Dinossauros piavam?*

08 de novembro de 2023

Por: Marco Túlio Silva Reis

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Um dos grandes mistérios que todos os amantes, entusiastas e pesquisadores de dinossauros possuem para desvendar é: quais sons será que essas criaturas faziam? Nos últimos anos, estudos de uma caixa vocal (laringe) preservada de uma espécie de dinossauro vêm esclarecendo sobre os possíveis sons que esses animais, hoje extintos, faziam enquanto andavam e se comunicavam pelo seu habitat. A espécie em questão é a Pinacosaurus grangeri, um dinossauro anquilossaurídeo que viveu há mais de 80 milhões de anos atrás. A descoberta desse fóssil ocorreu em 2005 no Deserto de Gobi, Mongólia.

A laringe, ou caixa vocal, é uma estrutura oca, em forma de tubo, localizada no topo da garganta, que tem anatomia adaptada para produção de ondas sonoras, através de vibração das cordas vocais. Esse é o método mais comum de se vocalizar, presente em répteis, anfíbios, mamíferos e aves. As aves, porém, possuem uma estrutura extra, a siringe, responsável pela capacidade complexa de canto desses animais. A siringe, é uma estrutura muito mais complexa e cientistas ainda não sabem ao certo como ela veio a se originar da laringe, que é uma estrutura bem mais simples.

Arcossauria é o nome de um grupo de animais que incluem alguns répteis atuais, como os crocodilos, além de aves, dinossauros e outros organismos extintos. Os anquilossauros, como o pinacossauro mencionado acima, fazem parte desse grupo. Os fósseis mais antigos dos arcossauros eram animais semelhantes a répteis primitivos, mas que se diferenciavam em duas linhagens distintas principais. Uma linhagem se tornou o que conhecemos hoje como os grupos dos dinossauros, incluindo as aves e os pterossauros, por exemplo. A outra linhagem se ramifica nos crocodilos e seus semelhantes fósseis. De acordo com cientistas, os pinacossauros  teriam vocalização intermediária entre os representantes atuais desses dois grupos, que são os crocodilos e as aves.

No aparato vocal fossilizado encontrado, foram identificadas estruturas anatômicas que parecem se assemelhar tanto às características de répteis modernos, como também ao aparato vocal de aves. Sabe-se, portanto, com certa segurança, que dinossauros não-avianos eram capazes de vocalizar de modo semelhante aos répteis, possivelmente com algumas particularidades que poderiam aproximar ao estilo de vocalização de algumas aves. 

Comparada a de outros répteis atuais, a laringe do pinacossauro descrito é bem mais alongada, sugerindo que teria sido utilizada para gerar sons contínuos, e não na diferenciação dos sons, como fazem os répteis, que possuem um aparato mais largo. Aves modernas são capazes de gerar som utilizando uma estrutura diferente, mas de modo semelhante. Levando tais fatos em consideração, pinacossauros podem ter sido capazes de criar sons altos e explosivos, semelhantes às vocalizações de aves viventes como as dos gêneros Nothura e Nothoprocta, assim, os paleontólogos envolvidos no estudo sugerem que esses animais podem ter soado também como como pássaros, provavelmente executando sons como arrulhos, gorjeios ou chilreios, utilizados, talvez, no ato de cortejo, para se comunicar com a prole ou demarcar território.

Texto fonte: Yoshida, J., Kobayashi, Y. & Norell, M.A. An ankylosaur larynx provides insights for bird-like vocalization in non-avian dinosaurs. Commun Biol 6, 152 (2023). Disponível em <https://doi.org/10.1038/s42003-023-04513-x>;, acessado em: 08/11/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Ilustração aproximada do que seria o aparato vocal da espécie Pinacosaurus grangeri por Tatsuya Shinmura. Extraída do texto fonte. Disponível em <https://www.nature.com/articles/s42003-023-04513-x/figures/3>, acessada em: 08/11/2023.

Mamíferos que botam ovos na América do Sul

26 de outubro de 2023

Por: Milena Ramos Fonseca

Os monotremados são um grupo de mamíferos que possuem a característica de botar ovos e são representados pelos ornitorrincos e equidnas. Além disso, eles não possuem mamilos, produzindo leite por glândulas localizadas em poros na pele da região ventral (barriga) das fêmeas. Algumas outras características desse grupo são a presença de uma cloaca, como nos répteis, e de um único osso na mandíbula inferior.

