Os fósseis semelhantes de tubarões encontrados na África e América do Sul

Escrito em: 20 de fevereiro de 2026

Por Eric Issao Inamura

Os hibodontes pertencem a um grupo de tubarões extintos, datados desde o final do Devoniano ao final do Cretáceo (aproximadamente 358 milhões de anos até 66 milhões de anos), cujo intervalo em que esse grupo habitou o planeta Terra, existiam três províncias paleobiogeográficas: Ásia, Europa-América do Norte e África-América do Sul, dado que os continentes que conhecemos hoje em dia ainda não tinham sido separados por movimentos geológicos. Nesse contexto, a África e América do Sul eram conectadas geograficamente, ocasionando em fósseis semelhantes encontrados nesses dois locais distintos.

Em um artigo científico recente, foram analisados pequenos dentes de tubarões da espécie Lonchidionoides trifurcatum, encontrados em Djebel Amour, na Argélia e comparados com fósseis encontrados no Brasil, da espécie Lonchidionoides sp., devido às suas semelhanças. O conjunto fóssil examinado compreende uma dentição heterodonte (a espécie apresenta dentes com diferentes formas e funções na boca), em que os dentes laterais e posteriores têm formas e tamanhos parecidos, contudo os dentes anteriores e a raiz dentária não puderam ser comparados devido ao pequeno número de amostra.

Os pesquisadores reconstruíram a arcada dentária da espécie, com base em materiais isolados de outras amostras de fósseis, resultando em 17 dentes na mandíbula inferior, número compatível com as características dos hibodontes. Além disso, deduz que a dieta desse tubarão anão fosse de microcrustáceos, os dentes anteriores seguravam as presas, enquanto os posteriores esmagavam as carapaças ou conchas.

A partir desse estudo, é possível inferir que os fósseis são evidências importantes para a reconstrução biológica e geológica do planeta, pois é uma prova de que os continentes atuais estavam unidos, antes da abertura do oceano que separa a África e a América do Sul, além de evidenciar que essas regiões compartilhavam de um ancestral comum.

Texto fonte:  Vullo R, Fragoso LGC, Bittencourt JS, Pérez-García A, Bouchemla I, and Benyoucef M. (2026) A new genus of lonchidiid hybodontiform sharks from the Cretaceous of North Africa and South America. Geological Magazine 163(e6): 1–9.

Disponível em: https://doi.org/10.1017/ S0016756825100484 acessado em: 20/02/2026

Fonte e legenda da imagem de capa: Figuras dos dentes de tubarão (na direita, encontrados na Árgelia, e na esquerda, encontrados no Brasil) coletadas no próprio artigo. https://doi.org/10.1017/ S0016756825100484 acessado em: 20/02/2026


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Os Therizinossauros e a evolução de suas grandiosas garras

Escrito em: 05 de dezembro de 2024

Por João Vitor Ferry

Os Therizinossauros eram um grupo de dinossauros que viveram no final do período Cretáceo (143 a 66 milhões de anos atrás), na região que hoje corresponde à Ásia. Eles pertenciam aos terópodes, o mesmo grande grupo que inclui os famosos raptores e tiranossauros. Muitas vezes, em diversas mídias, tais dinossauros eram caracterizados como grandes máquinas agressivas que atacavam outros animais com suas grandes garras sem pensar duas vezes.  No entanto, diferentemente de muitos de seus parentes, que eram carnívoros e atuavam como caçadores ou carniceiros, os Therizinossauro estavam em um processo evolutivo voltado para um estilo de vida herbívoro.

Eles eram animais de grande porte, medindo até 10 metros de comprimento, 5 metros de altura e pesando entre 3 e 5 toneladas. Apesar do tamanho, possuíam um crânio pequeno com um bico córneo no topo de seu longo pescoço. Além disso, caminhavam de forma bípede e tinham uma grande barriga, adaptada para digerir plantas. Sua característica mais marcante, que dá origem ao seu nome (Therizinossauro, ou “Lagarto Foice”), são suas impressionantes garras. Essas magníficas estruturas, que podiam medir até 80 centímetros, geram diversas discussões entre os pesquisadores sobre quais seriam suas principais funções.

Existem várias hipóteses acerca de como os Therizinossauros usavam suas garras. As principais incluem a possibilidade de retirar cascas de árvores e arrancar vegetação. O paleontólogo inglês Stephan Lautenschlager publicou um estudo em 2014 que analisou a morfologia e a diversidade no uso das garras dos Therizinossauros. Nesse estudo, por meio de análises biomecânicas e comparações com garras de mamíferos modernos (nos quais o uso das garras é mais bem compreendido), foi possível testar hipóteses específicas sobre o uso dessa curiosa estrutura.

