Escrito em: 04 de dezembro de 2024
Por: Breno Gonçalves Gonze
Atualmente em nosso planeta, existem espécimes incríveis que chamam nossa atenção, seja por seu tamanho, força, aparência ou coloração, por exemplo. Existem também aqueles que chamam atenção por todas essas características juntas, como é o caso do Tubarão-branco (Carcharodon carcharias). Esse animal é bem conhecido e não é à toa, é um animal de grande tamanho, com aparência intimidadora e grande força, sendo um predador de topo de cadeia! Mas e se eu te contar, que ao longo da história na Terra, mais precisamente no Mioceno até o Plioceno na era Cenozoica (23,03 milhões de anos até 2,59 milhões de anos atrás), existiu um tubarão, da mesma Ordem que o tubarão-branco, os Lamniformes, porém extremamente maior? Exatamente, esse é o Carcharocles megalodon, conhecido também como Megalodon. Seu tamanho variava bastante, baseado em alguns estudos ele poderia chegar a mais de 16 m de comprimento, 10 m a mais do que o maior tubarão-branco já encontrado, com cerca de 6 m, chamada de Deep-Blue, a título de curiosidade.
Falando sobre o megalodon, quando pensamos em um animal desse porte, imaginamos que suas presas também eram extremamente grandes, como baleias por exemplo. Porém, em 2017 um artigo sugeriu uma nova ideia, ao invés do megalodon predar grandes animais, será que na verdade, ele não tinha como alvo pequenas presas? Visto que, por exemplo, os tubarões-brancos apesar de serem predadores altamente generalista (dieta variando de tubarões, peixes ósseos, cetáceos, etc) eles possuem uma predileção por mamíferos marinhos pequenos, como focas e pequenos cetáceos. Assim, vamos tratar desse assunto daqui para frente!
RESUMO
O estudo em questão, analisou algumas marcas de mordidas, em ossos fósseis de mamíferos marinhos (5 no total). Esses ossos fósseis datam do Mioceno superior (entre 11,63 e 5,33 milhões atrás), e foram encontrados no sul do Peru (Sítio de Hueso Blanco). As marcas foram atribuídas à espécie de megalodon citada. O material analisado inclui restos de crânios de baleias-de-barbatana (de pequeno porte), cetáceos fragmentados e pós-crânios (um esqueleto completo ou parcial de um animal, exceto o crânio) de pinípedes (grupo de mamíferos marinhos adaptados à vida aquática e terrestre, como focas e leões-marinhos). Portanto, os pesquisadores propõem a seguinte hipótese: o C. megalodon é um predador de topo de cadeia, onde suas principais presas seriam animais de pequeno porte. Os pesquisadores também propõem uma ligação entre o colapso de várias linhagens de Misticetos (baleias-de-barbatana) e a extinção do C. megalodon.
NO CASO DESSES FÓSSEIS, FOI UMA PREDAÇÃO ATIVA OU APENAS VASCULHARAM CARCAÇAS?
Bem, exceto em alguns casos bem específicos, como marcas de mordidas muito preservadas em esqueletos completos ou uma certa cicatrização óssea, encontrada ao redor de uma ferida dentária, é basicamente impossível diferenciar entre a predação ativa ou coleta. O estudo em questão, utiliza o tubarão-branco moderno como base, analisando, que ele ataca vários alvos pinípedes, mas nunca baleias-de-barbatana adultas (exceto a baleia pigmeu – Caperea marginata). Isso acontece porque todos os misticetos adultos, vão superar bastante em tamanho os tubarões-brancos, assim, utilizando como base o tubarão-banco, possivelmente as baleias-de-barbatanas adultas não seriam interessantes ou apropriadas para a predação do C. megalodon.