Esse grupo surgiu na Austrália no período do Cretáceo Inferior, entre 145 e 100 milhões de anos atrás, e acreditava-se que ele sofreu uma dispersão até a América do Sul em algum momento posterior, entre o Cretáceo Superior e o Paleoceno Inferior. Isso porque, até então, o único fóssil de monotremados fora da Oceania foi encontrado na Patagônia da Argentina, em rochas de idade do início do Cenozoico, entre 66 e 60 milhões de anos.

Uma nova evidência, entretanto, mostra que monotremados já estiveram no sul do continente americano no fim do Mesozoico, entre 72 e 66 milhões de anos atrás, quando tal região ainda era conectada com a atual Austrália formando a Gondwana. Tal evidência é um fóssil de um monotremado de uma espécie até então desconhecida pela comunidade científica, o qual foi encontrado recentemente na Patagônia, no sul da Argentina, sendo então nomeado Patagorhynchus pascuali.

O fóssil que se preservou consiste em um resto fragmentado de mandíbula com um dente molar inferior que tem um padrão determinante de monotremados semelhante ao mesmo molar de outras espécies do grupo. O fragmento foi coletado na formação geológica Chorrillo, associado a fósseis de outros animais, potencialmente do mesmo período, já que estavam na mesma camada de rocha.

A nova descoberta é muito importante, pois revela que a vinda dos monotremados para a América ocorreu bem mais cedo do que se achava até então, nos dando mais evidências sobre a história evolutiva dos monotremados. Além disso, o descobrimento do Patagorhynchus pascuali enriquece ainda mais a paleofauna sul-americana.

Texto fonte: Chimento, N. R., Agnolín, F. L., Manabe, M., Tsuihiji, T., Rich, T. H., Vickers-Rich, P., & Novas, F. E. (2023). First monotreme from the Late Cretaceous of South America, Communications Biology, v. 6, n. 1, p. 146. Doi: 10.1038/s42003-023-04498-7. Disponível em <https://doi.org/10.1038/s42003-023-04498-7&gt;, acessado em: 04/10/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Ilustração próxima do que seria a espécie Patagorhynchus pascuali por Gabriel Lio. Extraída de sci.news. Disponível em <https://www.sci.news/paleontology/patagorhynchus-pascuali-11676.html&gt;, acessada em: 04/10/2023.

Paleonto, por que não?

20 de setembro de 2022

Por: Pamella Damásio

Você sabe o que é paleontologia?

Sabe a importância da paleontologia para a sociedade?

A paleontologia em tese é definida por ser o estudo dos fósseis, esta palavra vem do grego em que paleos = velho, antigo e logos = estudo.

E por que estudar os fósseis é importante para mim?

Bom, você nunca se perguntou de onde você veio ou como tal animal surgiu, ou como os seres vivos se modificaram ao longo dos anos? Como sabemos que um determinado ser vivo passou por modificações? De onde veio isso ou aquilo, ou o grau de parentesco entre os seres?

Muitas das respostas para estas perguntas você consegue encontrar graças à Paleontologia, ao estudar um fóssil – que em suma é um vestígio ou resto de ser vivo preservado do passado – é possível fazer algumas observações que nos permitem esclarecer tais dúvidas. Registros fósseis são capazes de nos mostrar, por exemplo, a evolução biológica de um determinado ser vivo, ou seja, consegue inferir se houve ou não mudanças neste ser, e, dependendo de onde aquele fóssil é encontrado pode nos informar o porquê de tais modificações e até mesmo as consequências destas mudanças para tal espécie.

Com o estudo dos fósseis é possível também realizar uma estimativa de data geológica, que significa inferir a partir das características daquele fóssil a qual período o organismo em questão pertenceu, em qual ele foi extinto ou não, ou por que ele sobreviveu a tais fenômenos ocorridos naquele tempo? É possível também, reconstruir, acrescentar e ou modificar a história geológica da terra a partir da presença ou não do ser em determinado momento na geologia.