De acordo com o pesquisador, existia uma ampla diversidade funcional no uso das garras entre as diferentes espécies de Therizinossauros. No entanto, não foi identificada uma correlação clara entre a morfologia das garras e uma função específica. Segundo a análise, as garras curtas e compactas, como as das espécies Alxasaurus e Erliansaurus (outros terópodes com garras relativamente longas), eram usadas de forma generalista, enquanto as garras alongadas e aumentadas, como as das espécies Therizinosaurus e Beipiaosaurus, não eram otimizadas para funções fossoriais. Em vez disso, esse “design” de garras parecia ser mais adequado para alcançar e puxar vegetação durante a alimentação.

Diante disso, é evidente que as garras desses animais eram adaptadas para auxiliar em um hábito de vida herbívoro. Funções como combate ou exibição sexual ainda são totalmente negligenciadas pela falta de evidências, mas isso não descarta a possibilidade de que essas estruturas poderiam ter sido usadas como recurso de defesa. Além disso, o dimorfismo sexual,ou seja, diferenças entre machos e fêmeas nessa estrutura, também não foi encontrado no registro fóssil.

Por fim, umas das únicas coisas que é possível afirmar com certeza com todas essas informações é de que os Therizinossauros não eram máquinas de matar como já foram caracterizados por causa de suas garras. Na verdade, eram animais herbívoros que não as utilizavam pro combate, já que mesmo que muito impressionantes, elas não possuíam a rigidez necessária para a perfuração da pele de outros dinossauros.

Texto fonte:  Lautenschlager, S. (2014). Morphological and functional diversity in therizinosaur claws and the implications for theropod claw evolution. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, [online] 281(1785), p.20140497. doi:https://doi.org/10.1098/rspb.2014.0497.

Disponível em: https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rspb.2014.0497 acessado em: 05/12/2024

Fonte e legenda da imagem de capa: https://pt.wikipedia.org/wiki/Therizinosaurus#/media/Ficheiro:Therizinosaurus_Restoration.png

Representação paleoartística de um Therizinossauro da espécie Therizinosaurus cheloniformis.


Texto revisado por: Fernanda Moreira Batitucci e Alexandre Liparini.

Terror no Cenozoico: um novo membro na família Phorusrhacidae

Escrito em: 04 de dezembro de 2024

Por: Sarah Morgana

NOs Phorusrhacidae, chamados de “aves do terror”, são uma família de aves superpredadoras extintas que dominaram a Era Cenozoico. Essas aves chamam a atenção por seus enormes bicos, indicando comportamento predatório, e longos membros adaptados para correr. Apresentam grande diversidade e variação de tamanho, com 20 espécies descritas, podendo alcançar de 5 kg a mais de 100 kg. Por causa do peso, suas asas não eram utilizadas para voo. Fósseis desses grandes animais já foram descobertos na Argentina, no Uruguai e também no Brasil.

Recentemente, pesquisadores analisaram um fragmento de tibiotarso, um osso da perna das aves, de Phorusrhacidae, encontrado no deserto Tatacoa, no sítio paleontológico de La Venta, na Colômbia, famoso por sua avifauna da Época do Mioceno, aproximadamente 23 a 5 milhões de anos atrás. Este é o primeiro fóssil da família proveniente dessa região, onde a maior parte dos fósseis são de aves aquáticas. O estudo revelou o que pode ser a maior ave do terror conhecida, com peso estimado em 156 kg. Quanto ao seu tamanho, há possibilidade da ave ser ao menos 10% maior que as maiores espécies atualmente conhecidas Kelenken guillermoi e Titanis walleri. O fragmento foi comparado com outros tibiotarsos conhecidos da família Phorusrhacidae e além dos estudos confirmarem que ele pertence a esse grupo, também destacaram características únicas em seu desenvolvimento, diferenciando-o de espécies já descritas. Apesar disso, devido à falta de outros fósseis mais semelhantes para aprofundar as análises, os pesquisadores optaram por não classificá-lo como uma nova espécie. O osso foi, então, apenas atribuído à subfamília Phorusrhacinae.  

A ocorrência de fósseis de Phorusrhacidae é predominante na América do Sul, sugerindo que essas aves são originalmente sul-americanas e eram adaptadas a climas tropicais. A descoberta em La Venta reforça a ideia, e também explica a escassez de fósseis: o clima quente e úmido da região favorece uma rápida decomposição e dificulta a preservação tanto de partes moles quanto de partes duras.

Essa pesquisa não apenas amplia o nosso conhecimento sobre o tamanho impressionante que essas aves poderiam atingir, mas também contribui para o entendimento da diversidade dos Phorusrhacidae. Além disso, marca um importante avanço nos estudos em paleontologia no norte sul-americano ao registrar o primeiro fóssil deste grupo em La Venta, trazendo novas perspectivas sobre a história de sua distribuição geográfica e sua adaptação ao ambiente.

Texto fonte: DEGRANGER, Federico J; COOKE, Siobhan B; ORTIZ-PABON, Luis G.; PELEGRIN, Jonathan S.; PERDOMO, Cesar A.; SALAS-GISMONDI, Rodolfo; LINK, Andrés (2024). A gigantic new terror bird (Cariamiformes, Phorusrhacidae) from Middle Miocene tropical environments of La Venta in northern South America. Papers in Paleontology, v. 10, n. 6, p. 1-10.

Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/spp2.1601

DOI: 10.1002/spp2.1601

Legenda da imagem de capa: Reconstrução de Titanis walleri, espécie da família Phorusrhacidae, em um museu de História Natural na Flórida

Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Skeleton_of_Titanis_at_the_Florida_Museum_of_Natural_History.jpg


Texto revisado por: Tiago Lopes Siqueira e Alexandre Liparini.

Primeira Descoberta de Ovo Amniótico Fossilizado na Formação Romualdo

Escrito em: 07 de dezembro de 2024

Por: Bruna Luiza Santos Damaceno

Pesquisadores brasileiros identificaram um ovo amniótico fossilizado na Formação Romualdo, localizada na Bacia do Araripe, no nordeste do Brasil. Esse ovo, encontrado em uma concreção carbonática no município de Simões, Piauí, foi atribuído a um crocodilomorfo, grupo ancestral dos crocodilos modernos. A descoberta é considerada um marco na paleontologia brasileira, trazendo informações inéditas sobre a reprodução e o desenvolvimento desses animais.

Ovos amnióticos fossilizados são considerados icnofósseis, ou seja, vestígios de atividades biológicas preservados. Apesar de existirem registros de ovos fósseis no Brasil, principalmente na Bacia Bauru, no Sudeste, este é o primeiro ovo atribuído a um crocodilomorfo encontrado na Formação Romualdo e, possivelmente, o primeiro no mundo a conter restos embrionários.

Com dimensões de 26,02 mm por 18,15 mm e uma casca espessa de 0,45 mm, o ovo apresenta características típicas de crocodilomorfos, como poros interconectados e superfície lisa, mas possui particularidades que o diferencia de outros ovos fossilizados conhecidos. Uma fratura na porção inferior esquerda foi observada, e os pesquisadores levantaram a possibilidade de que isso possa ter causado alterações na sua estrutura original.

A análise do ovo utilizou técnicas como microscopia eletrônica, espectroscopia e tomografia computadorizada. Um dos pontos mais fascinantes da pesquisa foi a identificação de estruturas internas que sugerem a presença de um embrião fossilizado. Por meio das imagens tomográficas, foram reconhecidos contornos anatômicos, como a cavidade craniana, a coluna vertebral e a região abdominal. Para validar essas observações, os pesquisadores realizaram uma tomografia em um ovo moderno de Caiman latirostris, um crocodilomorfo em fase final de desenvolvimento embrionário. A comparação com o fóssil ajudou a confirmar as possíveis estruturas anatômicas do embrião.

A Formação Romualdo, datada do Cretáceo Antigo, é conhecida por suas condições de preservação de fósseis. Nela, já foram encontrados pterossauros, peixes, tartarugas e outros vertebrados, mas este ovo fossilizado traz uma nova perspectiva para a paleontologia da região. Ele nos dá informações sobre os hábitos reprodutivos e o ambiente em que esses crocodilomorfos viveram há cerca de 110 milhões de anos.

Mais que uma descoberta científica, este achado reforça a importância de proteger os sítios fossilíferos brasileiros, que guardam informações de extrema importância sobre a história da vida na Terra. O ovo (MDJ IC-069), compotencial para ser o primeiro registro no mundo de restos embrionários de crocodilomorfo, é um registro paleontológico raro que nos dá vislumbres da reprodução e do desenvolvimento desses animais do passado.

Texto fonte:  Abreu, D.; Viana, M.S.S.; Oliveira, P.V.; Viana, G.F.; Borges-Nojosa, D.M. (2020). First record of an amniotic egg from the Romualdo Formation (Lower Cretaceous, Araripe Basin, Brazil). Revista Brasileira de Paleontologia, v. 23, n. 3, p. 185-193.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/166

Fonte e legenda da imagem de capa: Na imagem é possível visualizar a tomografia de um ovo amniótico fossilizado, que revela possíveis vestígios de um embrião, incluindo a cavidade craniana, coluna vertebral e região abdominal. 

Para que essas estruturas fossem validadas, fez-se uma comparação com imagens de um ovo moderno de Caiman latirostris, um crocodilomorfo. 

Esse achado pode ser o primeiro registro de vestígios embrionários de crocodilomorfo, o que torna a imagem ainda mais interessante.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/166


Texto revisado por: Milena Ramos Fonseca e Alexandre Liparini.

Como os tatus gigantes da megafauna podem mudar o que sabemos da chegada dos humanos na América?

