Como os Fósseis são Preservados nas Cavernas do Brasil

Escrito em: 30 de março de 2026

Por: Daniel dos Santos Araújo

Cavernas do Brasil preservam grande diversidade de fósseis. Esses ambientes podem registrar restos de animais que viveram no passado e fornecer informações importantes sobre a história natural do país, pois o ambiente interno possui características específicas que permitem a conservação dos restos, como a baixa atividade de microrganismos.

Desde o século XIX, pesquisadores estudam restos de animais encontrados em cavernas, com os primeiros estudos sendo realizados na Europa. Posteriormente, pesquisas desse tipo também passaram a ocorrer no Brasil. Um dos primeiros pesquisadores a realizar esse tipo de estudo no país foi o naturalista dinamarquês Peter Lund, considerado o pai da espeleologia e da paleontologia do Brasil, que investigou fósseis na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais. Com o avanço das pesquisas, estudos também passaram a ser realizados em outros estados brasileiros, como Bahia, Piauí, Tocantins e São Paulo. A partir dos anos 2000, pesquisas começaram a ocorrer em novas regiões, incluindo Ceará, Sergipe, Mato Grosso do Sul e Paraná, ampliando o conhecimento sobre os depósitos fossilíferos em cavernas brasileiras.

No início desses estudos, o foco era principalmente taxonômico, ou seja, voltado para a identificação e classificação dos organismos encontrados. Com o desenvolvimento da pesquisa, passou-se também a investigar como os restos chegaram às cavernas e quais processos atuaram em sua preservação. Essa abordagem está relacionada à tafonomia, área da ciência que estuda os processos que ocorrem com os restos dos organismos desde a morte, passando pelo processo de fossilização e sua preservação até os dias atuais. O conceito de tafonomia, no entanto, ainda não havia sido formalizado na época de Peter Lund, sendo desenvolvido apenas no século XX.

Os fósseis podem chegar às cavernas por diferentes processos. Animais podem cair acidentalmente em aberturas naturais, entrar nesses ambientes em busca de abrigo ou alimento, ou ter seus restos transportados por predadores. A água também pode carregar sedimentos e fragmentos ósseos para dentro das cavernas. Esses processos fazem parte do que a tafonomia estuda, incluindo o transporte dos restos, o estado de fossilização e o grau de fragmentação dos ossos. Em muitos casos, os fósseis apresentam fragmentação significativa, que pode ocorrer devido ao retrabalhamento dos sedimentos dentro da própria caverna ao longo do tempo.

Diversos fósseis encontrados nessas cavernas pertencem à megafauna do Pleistoceno, Época geológica que ocorreu aproximadamente entre 2,6 milhões e 11 mil anos atrás. Esse grupo inclui grandes mamíferos que viveram no passado, como preguiças-gigantes, mastodontes (parentes dos elefantes atuais e que viveram aqui no Brasil) e gliptodontes (os famosos tatus-gigantes). Além desses grandes animais, muitos depósitos cavernícolas também apresentam fósseis de pequenos vertebrados, como roedores, marsupiais e répteis.

Muitas cavernas estudadas no Brasil são formadas por rochas carbonáticas, como o calcário. Nesses locais, minerais podem se depositar ao redor dos restos orgânicos, fazendo com que muitos fósseis fiquem cimentados nos sedimentos, isso exige que a coleta de fósseis em cavernas seja realizada com bastante cuidado, para não quebrá-los. Durante as escavações, os pesquisadores delimitam áreas de estudo e removem o sedimento ou a rocha, em camadas, utilizando ferramentas como espátulas, martelos, ponteiras de metal, pincéis e pequenas pás. A posição e a profundidade de cada fóssil são registradas, pois essas informações ajudam na interpretação tafonômica do depósito.

Em alguns casos, os fósseis estão preservados em depósitos muito compactos chamados de solos carbonatados ou brechas fossilíferas, nos quais os ossos ficam fortemente cimentados nos sedimentos. Nesses casos, pode ser necessário remover blocos de rocha contendo os fósseis para posterior preparação em laboratório.

No laboratório, a remoção dos fósseis da matriz rochosa é feita com ferramentas específicas, como cinzéis, martelos e equipamentos pneumáticos de precisão. Durante esse processo, os pesquisadores também registram a posição e orientação dos fósseis dentro da matriz, medindo distância, profundidade, inclinação e direção, o que permite reconstruir a disposição original dos restos no depósito e entender como eles foram parar ali.

Atualmente, pesquisas continuam sendo realizadas em cavernas brasileiras utilizando métodos cada vez mais detalhados. Esses estudos ajudam a compreender como os fósseis foram depositados e preservados nesses ambientes, além de revelar informações importantes sobre a fauna que habitou o território brasileiro no passado e sua relação ecológica em um ambiente bem diferente do que temos atualmente.

Texto fonte: Vasconcelos A.G., Kraemer B.M., Meyer K.E.B. (2018). Tafonomia em cavernas brasileiras:histórico e método de coleta de fósseis preservados em solo carbonatado. Terræ Didática, 14(1):49-68.

Disponível em: https://www.ige.unicamp.br/terraedidatica/v14_1/PDF14-1/TD14-203-2018-5.pdf.

Fonte e legenda da imagem de capa: Visão em perfil de uma caverna, feita por Lund (1836), onde são indicadas as hipóteses de entrada de animais (ou de seus restos): (1) à procura de água ou sal; (2) carregados por predadores; (3) queda através de fendas verticais; (4) à procura de abrigo (ex.: morcegos); (5a) levados por correntezas de água – somente os ossos; (5b) levados por correntezas de água – como carcaças.

Disponível em: https://www.ige.unicamp.br/terraedidatica/v14_1/PDF14-1/TD14-203-2018-5.pdf.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

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