Mas não se engane, a paleontologia não está só, ela possui ferramentas importantíssimas na identificação e assimilação de fósseis, a Paleontologia anda de mãos dadas com a Evolução e a Geografia, por exemplo, juntas estas vertentes tendem a nos responder de forma biológica sobre a origem e modificações das “coisas”!

No que diz respeito a Educação Ambiental, por exemplo, o ensino da paleontologia é extremamente importante. Pois de acordo com os locais em decorrências de fósseis em determinados lugares, conseguimos inferir muito sobre relações e condições ambientais nas quais determinados seres viviam e se mantinham.

E aí, você terminou de ler este texto com as mesmas ideias que tinha antes de o conhecer?

Diante disso, é valido ressaltar a necessidade da Paleontologia como parte fundamental no ensino escolar desde o nível básico, para que seja difundida, bem como valorizada no que diz respeito a sua importância desde o inicio da formação estudantil de todos.

Por que não aproveitar desde os pequeninos para introduzir um assunto tão importante e necessário?

Por que não explorar dentro disso a metodologia científica, que tem o início pautado nas observações e perguntas?

Por que não utilizar da curiosidade do saber das crianças para ensinar-lhes de forma conjunta sobre a origem das coisas do ponto de vista biológico e sobre o quão importante é ter interesse, dúvidas e iniciativa de testes a fim de responder às questões científicas?

Essa construção sendo explorada desde cedo pode contar com metodologias lúdicas a fim de aproximar os estudantes da área sem que seja chato, porque de fato não é!
Contar com a didática para transformar o ensino é fundamental, e o conhecimento é fonte confrontadora das desigualdades.

E você? Teve acesso a essas informações pela primeira vez por aqui ou foi no ambiente escolar??

Se você pudesse escolher ter tido acesso a estas informações na escola você escolheria?

Artigo fonte: CRUZ, S. de F. C. F. da; BOSETTI, E. P. A geografia e a paleontologia: perspectivas de inter-relações no ensino fundamental. Terr@ Plural, v. 1, n. 2, p. 129–138, 2007. Disponível em: https://revistas.uepg.br/index.php/tp/article/view/1158 (acesso em: 22 mai. 2023).

Fonte e legenda da imagem de capa: Paleontologia e sociedade. Ensinando paleontologia para crianças. Imagem de Eduardo Rebollada. Extraída de commons.wikimedia.org. Disponível em <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Teaching_and_learning_paleontology_to_children.jpg>, acessada em 07/06/2023.

Paleopatologia: fósseis como registros de sobrevivência*

02 de outubro de 2022

Por: Stella Maciel Quirino

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

A patologia é uma área de estudo focada nas reações dos tecidos do corpo a lesões e a agressões como infecções e intoxicações. Especificamente, trata-se dos processos de degeneração (acúmulo de substâncias nas células), cicatrização tecidual, morte celular, inflamações e formação de tumores e cânceres. No contexto da paleontologia, teria como estudar, por exemplo, os processos inflamatórios que acometiam, em vida, os animais já extintos, dos quais se tem apenas registros fósseis? As doenças com as quais eles conviviam? Esse é o campo de estudo da paleopatologia. Trabalhos paleopatológicos buscam descrever doenças e injúrias dos animais do passado, a fim de melhor entender a fisiologia das espécies, causa de manifestações patológicas e, até mesmo, o ecossistema já extinto, do qual eles faziam parte.

Registros fósseis bem conservados de um indivíduo da espécie Majungasaurus crenatissimus, dinossauro carnívoro da família Abelisauridae que viveu no Cretáceo, encontrados em Madagascar, revelaram processos patológicos por marcas nos ossos. Seus ossos jugal e quadratojugal direitos — parte do crânio de répteis — apresentam superfície rugosa, com crescimento hipertrófico e fossas adicionais. Essas características apontam para uma infecção bacteriana ou fúngica, provavelmente osteomielite. A quinta vértebra cervical apresenta marcas de dente, ou seja, o indivíduo estudado sofreu um ataque de outro carnívoro. Essas marcas estão preservadas com limites arredondados, o que indica que a lesão foi regenerada. A parte dorsal de suas costelas, nas costas do animal, também apontam para processos de cicatrização, uma vez que apresentam formação de calos e mudança na textura do osso. Os membros anteriores contém diversas alterações, como hipertrofia, marcas de morte celular e calcificações onde existiam tecidos moles, que apontam uma possível artrite séptica, outro tipo de infecção, dessa vez nas articulações. A variação de tipo e local das lesões indicam que elas não foram causadas em um único evento.