Escrito em: 05 de dezembro de 2024

Por: Ítallo Cecílio

Imagine-se como um fazendeiro transportando seu gado e de repente encontra algo que mudaria parte do passado da humanidade nas Américas. Esse cenário se tornou real para o fazendeiro argentino Juan de Dios Sota. Durante o transporte dos seus animais pela região dos pampas argentinos, Juan encontrou quatro fósseis de tatus da megafauna (gênero Neosclerocalyptus). Estes animais surgiram na América do Sul a cerca de 25 milhões de anos, durante o oligoceno, e foram extintos a aproximadamente 10 mil anos, no início do holoceno – quando os humanos já estavam presentes no jogo da evolução.

Os tatus da megafauna, como popularmente são conhecidos, eram verdadeiros tanques de guerra, possuindo uma carapaça composta por placas de ossos fusionados (os osteodermos), podiam obter até quatro toneladas. Além disso, sua cauda era reforçada e usada como instrumento de defesa, equipada com placas de ossos maciços. Usavam este apêndice para poder se defender de grandes predadores, como os felinos e os humanos. Apesar disso, aparentavam ser animais pacíficos que tinham dieta herbívora.Algo muito extraordinário sobre estes animais, como já foi mencionado, é que eles dividiram parte do seu paleoecossistema com os seres humanos que chegaram nas Américas. Assim, podem ser bons indicadores destas interações entre o Homo sapiens de antigamente e o ambiente que os cercavam. Esta interação aparenta estar muito bem evidenciada nos fósseis encontrados por Juan de Dios Sota.

Como discutido no artigo de Delgado et al. (PLOS One, 17 de Julho de 2024), os fósseis apresentavam 32 marcas de cortes nos seus membros posteriores, principalmente na região caudal – cintura pélvica. Alguns podem argumentar que tais marcações talvez fossem feitas por carnívoros e/ou roedores, durante o ataque para caça ou depois, respectivamente. Todavia, estas interações ecológicas – predação no caso do carnívoro e necrofagia no caso do roedor – não deixam os padrões de marca que encontramos nestes fósseis. Os cortes encontrados nos animais do gênero Neosclerocalyptus aparentavam ser feitos por objetos afiados, como lanças e facas. Logo, os possíveis responsáveis aqui seriam os humanos.

Cortes feitos por lanças e facas, objetos afiados que os paleohumanos usavam para caçar e se defender, deixam padrões muito específicos. Um destes é o que conhecemos como cones hertzianos – Delgado explica que estes são estrias de formato triangular produzidos na superfície do osso quando ele é cortado por um objeto pontiagudo com uma variação de pressão durante o corte. Além disso, as análises estatísticas do artigo demonstram que os cortes tinham apenas dois padrões: cortar e fatiar. Por fim, todos foram feitos na região caudal do fóssil, conhecida por ter uma musculatura desenvolvida – logo, mais carne para quem for comer! Mas qual a importância disso? Já não sabíamos que estes animais viveram no mesmo período de tempo e interagiam entre si?

Os fósseis de tatu da megafauna encontrados e estudados tiveram uma datação absoluta por C14 entre 21.090 e 20.811 anos. Todavia, a maioria dos estudos até então arqueológicos e paleontológicos dizem que os humanos chegaram na América do Sul há aproximadamente 15 mil anos. Logo, o que se discute com este achado é que talvez nossos ancestrais americanos tenham chegado bem antes do que se considerava, tornando estes fósseis uma grande descoberta para entendermos nossa ancestralidade nas Américas e a história dos humanos pré-históricos.

Texto fonte:  Mariano Del Papa,Martin De Los Reyes,Daniel G. Poiré,Nicolás Rascovan,Guillermo Jofré,Miguel Delgado.(2024). Anthropic cut marks in extinct megafauna bones from the Pampean region (Argentina) at the last glacial maximum. PLOS ONE, 19(7), e0304956 https://doi.org/10.1371/journal.pone.0304956.

Disponível em: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0304956.

Fonte e legenda da imagem de capa: Os novos ocupantes das Américas caçando um animal da família Glyptodontidae (tatu gigante da megafauna).

Disponível em: https://socientifica.com.br/humanos-pre-historicos-podem-ter-cacado-tatu-gigante-na-america-do-sul/.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

O tubarão gigante Cacharocles megalodon predava presas pequenas ou grandes?

Escrito em: 04 de dezembro de 2024

Por: Breno Gonçalves Gonze

Atualmente em nosso planeta, existem espécimes incríveis que chamam nossa atenção, seja por seu tamanho, força, aparência ou coloração, por exemplo. Existem também  aqueles que chamam atenção por todas essas características juntas, como é o caso do Tubarão-branco (Carcharodon carcharias). Esse animal é bem conhecido e não é à toa, é um animal de grande tamanho, com aparência intimidadora e grande força, sendo um predador de topo de cadeia! Mas e se eu te contar, que ao longo da história na Terra, mais precisamente no Mioceno até o Plioceno na era Cenozoica (23,03 milhões de anos até 2,59 milhões de anos atrás), existiu um tubarão, da mesma Ordem que o tubarão-branco, os Lamniformes, porém extremamente maior? Exatamente, esse é o Carcharocles megalodon, conhecido também como Megalodon. Seu tamanho variava bastante, baseado em alguns estudos ele poderia chegar a mais de 16 m de comprimento, 10 m a mais do que o maior tubarão-branco já encontrado, com cerca de 6 m, chamada de Deep-Blue, a título de curiosidade. 