Sabemos também, que C. megalodon normalmente vasculhavam carcaças de misticetos adultos, além de terem uma preferência de iniciar a alimentação pela cauda antes de ir para as partes ricas em gordura no momento de vasculhar as carcaças. Sobre pequenas presas, temos que era bem menos comum o megalodon vasculhar carcaças de misticetos menores, tendo uma grande preferência para as grandes carcaças, podendo passar uma grande quantidade de tempo procurando por elas. Mas o que encontraram foram fósseis com mordidas, onde elas indicam que o C. megalodon era de 3 a 4 vezes maior que a sua presa, sugerindo uma relação predador-presa com esses indivíduos menores.
Outra evidência é que podemos observar um padrão ecológico atual, que pode ter sido seguido pelo C. megalodon, indicando que eles se alimentavam de baleias-de-barbatanas de pequeno porte e mamíferos marinhos menores nas áreas costeiras. Esse padrão é observado no tubarão-branco moderno, onde eles se agregam em pontos costeiros, em torno de colônias de pinípedes (Pimiento et al., 2010).
Assim, o artigo propõe que o C. megalodon provavelmente possuía um grande espectro de alimentação, podendo variar em peixes, mamíferos marinhos, répteis marinhos e etc. Porém, ao que tudo indica, as suas presas alvo provavelmente eram os misticetos (que possuíam alta fonte de energia) de pequeno ou até médio porte como citado anteriormente. Mas é importante frisar, que apesar de não caçarem ativamente grandes misticetos, suas carcaças faziam sim parte de sua dieta.
RELAÇÃO ENTRE TUBARÕES MEGADENTES E MISTICETOS
Por muito tempo, foi discutido o momento e como ocorreu a extinção dos tubarões megadentes (grupo de tubarões gigantes, extintos, pertencentes a família Otodontidae, onde o megalodon é o mais conhecido). As mudanças globais e/ou mudanças dos mamíferos marinhos, seriam as principais responsáveis pela extinção do grupo. O gênero Carcharocles (pertencente à família Otodontidae), possuem uma característica bem chamativa, uma tendência ao gigantismo, ao longo do tempo. Observado por Ehret (2010), essa tendência foi interpretada e relacionada ao aumento da diversidade dos cetáceos. O gigantismo, também apareceu nos misticetos durante o mioceno, onde no final do Plioceno, o cenário era de misticetos maiores, ou seja, se tornou uma tendência dessa linhagem. Essa tendência, também tem relação com o declínio ou desaparecimento de misticetos menores. Portanto, os cientistas acreditam e argumentam que o C. megalodon sofreu uma forte redução populacional no Plioceno e que essa redução tem bastante proximidade com a queda da diversidade de misticetos menores. Isso alinhado a mudanças do planeta na época, como o início da glaciação no hemisfério norte, ao final do Plioceno, possivelmente levou a um processo de coextinção, entre presa e predador.
Texto fonte: Alberto Collareta, Olivier Lambert, Walter Landini, Claudio Di Celma, Elisa Malinverno, Rafael Varas-Malca, Mario Urbina, Giovanni Bianucci, Did the giant extinct shark Carcharocles megalodon target small prey? Bite marks on marine mammal remains from the late Miocene of Peru, Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, Volume 469, 2017, Pages 84-91, ISSN 0031-0182
Disponível em:https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0031018216305417
DOI: https://doi.org/10.1016/j.palaeo.2017.01.001.
Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução da vida de um adulto de Carcharocles megalodon predando um indivíduo de Piscobalaena nana ocupado em forragear em um cardume de sardinhas (Sardinops sp. cf. S. sagax) ao longo a costa do atual Peru durante o final do Mioceno
Alberto Collareta, Olivier Lambert, Walter Landini, Claudio Di Celma, Elisa Malinverno, Rafael Varas-Malca, Mario Urbina, Giovanni Bianucci, Did the giant extinct shark Carcharocles megalodon target small prey? Bite marks on marine mammal remains from the late Miocene of Peru, Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, Volume 469, 2017, Pages 84-91, ISSN 0031-0182, https://doi.org/10.1016/j.palaeo.2017.01.001.
Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0031018216305417
Texto revisado por: Ana Luísa Ferreira, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.