Estudos desse tipo precisam considerar importantes parâmetros para definir se uma alteração no fóssil é resultado de um processo patológico ou não. Dentre outros critérios, as peças devem ter boa qualidade de preservação, além de estarem em um sítio paleontológico onde vários indivíduos da mesma espécie foram encontrados bem preservados. Essas considerações refinam as observações realizadas pelos paleontólogos, pois permitem comparações intraespecíficas, que descrevem a morfologia padrão da espécie, e a análise de processos tafonômicos (pós morte).

Estudar as patologias que acometeram os dinossauros em vida, não apenas a causa de sua morte, é importante para entender o funcionamento do organismo desses animais e, até mesmo, suas interações com microrganismos. O estudo em questão pôde demonstrar que uma população saudável de M. crenatissimus possuía indivíduos com múltiplas patologias, principalmente infecções e regeneração de lesões, elucidando alguns fatos sobre a ecologia e a fisiologia desses animais.

Texto fonte: Gutherz, S.B., Groenke, J.R., Sertich, J.J.W., Burch, S.H., O’Connor, P.M. (2020). Paleopathology in a nearly complete skeleton of Majungasaurus crenatissimus (Theropoda: Abelisauridae), Cretaceous Research, v. 115, p. 104553. Doi: 10.1016/j.cretres.2020.104553. Disponível em <https://doi.org/10.1016/j.cretres.2020.104553>, acessado em 23/05/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Ilustração próxima do que seria a espécie Majungasaurus crenatissimus por Nobu Tamura. Extraída de commons.wikimedia.org. Disponível em <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Majungasaurus_BW.jpg>, acessada em: 23/05/2023.

Que preguiça de extinção!

01 de outubro de 2022

Por: Eduardo Gutseit

Mudanças climáticas, poluição do ar e da água, extinção de espécies animais e vegetais… É bem claro para nós, hoje, que os seres humanos são responsáveis por grande parte das mudanças ambientais observáveis aos nossos olhos. Modificamos o mundo natural ao nosso redor para formar grandes sociedades, que exigem da Natureza uma quantidade enorme de recursos, e isso acaba levando à perda de habitats e nichos de outros indivíduos, que acabam entrando em processo de extinção.

Extinção é o desaparecimento definitivo de uma espécie de ser vivo. É um processo natural, e muito importante na história da evolução das espécies. Entretanto, com o crescimento e desenvolvimento da complexidade da população humana, vemos cada vez mais extinções devido a causas antrópicas do que a causas naturais. Nesse texto, vamos ver um dos primeiros casos em que os seres humanos foram responsáveis pela extinção de outros seres, as preguiças.

Esse grupo de animais, hoje visto como muito carismático, pelo tamanho e pela fofura, há milhares de anos eram gigantes que dominavam o cenário da megafauna do continente americano, principalmente na América do Sul. As preguiças pertencem ao grupo Xenarthra, e eram muito abundantes por aqui, até que a grande maioria de suas espécies foram extintas, deixando pouquíssimos descendentes, que são as pequenas preguiças que temos hoje.

No Holoceno, há cerca de 10.000 anos, o grupo das preguiças contava com 19 gêneros, dos quais algumas espécies apresentavam indivíduos terrestres com até 3.000 kg. Todavia, hoje temos cinco espécies de preguiças arbóreas, com até 8 kg. E os responsáveis por essa perda de biodiversidade de preguiças foram nós, humanos. Como Davi e Golias, os seres humanos foram responsáveis pelo desaparecimento das preguiças, que foram intensamente caçadas.