Falando sobre o megalodon, quando pensamos em um animal desse porte, imaginamos que suas presas também eram extremamente grandes, como baleias por exemplo. Porém, em 2017 um artigo sugeriu uma nova ideia, ao invés do megalodon predar grandes animais, será que na verdade, ele não tinha como alvo pequenas presas? Visto que, por exemplo, os  tubarões-brancos apesar de serem predadores altamente generalista (dieta variando de tubarões, peixes ósseos, cetáceos, etc) eles possuem uma predileção por mamíferos marinhos pequenos, como focas e pequenos cetáceos. Assim, vamos tratar desse assunto daqui para frente!

RESUMO

O estudo em questão, analisou algumas marcas de mordidas, em ossos fósseis de mamíferos marinhos (5 no total). Esses ossos fósseis datam do Mioceno superior (entre 11,63 e 5,33 milhões atrás), e foram encontrados no sul do Peru (Sítio de Hueso Blanco). As marcas foram atribuídas à espécie de megalodon citada. O material analisado inclui restos de crânios de baleias-de-barbatana (de pequeno porte), cetáceos fragmentados e pós-crânios (um esqueleto completo ou parcial de um animal, exceto o crânio) de pinípedes (grupo de mamíferos marinhos adaptados à vida aquática e terrestre, como focas e leões-marinhos). Portanto, os pesquisadores propõem a seguinte hipótese: o C. megalodon é um predador de topo de cadeia, onde suas principais presas seriam animais de pequeno porte. Os pesquisadores também propõem uma ligação entre o colapso de várias linhagens de Misticetos (baleias-de-barbatana) e a extinção do C. megalodon.

NO CASO DESSES FÓSSEIS, FOI UMA PREDAÇÃO ATIVA OU APENAS VASCULHARAM CARCAÇAS?

Bem, exceto em alguns casos bem específicos, como marcas de mordidas muito preservadas em esqueletos completos ou uma certa cicatrização óssea, encontrada ao redor de uma ferida dentária, é basicamente impossível diferenciar entre a predação ativa ou coleta. O estudo em questão, utiliza o tubarão-branco moderno como base, analisando, que ele ataca vários alvos pinípedes, mas nunca baleias-de-barbatana adultas (exceto a baleia pigmeu – Caperea marginata). Isso acontece porque todos os misticetos adultos, vão superar bastante em tamanho os tubarões-brancos, assim, utilizando como base o tubarão-banco, possivelmente as baleias-de-barbatanas adultas não seriam interessantes ou apropriadas para a predação do C. megalodon

Sabemos também, que C. megalodon normalmente vasculhavam carcaças de misticetos adultos, além de terem uma preferência de iniciar a alimentação pela cauda antes de ir para as partes ricas em gordura no momento de vasculhar as carcaças. Sobre pequenas presas, temos que era bem menos comum o megalodon vasculhar carcaças de misticetos menores, tendo uma grande preferência para as grandes carcaças, podendo passar uma grande quantidade de tempo procurando por elas. Mas o que encontraram foram fósseis com mordidas, onde elas indicam que o C. megalodon era de 3 a 4 vezes maior que a sua presa, sugerindo uma relação predador-presa com esses indivíduos menores. 

Outra evidência é que podemos observar um padrão ecológico atual, que pode ter sido seguido pelo C. megalodon, indicando que eles se alimentavam de baleias-de-barbatanas de pequeno porte e mamíferos marinhos menores nas áreas costeiras. Esse padrão é observado no tubarão-branco moderno, onde eles se agregam em pontos costeiros, em torno de colônias de pinípedes (Pimiento et al., 2010).

Assim, o artigo propõe que o C. megalodon provavelmente possuía um grande espectro de alimentação, podendo variar em peixes, mamíferos marinhos, répteis marinhos e etc. Porém, ao que tudo indica, as suas presas alvo provavelmente eram os misticetos (que possuíam alta fonte de energia) de pequeno ou até médio porte como citado anteriormente. Mas é importante frisar, que apesar de não caçarem ativamente grandes misticetos, suas carcaças faziam sim parte de sua dieta.

