque durante as nossas primeiras décadas de vida, passamos por muitos desenvolvimentos acelerados podendo gerar um crescimento anormal das células do tecido ósseo, esse tumor pode gerar alguns desconfortos, incluindo fraturas nos ossos. Vale ressaltar que cada tumor tem sua particularidade no desenvolvimento.

Mas afinal, esse post não era pra falar do câncer em um dinossauro? Pois vamos lá! Imagine o osteossarcoma no osso de um dinossauro. Sim, esses animais gigantes e antigos também não estavam “imunes” a essa doença famosa do século XXI. Esses registros nos revelam que o cânceres em geral possivelmente estiveram presentes na vida dos seres vivos desde bem antes da existência dos seres humanos e que vários fatores podem influenciar o desenvolvimento de tumores na vida dos organismos, independente da época em que ele viveu. Porém, uma das maiores limitações dentro da paleontologia relacionada aos nossos dinossauros é a perda dos tecidos moles e os diferentes estados de preservação de fósseis. Portanto, identificar um câncer maligno em um dinossauro é um grande desafio!

 De acordo com o artigo e o pesquisador Seper Ekhtiari, essa é a primeira descoberta de um osteossarcoma em um dinossauro, pertencente à espécie Centrosaurus apertus , que existiu entre 77- 75 milhões de anos atrás. O animal foi descoberto no Canadá em 1989, e uma característica muito marcante para os pesquisadores que tiveram esse achado foi uma “fratura” em um dos membros do fóssil. Anos depois, através de análises macroscópicas, de radiografia e histológicas por patologistas e especialistas em oncologia, além de comparações do fóssil com um caso humano de osteossarcoma e uma fíbula de um Centrosaurus apertus considerado saudável, a confirmação veio: aquela fratura inusitada, na verdade, era um câncer no tecido ósseo!

Texto fonte: Seper Ekhtiari, Kentaro Chiba, Snezana Popovic, Rhianne Crowther, Gregory Wohl, Andy Kin On Wong, Darren H Tanke, Danielle M Dufault, Olivia D Geen, Naveen Parasu, Mark A Crowther, David C Evans, First case of osteosarcoma in a dinosaur: a multimodal diagnosis, The Lancet Oncology, Volume 21, Issue 8, 2020, Pages 1021-1022, ISSN 1470-2045.

Disponível em : https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1470204520301716

Fonte e legenda da imagem de capa: Figura . Histologia de dinossauros e osteossarcomas humanos

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1470204520301716


Texto revisado por: Leticia Lopes e Alexandre Liparini.

A Paleontóloga por trás da Descoberta do Ictiossauro: Mary Anning

Escrito em: 6 de novembro de 2023

Por: Laura Puig Prat

No início do século XIX, ao longo dos penhascos da vila britânica de Lyme Regis, foram feitas muitas descobertas paleontológicas importantes, que remontam ao Jurássico Inferior, por volta de 201.3 a 174.1 milhões de anos. Essas descobertas ajudaram a definir e entender os oceanos pré-históricos, na qual inúmeras delas foram feitas por Mary Anning. 

Mary Anning foi uma paleontóloga autodidata nascida em 1799. Ela começou a coletar fósseis aos 11 anos de idade, após a morte de seu pai. Ela vinha de uma família muito pobre, que se dedicava à venda dos fósseis que coletava e que, naquela época, estavam na moda nas esferas sociais mais ricas. Embora seu nome tenha chegado à mais importante comunidade de paleontólogos da época, com figuras famosas e reconhecidas, ela não conseguiu fazer parte da comunidade. Como muitas outras mulheres na ciência, seu trabalho foi encoberto e muitos cientistas homens não deram crédito às suas descobertas nos artigos que escreveram. Até mesmo a Sociedade Geológica de Londres não a reconheceu.

Ela e seu irmão descobriram o primeiro ictiossauro identificado cientificamente, mas, além dessa grande descoberta, Anning também encontrou um esqueleto relativamente completo de um plesiossauro, o primeiro pterossauro britânico e o primeiro saco de tinta fossilizado de um cefalópode, descobertas que foram o ponto de partida para muitas outras. Todos esses fósseis foram coletados em Lyme Regis. Hoje, a maioria deles está no Museu de História Natural de Londres e no Museu Sedgwick, em Cambridge.

Anning desenterrou o Ichthyosaurus breviceps em 1811, marcando um ponto de virada na história da paleontologia. Esse espécime em particular, conhecido por seu focinho mais curto e por suas características únicas, é um material curioso para a ciência há muito tempo. Pesquisas recentes revelaram novas informações sobre o famoso Ichthyosaurus breviceps, revelando detalhes de sua dieta, locomoção e papel ecológico. 

Foi revelado que o estômago do animal preservava peixes parcialmente digeridos, o que ajuda a fornecer informações sobre as relações tróficas nos mares jurássicos, dessa forma esse fóssil pode ser considerado um ótimo bioindicador. E agora, se você visitar o Museu de História Natural de Londres e ver o Ictiossauro, saberá mais sobre ele e, mais importante, sobre a mulher responsável por sua descoberta.

Texto fonte: MASSARE, J. A.; LOMAX, D. R (2013). An Ichthyosaurus breviceps collected by Mary Anning: new information on the species. Geological Magazine, v. 151, n. 1, p. 21–28.

Doi: https://doi.org/10.1017/S0016756813000241.

Fonte e legenda da imagem de capa: Fóssil de Plesiossauro de Mary Anning no Natural History Museum in London.

Disponível em: https://i.pinimg.com/originals/f9/20/0e/f9200ea580dd4668fa5566bc5f6d0e36.jpg.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.