O trabalho desenvolvido por David W. Steadman e colaboradores demonstraram, através da técnica de datação de isótopo radioativo do carbono, que a idade dos fósseis mais recentes de preguiças corresponde com o período de ocupação humana do ambiente. A hipótese mais aceita da migração humana ao longo do globo propõe que os humanos chegaram nas Américas através do Estreito de Bering, que conecta a Rússia aos Estados Unidos. Dessa forma, os primeiros humanos colonizaram primeiro a América do Norte e depois a América do Sul.

Quando os cientistas acessaram os dados da idade dos fósseis das preguiças desses ambientes, constataram que o mais recente da América do Norte tinha 10.400 anos, e o da América do Sul 10.200 anos. Ou seja, primeiro os humanos extinguiram as preguiças norte-americanas, e, na medida em que migraram para o sul, extinguiram as que aqui viviam.

Entretanto, essa proximmidade no tempo entre as localidades continentais não se observa nas ilhas caribenhas. No Haiti, Cuba e outras ilhas, os fósseis mais recentes eram de 5.000 a 6.000 anos mais recentes que aqueles que foram encontrados no continente. E isso reafirma a hipótese de que os humanos são os responsáveis pela extinção das grandes preguiças, pois a ocupação humana dessas ilhas se deu de forma mais tardia que as áreas continentais.

Outras hipóteses postulavam que a extinção dessas preguiças se deu por meio de glaciações intensas ocorridas no período. Entretanto, a análise dos coprólitos (fezes fossilizadas) das preguiças demonstram que espécies vegetais da época, achadas nas fezes, tinham representantes atuais na região em que os fósseis foram achados. Ou seja, se realmente a glaciação fosse responsável pela extinção, espécies vegetais também teriam se extinguido. Outro contra argumento é a região predominantemente tropical em que as preguiças viviam, que dificultariam a extinção desses animais, devido a alteração climática menos intensa nessa região.

Texto fonte: Steadman DW, Martin PS, MacPhee RD, Jull AJ, McDonald HG, Woods CA, Iturralde-Vinent M, Hodgins GW. Asynchronous extinction of late Quaternary sloths on continents and islands. PNAS – Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America. 2005 Aug 16; 102(33):11763-8. Doi: 10.1073/pnas.0502777102. Disponível em <https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.0502777102>, acessado em 23/05/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Modelo de preguiças fósseis de Cuba e dos EUA por Dallas Krentzel. Extraída de commons.wikimedia.org. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ground_sloths.jpg (acessada em: 23/05/2023).

Humanos pré-históricos comiam “elefantes”?

27 de setembro de 2022

Por: Elisa Rocha de Castro

Há alguns milhares de anos, várias espécies de grandes mamíferos coexistiam com os seres humanos no Brasil. A Notiomastodon platensis foi uma dessas espécies, um animal semelhante aos atuais elefantes viveu aqui entre 120 e 21 mil anos atrás. Assim como grande parte da extinção da megafauna, a razão de seu desaparecimento pode estar relacionada à atividade humana e, nesse caso, por causa da predação de filhotes/jovens.

Como assim?!? Predação de filhotes?!?

Sim, predação de filhotes. Por serem menores e mais frágeis eram presas fáceis e serviam de alimento para todo o grupo durante vários dias, pois, mesmo sendo jovens, pesavam cerca de 150 kg. Sendo assim, abater um jovem desse “elefante” tinha um excelente custo-benefício. Se essa prática tiver ocorrido durante séculos, ela poderia ser suficiente para levar à extinção da espécie.

Tá, mas de onde veio essa ideia de que os humanos comiam “elefantes”?

Um recente estudo feito com um fóssil de Notiomastodon platensis encontrado em Lagoa Santa, da coleção paleontológica do Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG, apontou a presença de um artefato humano cravado no crânio de um indivíduo jovem, de cerca de um ano de idade, que foi inserido com o animal ainda vivo. Esse artefato se assemelha muito ao tipo de ferramenta que a comunidade que vivia na região de Lagoa Santa utilizava, indicando que o animal pode ter sido vítima desse povo. Por que mais alguém mataria um “elefante” jovem a não ser para se alimentar?

E por que a descoberta desse fóssil foi tão importante?

Este é o único registro claro da morte de um animal da megafauna causada por humanos na América do Sul. Isso indica que os habitantes daqui poderiam ter o hábito de caçar essas grandes presas e que outros sítios paleoarqueológicos onde se encontram animais com marcas feitas por humanos também podem estar relacionados à predação.

