Mexendo em time que está ganhando

Escrito em: 07 de dezembro de 2024

Por: Pedro Marzano

“Não se mexe em time que está ganhando” é um ditado popular e é, certamente, muito sábio. Mas, como de costume, a biologia gosta de desafiar as regras que nós, humanos, gostamos de aplicar.

Você, provavelmente, ouviu falar do trilobita, um artrópode extinto cujo charme cativa, não só pesquisadores, mas qualquer um que se depara com alguma imagem deste bicho. A questão é: quando falamos do trilobita, na verdade, estamos falando dos trilobitas. Porque, na realidade, estes animais formaram um grupo imenso com, literalmente, milhares de espécies descritas. E isso apenas a partir do registro fóssil!

O sucesso evolutivo desses animais, que percorreram os oceanos do planeta por 270 milhões de anos, se deve, justamente, à sua capacidade incrível de diversificação e adaptação. Mas por que continuar mudando se já deu certo? Bom, essa resposta ninguém sabe, mas talvez ganhar de 10 a 0 seja mais legal do que ganhar de 3 a 1. Por que parar se a vida pode ficar melhor ainda? Dito isso, em novembro de 2024, alguns pesquisadores publicaram na revista “Journal of Paleontology” mais uma espécie de trilobita obstinada a chegar no 10 a 0.

O Waukeshaaspis eatonae, como foi chamado, foi descoberto na Biota de Waukesha, uma formação fossilífera importantíssima localizada em Wisconsin, EUA. Essa região faz parte da formação geológica Brandon Bridge, datada de cerca de 430 milhões de anos, do Período Siluriano. Olhando por cima, o fóssil parece nada extraordinário. Mas, para os olhos curiosos e atentos dos pesquisadores que descreveram a espécie, algumas coisas se destacaram. A família a qual pertence a espécie é conhecida por ter dois espinhos saindo da região cefálica, apontados em direção à parte traseira do animal. Porém, a espécie descrita no artigo tinha esses espinhos particularmente longos. 

As coisas começaram a ficar interessantes quando o pigídio – a região caudal dos trilobitas – foi analisado. Na maioria dos trilobitas, o pigídio termina em uma pequena ponta de formato triangular, que era usada para manobrar, caso acabasse virando de cabeça para baixo, por exemplo. Lembre-se que os trilobitas estavam particularmente sujeitos a isso, já que andavam por vários terrenos e, ainda por cima, conseguiam se enrolar em um formato esférico. 

Um paralelo interessante a ser feito é com o caranguejo-ferradura, um parente vivo dos trilobitas e com uma forma corporal que lembra a de seus parentes extintos. Quando esse animal é virado de cabeça para baixo, ele usa uma estrutura parecida com a dos trilobitas, mas bem mais adaptada e comprida, para orientar-se novamente. O fascinante da espécie fóssil descoberta é que, contra as expectativas, o pigídio desses indivíduos não tinha a estrutura em ponta, mas sim uma pequena depressão que, certamente, não auxiliava quando esses animais precisavam manobrar. Mas para que ela servia então?

A hipótese levantada no trabalho é de que essa depressão permitia que o fluxo de água nas brânquias fosse maior quando o animal se contraía em uma “bolinha”. Assim, provavelmente, eles podiam passar mais tempo nesse estado e com muito menos estresse do que aqueles ao redor, já que sua oferta de oxigênio era mais alta. 

Mas do que adiantaria a maior oferta de oxigênio se, na primeira virada que ele desse, não conseguisse se orientar e, inevitavelmente, virasse comida de predador? Aí é que está! No que se pode chamar de uma jogada de mestre evolutiva, os espinhos longos da espécie brilharam. O que os cientistas hipotetizaram é que, para compensar a mudança de função do pigídio, os espinhos herdaram essa responsabilidade. E, pelo jeito, fizeram isso muito bem.


Legenda e fonte da imagem de capa: Fóssil descoberto pelos paleontólogos. Randolfe, E. A.; Gass K. C. (2024). Waukeshaaspis eatonae n. gen. n. sp.: a specialized dalmanitid (Trilobita) from the Telychian of southeastern Wisconsin. Journal of Paleontology, v. 98, n. 5, p. 821–829.

Disponível em: https://doi.org/10.1017/jpa.2024.32 

Texto fonte: Randolfe, E. A.; Gass K. C. (2024). Waukeshaaspis eatonae n. gen. n. sp.: a specialized dalmanitid (Trilobita) from the Telychian of southeastern Wisconsin. Journal of Paleontology, v. 98, n. 5, p. 821–829.

Disponível em: https://doi.org/10.1017/jpa.2024.32 


Texto revisado por: Milena Ramos Fonseca e Alexandre Liparini.

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