RELAÇÃO ENTRE TUBARÕES MEGADENTES E MISTICETOS

Por muito tempo, foi discutido  o momento e como ocorreu a extinção dos tubarões megadentes (grupo de tubarões gigantes, extintos, pertencentes a família Otodontidae, onde o megalodon é o mais conhecido). As mudanças globais e/ou mudanças dos mamíferos marinhos, seriam as principais responsáveis pela extinção do grupo. O gênero Carcharocles (pertencente à família Otodontidae), possuem uma característica bem chamativa, uma tendência ao gigantismo, ao longo do tempo. Observado por Ehret (2010), essa tendência foi interpretada e relacionada ao aumento da diversidade dos cetáceos. O gigantismo, também apareceu nos misticetos durante o mioceno, onde no final do Plioceno, o cenário era de misticetos maiores, ou seja, se tornou uma tendência dessa linhagem. Essa tendência, também tem relação com o declínio ou desaparecimento de misticetos menores. Portanto, os cientistas acreditam e argumentam que o C. megalodon sofreu uma forte redução populacional no Plioceno e que essa redução tem bastante proximidade com a queda da diversidade de misticetos menores. Isso alinhado a mudanças do planeta na época, como o início da glaciação no hemisfério norte, ao final do Plioceno, possivelmente levou a um processo de coextinção, entre presa e predador.

Texto fonte: Alberto Collareta, Olivier Lambert, Walter Landini, Claudio Di Celma, Elisa Malinverno, Rafael Varas-Malca, Mario Urbina, Giovanni Bianucci, Did the giant extinct shark Carcharocles megalodon target small prey? Bite marks on marine mammal remains from the late Miocene of Peru, Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, Volume 469, 2017, Pages 84-91, ISSN 0031-0182

Disponível em:https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0031018216305417

DOI: https://doi.org/10.1016/j.palaeo.2017.01.001.

Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução da vida de um adulto de Carcharocles megalodon predando um indivíduo de Piscobalaena nana ocupado em forragear em um cardume de sardinhas (Sardinops sp. cf. S. sagax) ao longo a costa do atual Peru durante o final do Mioceno

Alberto Collareta, Olivier Lambert, Walter Landini, Claudio Di Celma, Elisa Malinverno, Rafael Varas-Malca, Mario Urbina, Giovanni Bianucci, Did the giant extinct shark Carcharocles megalodon target small prey? Bite marks on marine mammal remains from the late Miocene of Peru, Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, Volume 469, 2017, Pages 84-91, ISSN 0031-0182, https://doi.org/10.1016/j.palaeo.2017.01.001.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0031018216305417


Texto revisado por: Ana Luísa Ferreira, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Tecendo o Passado: Novas Espécies de Aranhas Fósseis Encontradas

Escrito em: 08 de dezembro de 2024

Por: Paula Carolina Dias Silva

Uma descoberta fascinante na Formação Kishenehn, em Montana (EUA), trouxe à luz fósseis impressionantemente preservados de aranhas que habitavam o planeta há cerca de 46 milhões de anos, da época Eoceno. Entre os achados, destacam-se duas novas espécies de aranhas-tecelãs, pertencentes à família Araneidae, um grupo conhecido por suas teias complexas.

A análise do solo e dos fósseis associados — incluindo outros artrópodes e plantas — revelou que o ambiente em que essas aranhas viviam era uma região de lagos de água doce, com clima quente e úmido, característico de regiões subtropicais ou tropicais. Essas condições não apenas sustentavam uma rica biodiversidade, mas também contribuíram para a preservação extraordinária dos organismos. 

Embora muitos dos fósseis de aranha encontrados estivessem bem preservados, a identificação específica de grande parte deles foi dificultada pela ausência de detalhes taxonômicos cruciais. No entanto, as duas novas espécies, Consteniusi leonae e Greenwaltarachne pamelae, foram descritas com base em características minuciosamente conservadas, como o formato do corpo, a estrutura das pernas e a presença de cerdas. Os nomes foram escolhidos em homenagem aos pesquisadores que participaram da descoberta.

Essa descoberta não apenas amplia nosso conhecimento sobre a diversidade das aranhas no passado, mas também reforça a importância da paleontologia para desvendar a história evolutiva e ecológica do nosso planeta. Estudar fósseis como esses ajuda a conectar os padrões de evolução das espécies modernas às suas origens ancestrais, enriquecendo nossa compreensão sobre a biodiversidade ao longo do tempo.

Texto fonte: DOWNEN, Matthew R.; SELDEN, Paul A. (2020). Fossil spiders (Araneae) from the Eocene Kishenehn Formation of Montana, USA. Palaeontologia Electronica, v. 23, n. 3, p. a56. DOI: 10.26879/1135.

Disponível em: palaeo-electronica.org/content/2020/3237-kishenehn-fossil-spiders.

DOI: https://doi.org/10.26879/1135.

Fonte e legenda da imagem de capa: Fotografia, desenho interpretativo e destaque dos detalhes morfológicos do espécime de Consteniusi leonae.

Disponível em: palaeo-electronica.org/content/2020/3237-kishenehn-fossil-spiders.


Texto revisado por: Ítalo Augusto de Oliveira Barboza, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

os mamíferos sempre cresceram tão rápido?