Nota: Infelizmente, o fóssil original deste importante achado foi roubado, em Belo Horizonte, no dia 02/12/2012, junto com o veículo, que o transportava de volta à coleção do Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG, após seu empréstimo para o estudo, no Rio de Janeiro.

Artigo fonte: Mothé, D.; Avilla lS.; Araújo-Júnior H.I.; Rotti A.; Prous A.;. Azevedo S.A.K. (2020). An artifact embedded in an extinct proboscidean sheds new light on human-megafaunal interactions in the Quaternary of South America. Quaternary Science Reviews, v. 229, n. 106125. Doi: 10.1016/j.quascirev.2019.106125. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0277379118309806 (acessado em: 23/05/2023).

Fonte e legenda da imagem de capa: Ilustração de como o golpe pode ter sido deferido para a morte do fóssil encontrado. Autoria de Vitor Silva. Extraída do artigo fonte.

A falsa hegemonia dos grandes dinossauros

26 de setembro de 2022

Por: Theo Karam Vieira Maciel

Quando pensamos em dinossauros, logo nos vem à ideia uma Terra completamente dominada pelos gigantes Tiranossauros rex, com suas garras e dentes afiados, e Brachiosaurus, com seu longuíssimo pescoço capaz de alcançar a copa das mais altas árvores. Mas será que eles realmente dominavam todo o ambiente terrestre? Bem, apesar de essa ideia fantasiosa ser muito mais legal, na realidade, os dinossauros, por muito tempo, ocuparam quase que exclusivamente as zonas temperadas do globo terrestre, sendo raríssima sua ocorrência na região tropical. E, quando ocorriam, eram apenas pequenos dinossauros carnívoros. Mas, se atualmente as regiões tropicais são as com maior biodiversidade animal e vegetal, por que naquela época os dinossauros eram tão escassos nessas áreas e eram apenas pequenos carnívoros?

A resposta para essas perguntas gira em torno de uma característica muito importante das zonas tropicais dessa época: condições climáticas extremamente variáveis. Estudos realizados no sudoeste dos Estados Unidos mostraram intensas flutuações na temperatura, na umidade e nos regimes de chuva dessa zona, além de regimes de queimadas naturais frequentes. Com isso, a vegetação local apresentava também grandes variações, de forma que apenas espécies adaptadas a tanta instabilidade sobreviviam e se mantinham. Dessa forma, é possível entender a ausência completa de grandes herbívoros, afinal, não existia uma vegetação que os suportasse, e a presença de alguns pequenos dinossauros carnívoros, que dependem menos diretamente da população de plantas. Com isso, as zonas temperadas mais úmidas e mais estáveis configuravam ambientes muito mais prósperos para esses grupos de grandes dinossauros, que se expandiam e dominavam essas regiões.

Apesar disso, não quer dizer que os trópicos eram inóspitos. Diversos grupos de vertebrados foram capazes de colonizar e sobreviver a essas variações constantes e abruptas, como os pseudossuquianos, grupo que inclui os crocodilianos. Dessa forma, podemos perceber que, apesar de grandes e, aparentemente, imbatíveis, os dinossauros não dominavam todos os ambientes terrestres de maneira contínua e hegemônica.

Artigo fonte: Whiteside, J. H.; Lindström, S.; Irmis, R. B.; Glasspool, I. J.; Schaller, M. F.; Dunlavey, M.; … & Turner, A. H. (2015). Extreme ecosystem instability suppressed tropical dinosaur dominance for 30 million years. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 112, n. 26, p. 7909-7913. Doi: 10.1073/pnas.1505252112 Disponível em: <https://doi.org/10.1073/pnas.1505252112> acesssado em: 22/05/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Apesar de curioso, grandes dinossauros, principalmente herbívoros, não habitavam regiões tropicais. Imagem elaborada pelo próprio autor do texto: Theo Karam Vieira Maciel.

