Escrito em: 25 de outubro de 2025
Por: Sarah Luiza Dias Sousa
Quando pensamos em uma imagem clássica de um dinossauro, o que frequentemente vem à mente são aquelas criaturas de proporções enormes com escamas verdes e uma grande semelhança aos répteis modernos que conhecemos. Contudo, com a descoberta de novos fósseis ao longo dos anos, estudos científicos demonstram que essa visão do dinossauro clássico, tão prevalente na mídia como nos filmes “Jurassic Park” pode estar equivocada. Nossa tendência é imaginar que os dinossauros são esses grandes animais extintos que só podemos ver nos museus, mas não é bem assim, muitos dinossauros continuam a nos espreitar, voando pelos céus, pousados nas árvores e até mesmo andando pelo chão das grandes cidades. Sim! Nossas aves modernas são diretamente ligadas a um grupo de dinossauros, chamados de Theropoda. Este grupo incluía grandes carnívoros, hoje extintos, como o famoso T. rex. O que conhecemos como “a extinção dos dinossauros” foi um evento denominado como “a extinção do Cretáceo-Paleógeno” e aconteceu a cerca de 66 milhões de anos, contudo, algumas linhagens de dinossauros terópodes sobreviveram e deram origem as aves modernas.
O naturalista Charles Darwin em seu livro “A Origem das Espécies”, buscou compreender e discutir os fenômenos evolutivos. Neste livro, ele pressupõe que ao longo do tempo a humanidade encontraria fósseis “intermediários” que explicariam a evolução dos animais que conhecemos hoje em dia. A previsão feita pelo naturalista em pouco tempo seria cumprida quando pesquisadores encontraram na Alemanha um emblemático fóssil, nomeado como Archaeopteryx lithographica (nome que significa “asa antiga gravada em pedra”). A descoberta deste fóssil foi um grande divisor de águas no estudo da evolução, pois este era o fóssil de uma criatura que apesar de possuir características “reptilianas” como garras nas mãos, dentes e uma cauda longa, também eram encontrados elementos associados as aves como membros semelhantes a asas, boca semelhante a um bico e até mesmo penas. Essa descoberta tornou ainda mais claro o caminho que ligava os dinossauros e aves antigas a exemplares modernos da nossa fauna. Após a descoberta do icônico Archaeopteryx, diversos outros fósseis semelhantes foram encontrados e estudados.
O estudo paleontológico de fósseis de aves primitivas também permite a compreensão dos caminhos evolutivos percorridos pelas aves modernas. Um grande exemplar desse grupo foi encontrado no nordeste do Brasil, nomeado como Cratoavis cearensis (ave do Crato, do Ceará). Esse fóssil foi descoberto na Bacia do Araripe, local peculiar que se desenvolveu com a fragmentação do supercontinente Gondwana, o que desencadeou na formação do Oceano Atlântico. Nesta bacia hidrográfica está situada a Formação do Crato, local datado do período Aptiano (cerca de 113 milhões de anos atrás) que se destaca por suas formações fossilíferas de diversos exemplares de fauna e flora.
A Cratoavis é o fóssil de ave mais importante e mais antigo descoberto no Brasil, apesar de sabermos de suas pequenas dimensões e termos conhecimento que seu corpo era recoberto por penas, pouco se sabia sobre seus hábitos de vida e sua biologia. Felizmente, a Formação do Crato possui características excepcionais para a boa preservação de organismos, e com a Cratoavis não foi diferente. Após estudos aprofundados e análises desse fóssil, recentemente descreveram o que possivelmente seria a dieta desta ave primitiva. Dentro da região do intestino e ceco dessa ave, foram encontrados conjuntos de costelas e outros ossículos de peixes que habitavam a região no mesmo período.
Essa foi uma evidência direta da dieta do animal, uma grande descoberta, pois graças a estes achados podemos imaginar que tipo de ambiente esse animal ocupava ao analisar seus hábitos alimentares. Com os avanços nas pesquisas e análises minuciosas de fósseis, somos capazes de desvendar segredos do passado, encaixar as peças “perdidas” na história evolutiva das criaturas, revelando suas histórias de vida para compreender cada vez melhor como estes seres viviam e se adaptavam em seu ambiente.
Texto fonte: SALGADO, Fernando Luiz Kilesse et al. (2025). Evidence of piscivorous diet in an enantiornithine bird from the Lower Cretaceous of Brazil. Cretaceous Research, p. 106161, 2025.
Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0195667125000849.
DOI: https://doi.org/10.1016/j.cretres.2025.106161.
Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução artistica da Cratoavis se alimentando de peixes em seu ambiente natural. Ilustração retirada do artigo, com a arte de autoria do Deverson Pepi.
Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0195667125000849.
Texto revisado por: Sarah Luiza Dias Sousa, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.