Escrito em: 8 de dezembro de 2024

Por: Lucas Fernandes Rezende


Ilustração feita pela artista Maija Karala que projetou as características físicas da espécie Krusatodon kirtlingtonensis. Foto: Reprodução/X: @gsciencelady

Pequenos mamíferos atuais como ratos, camundongos, musaranhos e preás demoram muito pouco para chegar até a fase adulta e possuem vidas relativamente curtas, como por exemplo a espécie Rattus norvegicus – ratinhos de laboratório –  que demoram até 49 dias para a maturidade e vivem entre 1 e 3 anos. Mas será que isso sempre foi assim? Um artigo publicado na Nature no ano de 2024 mostra que provavelmente os ancestrais dos mamíferos demoravam muito mais para crescer e tinham vidas mais longevas.  O estudo analisa os fósseis, de dois indivíduos da espécie mamaliforme Krusatodon kirtlingtonensis que viveram no período Jurássico, há 166 milhões de anos. 

Mas afinal, o que é um mamaliforme? Podemos pensar em mamaliformes como uma linhagem mais ampla e antiga que a dos mamíferos (Mammalia). Sendo assim, o grupo dos mamíferos está dentro de um agrupamento maior, mamaliforme, que inclui outras linhagens extintas como é o caso do Krusatodon kirtlingtonensis. Assim, todo mamífero é mamaliforme, mas nem todo mamaliforme é mamífero.

Estudar estes grupos permite que nós possamos compreender melhor quais características dos mamíferos atuais surgem dentro deste grupo e quais são divididas com os grupos próximos. Neste estudo, a característica é a capacidade de se desenvolver rapidamente e atingir eficientemente a idade reprodutiva. E, para entender isso, a equipe de membros dos Museus Nacionais da Escócia estudou dois fósseis:  um de um adulto e um de um juvenil. O primeiro, deve ter morrido em torno de sete anos de idade. Já o segundo, entre seis meses e dois anos e apresentava indícios de ainda estar em fase de amamentação, que é um indicador de que os pais já cuidavam dos filhotes! Eles chegaram a essa conclusão comparando a dentição dos dois exemplares, o mais jovem ainda não havia feito a troca de seus dentes de leite enquanto o adulto já tinha a dentição permanete.

Imagem retirada do artigo original demonstrando o interior do crânio do indivíduo mais jovem. Observe em verde os dentes em erupção dentária. Em púrpura, dentes molares; azul, pŕe-molares; vermelho, caninos; amarelo, incsivos.

Ao fim do trabalho, os pesquisadores sugerem que estes animais tinham um desenvolvimento lento e viviam bastante se comparado com mamíferos atuais de mesmo tamanho (como ratos). Isso pode significar que a capacidade de atingir a idade reprodutiva rapidamente —bastante presente em grupos como os roedores— surgiu posteriormente na linha evolutiva. E não só os pequenos mamíferos, mas também os maiores, como a gente, também se beneficiaram dessa capacidade, Imagina passar mais alguns anos na puberdade? Ainda bem que se desenvolver rapidamente foi uma característica favorecida pela evolução.

Agora, novos estudos com outros exemplares de mamaliformes e até mamíferos mais basais podem fortalecer essa hipótese e, a partir dela, abrir uma nova gama de perguntas a serem pesquisadas. Essa descoberta nos faz repensar como os mamíferos conquistaram o mundo. O que mais podemos aprender sobre nossos ancestrais ao explorar fósseis tão antigos? A ciência ainda tem muito a desvendar.

Texto revisado por: Damiane Mello Andrade e Cruz e Alexandre Liparini.

Texto fonte: Panciroli, E., Benson, R.B.J., Fernandez, V. et al. Jurassic fossil juvenile reveals prolonged life history in early mammals. Nature 632, 815–822 (2024). https://doi.org/10.1038/s41586-024-07733-1.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41586-024-07733-1.

O dia em que um mamífero predou um dinossauro!

Escrito em: 02 de dezembro de 2024

Por: Marcos Ataide

Imagine voltar no tempo, há 125 milhões de anos, onde vulcões rugiam e criaturas extraordinárias viviam no nosso planeta. Agora imagine que, um pequeno mamífero se lança contra um dinossauro para caçá-lo. Essa história foi preservada no tempo e descoberta por cientistas em um fóssil.

O fóssil, encontrado na China, mostra o dinossauro herbívoro Psittacosaurus e o mamífero carnívoro Repenomamus robustus entrelaçados. Aparentemente, o mamífero, embora menor, estava em uma tentativa de predar o dinossauro. No entanto, antes que isso tivesse um desenrolar, um fluxo vulcânico de lama os enterrou instantaneamente, preservando para sempre essa cena.

