Escrito em: 08 de dezembro de 2024
Por: Sophia Januzzi Teixeira
Há mais de cinco séculos, na região de Florença na Itália, quando o pintor Leonardo da Vinci finalizava o retrato de uma jovem mulher, não poderia imaginar que a obra, anos depois, se tornaria a obra mais apreciada e reconhecida do planeta. Assim como a “Mona Lisa”, as pesquisadoras Eva-Maria Sadowski e Christa-Charlotte Hofmann trouxeram um estudo que “redescobriu” um fóssil que estava no norte da Europa há mais de 150 anos. O raro exemplar em destaque trata-se de um âmbar do Báltico que contém, em seu interior, uma flor incrivelmente grande preservada integralmente.
O âmbar do Báltico é uma resina fóssil orgânica, uma substância pegajosa que não se dissolve em água e que endurece quando exposta ao ar. Esse líquido viscoso é expelido por árvores e arbustos do grupo das coníferas, presentes nas regiões banhadas pelo Mar Báltico. Essas resinas foram soterradas em sedimentos e passam por um processo de endurecimento de milhões de anos — as condições de pressão e calor exercidas durante milhares de anos promoveram a síntese de grandes moléculas no material resinoso — até atingir as densidade e coloração características do âmbar como é conhecido hoje. É um material que tem a capacidade de preservar inclusões orgânicas em sua totalidade, ou seja, pode conter a presença de animais, plantas e outros organismos conservados de forma íntegra! Essa característica possibilitou que as pesquisadoras analisassem a morfologia e o pólen da flor. Os resultados possibilitaram atribuir a flor ao gênero Symplocos, que são angiospermas — plantas cujas sementes são protegidas por frutos — do atual Leste e Sudeste Asiático. A espécie de planta à qual a flor foi atribuída teve sua origem na Época Eoceno Superior, ou seja, apresenta, no mínimo, 34 milhões de anos. Quando o âmbar foi descoberto, por volta da década de 1880, a flor fora classificada como pertencente ao gênero Stewartia, recebendo o nome de Stewartia kowalewskii. Após a pesquisa, foi rebatizada de Symplocos kowalewskii.
Além de visualmente belo, o destaque do exemplar consiste em sua raridade singular, especialmente em relação ao seu tamanho: a inclusão possui 2,8 cm de diâmetro. Uma vez que as poucas inclusões de flores em âmbar do Báltico variam de milímetros a 1,5 cm, esta é quase duas vezes maior do que as anteriormente encontradas. Adicionalmente, de acordo com o artigo produzido pelas pesquisadoras, inclusões botânicas em âmbares do Báltico e do Período Eoceno Superior são extremamente raras por si só, representando apenas 1% a 3% da totalidade de inclusões encontradas nessa resina em particular. Por fim, assim como a “Mona Lisa” e sua grandiosa reputação no mundo das artes, Symplocos kowaleswskii destaca-se como a maior inclusão floral conhecida, contribuindo significativamente para um novo capítulo na história da botânica.
Texto fonte: Sadowski, E.; Hofmann, C. (2023). The largest amber-preserved flower revisited. Scientific Reports, v.13. Doi: 10.1038/s41598-022-24549-z.
Disponível em: https://doi.org/10.1017/ S0016756825100484.
Fonte e legenda da imagem de capa: Fotografia retirada do artigo original, expondo a inclusão da espécime Symplocos kowalewskii em um âmbar do Báltico da Época Eoceno Superior.
Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-022-24549-z/figures/1.
Texto revisado por: Manuela dos Santos Rojas, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.