Modern family

24 de setembro de 2022

Por: Eduarda Rodrigues

Você sabia que dinossauros, animais já extintos, como Tyrannosaurus rex e alguns velociraptors têm relações com aves existentes nos dias atuais, como galinhas e pombos, por exemplo?! Algumas descobertas cientificas mostram que as aves surgiram, mais precisamente evoluíram, a partir de características que já estavam presentes em outros grupos de animais, mesmo que com algumas alterações, quando a palavra “aves” não era nem uma possibilidade. Por meio da paleontologia, a descoberta de fósseis ao decorrer dos anos trouxeram à tona essa proximidade entre dinossauros e aves.

A primeira característica encontrada foram as asas, que por muito tempo eram consideradas exclusivas do segundo grupo mencionado, as aves. Em seguida novos aspectos, quando comparados os esqueletos dos dois grupos, foram notados. Sendo que ao observar as aves, foi possível verificar as adaptações físicas, que surgiram de algo que antecedeu a existência das mesmas. Esse foi o caso das penas, que se tornaram de alguma forma “melhores”, assim como algumas modificações na face, dentre as quais, o surgimento do bico. Além disso, o estudo desses animais mostrou semelhanças na formação dos filhotes, ou seja, dos embriões.

Um experimento relatou tal semelhança entre os embriões, ao identificar geneticamente, a constituição dos ossos das aves e relacioná-las com a dos dinossauros, que as originaram. Descobrindo que o rosto das aves vieram da modificação de um gene e não da criação de algo totalmente novo. Ainda que com a mesma base, uma face totalmente nova, em termos de funções e ferramentas, como o próprio bico, deu origem a elas.

Matéria fonte: SINGER, Emily. (2015). How Dinosaurs Shrank and Became Birds. Quanta Magazine. 12 de junho de 2015. Disponível em: https://www.quantamagazine.org/how-birds-evolved-from-dinosaurs-20150602#0 (acessado em 22/05/2023).

Fonte e legenda da imagem de capa: A figura mostra da esquerda para direita: dois animais talvez não tão conhecidos assim, um Velociraptor, pertencente aos dinossauros, um Archaeopteryx, conhecido como a primeira ave, mostrando a relação entres os dois outros crânios que são respectivamente de uma galinha e um pombo. Foto de Katherine Taylor, para a Quanta Magazine. Extraída da matéria fonte.

Purussaurus, o jacaré gigante da Amazônia*

26 de setembro de 2022

Por: Gabriela Pereira Ribeiro

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Não é novidade que a região amazônica é um dos lugares com maior biodiversidade de fauna do mundo, incluindo de jacarés. Lá existe o maior número de espécies diferentes desse predador. Mas você sabia que a Amazônia brasileira foi berço do maior jacaré que já existiu no planeta?

O nome dele é Purussaurus, um animal que viveu na América do Sul há cerca de 20 milhões de anos, que atingia cerca de 12,5 metros de comprimento e pesava 8,4 toneladas!

Era um grande predador — egoísta até — que ingeria até 60 kg de alimento por dia.

Esse poderoso e enorme jacaré usava de seu tamanho como uma adaptação natural sobre o uso dos recursos. Isso quer dizer que ele comia para que não sobrasse alimento para seus adversários. Quando jovem se alimentava de insetos, moluscos e pequenos peixes, mas conforme atingia a maturidade, ele modificava sua dieta para animais maiores, como cobras, tartarugas, aves e mamíferos. Quanto mais crescia, maior eram suas presas.

No mundo animal, os formatos de cabeça e focinho indicam o tipo de alimento que consomem. A grande cabeça e dentes achatados do Purussaurus indicavam esse tipo diverso de alimentação.

Mas ter um grande tamanho corporal tem implicações negativas, como o desafio de regular a temperatura corporal, isto é, os animais de sangue frio como os jacarés precisam do calor do ambiente para se aquecer. Ou seja, ser um animal tão gigante que vivia em um ambiente tão propício foi um fator limitante que provavelmente causou sua extinção, pois qualquer mudança no clima se refletia em uma grande mudança necessária para eles. Já os jacarés menores eram menos “rigorosos” e se mantiveram no ambiente por muito mais tempo e, talvez seja por isso que ainda estejam aqui.