Os cientistas analisaram os esqueletos e as rochas ao redor e concluíram que o fóssil é autêntico, sem sinais de manipulação. O dinossauro tinha cerca de 6 quilos, enquanto o mamífero pesava aproximadamente 1,4 quilos. O mais impressionante é que este fóssil desafia a visão clássica de que mamíferos da era dos dinossauros viviam apenas fugindo dos dinossauros. Em vez disso, revela que eles também podiam ser predadores formidáveis

Essa descoberta pode ajudar a reescrever o papel dos mamíferos no ecossistema do Mesozóico e oferece um raro vislumbre das interações entre espécies há milhões de anos. Esse fóssil  é uma das poucas evidências diretas de como possivelmente esses animais conviviam e competiam no mesmo ambiente

Texto fonte: Han, G., Mallon, J.C., Lussier, A.J. et al. An extraordinary fossil captures the struggle for existence during the Mesozoic. Sci Rep 13, 11221 (2023). 

Disponível em:https://doi.org/10.1038/s41598-023-37545-8

Acesso em: 12 de março de 2026.

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação artística da luta entre o pequeno mamífero e o dinossauro, Divulgação/Michael Skrepnick

Disponível em: https://cdn.sci.news/images/2023/07/image_12111f-Psittacosaurus-Repenomamus.jpg


Texto revisado por: Ruan Honorato e Alexandre Liparini.

A Importância dos Fósseis na Filogenia das Plantas

Escrito em: 08 de dezembro de 2024

Por: Lorenna Paiva

O artigo “Fossils and Plant Phylogeny”, publicado no American Journal of Botany em 2004 por Crane et al., discute a importância dos fósseis na compreensão da história evolutiva das plantas, especialmente na construção das árvores filogenéticas das espécies vegetais. Embora os avanços na biologia molecular tenham fornecido importantes insights sobre as relações evolutivas, os fósseis continuam a desempenhar um papel crucial na elucidação de eventos evolutivos antigos e no preenchimento de lacunas na história das plantas.

A filogenia das plantas descreve a evolução dos grupos vegetais ao longo do tempo, permitindo a comparação de características morfológicas e genéticas para inferir as relações de parentesco entre as linhagens. No entanto, muitos grupos de plantas originados em períodos geológicos remotos não possuem representantes vivos, ou suas linhagens evolutivas foram modificadas de tal forma que a análise genética direta se torna difícil.

Nesse contexto, os fósseis se tornam essenciais, pois fornecem informações sobre formas vegetais antigas, suas adaptações e interações com o ambiente. Estudar fósseis permite que os paleobotânicos reconstruam características morfológicas e transições evolutivas de plantas que não têm contrapartes modernas.

O artigo de Crane et al. sublinha a importância dos fósseis para compreender a origem das principais linhagens de plantas, como as gimnospermas e angiospermas. Fósseis de estruturas vegetais antigas fornecem evidências cruciais para determinar como essas linhagens se diversificaram ao longo do tempo, principalmente por conservarem informações estruturais que as metodologias moleculares atuais não conseguem extrair de plantas viventes. Assim, em muitos casos, as informações fósseis complementam os dados moleculares e ajudam a preencher lacunas na árvore filogenética das plantas.

Além disso, os fósseis desempenham um papel significativo na compreensão das interações das plantas com os ecossistemas do passado. Estudar fósseis permite aos cientistas inferirem como as plantas interagiam com seu ambiente e com outras formas de vida, como fungos, animais e bactérias. Essas interações ecológicas são essenciais para entender como as plantas se adaptaram a eventos-chave da história evolutiva, como a transição do ambiente aquático para o terrestre. Através dos fósseis, é possível observar como as plantas moldaram e foram moldadas pelos ecossistemas ao longo de milhões de anos.

Os autores também abordam os desafios enfrentados pela paleobotânica, como a preservação incompleta ou danificada de alguns materiais e a complexidade das formas morfológicas. A integração de dados fósseis com informações genéticas tem sido eficaz para superar essas dificuldades, proporcionando uma visão mais abrangente da evolução das plantas. Contudo, essa integração ainda enfrenta obstáculos, pois as diferenças na taxa de fossilização e nas características morfológicas podem gerar ambiguidades.

Em conclusão, o artigo enfatiza que, apesar dos avanços na biologia molecular, os fósseis continuam sendo essenciais para a compreensão da evolução das plantas. Eles não apenas ajudam a preencher lacunas na árvore genealógica das plantas, mas também oferecem informações valiosas sobre a diversificação e adaptação das plantas ao longo da história da Terra. O estudo dos fósseis vegetais é uma ferramenta indispensável para entender a complexidade da evolução das plantas e suas interações com o ambiente.

Texto fonte: CRANE, P.; HERENDEEN, P. & FRIIS, E. (2004). Fossils and Plant Phylogeny. American Journal of Botany 91(10): 1683–1699. DOI: https://doi.org/10.3732/ajb.91.10.1683.

Disponível em: https://bsapubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.3732/ajb.91.10.1683

Acesso em: 11 de março de 2026.

Fonte e legenda da imagem de capa: Prancha ilustrada de um conjunto remanescentes orgânicos vegetais mineralizados. Conjunto de fósseis vegetais em prancha.

Disponível em: https://www.lindahall.org/about/news/scientist-of-the-day/james-parkinson/


Texto revisado por: Giulia Alves e Alexandre Liparini.