Texto fonte: Aureliano T, Ghilardi AM, Guilherme E, Souza-Filho JP, Cavalcanti M, Riff D (2015) Morphometry, Bite-Force, and Paleobiology of the Late Miocene Caiman Purussaurus brasiliensis. PLoS ONE 10(2): e0117944.Doi: 10.1371/journal.pone.0117944 Disponível em: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0117944 (acessado em 16/05/2023).

Fonte e legenda da imagem de capa: Desenho de Purussaurus brasiliensis por Nobu Tamura. Extraída de commons.wikimedia.org. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Purussaurus_BW.jpg . Acessada em: 16/05/2023.

Berthasaura, o primo banguela e brasileiro do Tiranossauro*

26 de setembro de 2022

Por: Gabriela Monteiro Guimarães

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Um achado paleontológico brasileiro coletado na pedreira “Cemitério dos Pterossauros” próxima ao município de Cruzeiro do Oeste, Paraná, apresenta um esqueleto quase completo de Berthasaura leopoldinae, uma espécie pertencente ao grupo dos terópodes: dinossauros conhecidos por serem grandes bípedes carnívoros. Isso faz da nova espécie um parente próximo de famosos predadores como os alossauros e tiranossauros. A maior curiosidade que este novo fóssil apresenta à comunidade científica é a sua total ausência de dentes.

O Berthasaura leopoldinae é um noassaurídeo, uma subdivisão dentro do grupo dos ceratossauros. O subgrupo é conhecido por ter hábitos onívoros e por possuir um corpo menor e mais esguio que a maioria dos outros animais nessa categoria, como os ceratossauros e os abelissauros, reconhecidos animais de grande porte com hábitos exclusivamente carnívoros. Ossadas de noassaurídeos já haviam sido encontradas na Tanzânia e na China, mas principalmente apenas por meio de registro fóssil incompleto e fragmentado. A espécie brasileira foi nomeada homenageando a ativista feminina, política e bióloga nacional, Bertha Maria Júlia Lutz (1894-1976) e a primeira imperatriz brasileira, Maria Leopoldina (1797-1823). Seu nome faz alusão também à escola de samba Imperatriz Leopoldinense, que em 2018 homenageou o bicentenário do Museu Nacional do Brasil com o tema “Uma noite real no Museu Nacional”.

O crânio da ossada descoberta no Paraná está em boas condições de preservação, o que permitiu a constatação da inexistência de alvéolos dentários (cavidades nos ossos onde os dentes se alojam na maxila e na mandíbula) e a realização de uma tomografia computadorizada que comprovou que o animal nunca teve um dente na vida. Outro noassaurídeo desdentado já havia sido documentado antes, o Limusaurus inextricabilis encontrado em território chinês, mas no caso do Limusaurus, os animais apenas perdem os dentes depois de atingirem a maturidade, por volta dos três anos de idade. Os testes realizados no crânio brasileiro indicam que em nenhum estágio de seu envelhecimento o animal desenvolva qualquer tipo de dentição.

Teoriza-se que a alimentação do Berthasaura fosse herbívora, já que compartilha algumas características com outros dinossauros reconhecidos como tal, inclusive apresentando um bico córneo muito recorrente em espécies vegetarianas. Mas sem outros registros fósseis bem conservados para ajudar a confirmar os atributos da espécie, não se pode afirmar nada com certeza absoluta. Outra possibilidade é que possam manter uma dieta onívora, alimentando-se tanto de plantas quanto de pequenos animais. Não se sabe ao certo a origem dessa diferença morfológica tão marcante entre o Berthasaura e os outros dinossauros com os quais compartilha um ancestral comum próximo. Mais dados são necessários para viabilizar as pesquisas que podem comprovar qualquer hipótese elaborada.

Artigo fonte: de Souza, GA, Soares, MB, Weinschütz, LC et al. O primeiro ceratossauro edêntulo da América do Sul. Scientific Reports 11 , 22281 (2021). Doi: 10.1038/s41598-021-01312-4 Disponível em: https://doi-org.ez27.periodicos.capes.gov.br/10.1038/s41598-021-01312-4 (acessado em: 16/05/2023).

Fonte e legenda da imagem de capa: Esqueleto quase completo de Berthasaura leopoldinae encontrado no estado do Paraná. Extraída do artigo fonte.