Conflitos Ambientais, Sítios Paleontológicos, Ecologia Política, paleontologia mineira

Escrito em: 26 de março de 2024

Por: Vinícius Santos

O estudo de Camila Neves Silva e Angélica Cosenza destaca a compreensão dos conflitos ambientais presentes nos sítios paleontológicos de Minas Gerais, partindo das vulnerabilidades inerentes a esses locais para estabelecer conexões cruciais. Discute-se a crise ambiental como uma crise ecológica e civilizatória, questões como a exclusão das comunidades locais, danos ambientais causados pelo fluxo de visitantes e a perda do sentimento de pertencimento por parte dos habitantes. 

Sítios paleontológicos em MG: características e vulnerabilidades 

Um sítio paleontológico é uma localidade onde ocorrem fósseis e que requer ações de preservação, geralmente pelo poder público. Entretanto, o fato de uma região ser reconhecida como um sítio não garante automaticamente sua proteção. Essa proteção só ocorre por meio de leis específicas. Para os geoparques, o reconhecimento é concedido pela UNESCO.

Em Minas Gerais, há uma grande diversidade de sítios paleontológicos, destacando-se pela sua grande visibilidade no cenário científico e turístico. O estado apresenta uma quantidade significativa desses sítios, com 4 dos 42 reconhecidos e tombados pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (SIGEP). O levantamento sobre a ocorrência de fósseis em MG revelou quatro sítios paleontológicos, além de um sítio paleoambiental, sedimentar e estratigráfico, como também, um sítio espeleológico de importância paleontológica.

Os dados levantados revelam questões comuns entre esses sítios, como a descaracterização das tradições locais após a abertura ao turismo, além de deficiências na infraestrutura para a comunidade local, disputas entre mineradoras, moradores locais e unidades de conservação. Além disso, questões relacionadas ao desemprego, êxodo de jovens, contaminação de água e solo, e moradia em áreas de risco são recorrentes nessas regiões.

Na Bacia do Gandarela, localizada em Rio Acima, ocorrem conflitos devido aos interesses de uso do ambiente entre mineração, sociedade e as unidades de conservação (UCs). Na região encontram-se fósseis de vegetais e estromatólitos com idades entre 53 a 23 milhões de anos (Ma). 

Em Peirópolis, Uberaba, estão  presentes dinossauros, crocodilomorfos, peixes e invertebrados com idades entre 90 e 70 Ma. O local passou por disputas judiciais entre mineração, população e cientistas, resultando na ausência de mineradoras em atividade atualmente. No entanto, enfrenta desafios relacionados à infraestrutura urbana, saneamento, segurança e saúde, além de mudanças culturais em direção ao turismo paleontológico.

O sítio espeleológico da APA Carste de Lagoa Santa enfrenta problemas similares aos mencionados anteriormente. Essa região é conhecida pela abundância de fósseis, incluindo mamíferos da megafauna brasileira e fósseis humanos como a Luzia. Em Lagoa Santa, há conflitos envolvendo a UC e as comunidades locais, cujo acesso livre foi proibido, além de disputas decorrentes da ocupação desordenada do solo, levando à destruição de locais arqueológicos e paleontológicos.

Considerações finais

As comunidades que habitam sítios paleontológicos ocupam territórios influenciados por diversos elementos, tornando-os espaços não neutros. A defesa desses lugares como questões sociais, políticas e ecológicas está ligada à luta pelo direito de existir, envolvendo conflitos ambientais contra a modernização ecológica imposta pelo capitalismo. Esses conflitos refletem situações de injustiça ambiental e impulsionam a defesa do lugar. É crucial promover uma maior participação popular na proteção das riquezas naturais. Sendo fundamental repensar a Paleontologia mediante questionamentos que incentivem ações coletivas nos sítios, reconhecendo-os como mais do que apenas locais para admirar e pesquisar fósseis.

Texto fonte: SILVA, Camila Neves; COSENZA, Angélica. (2021). Paleontologia e Justiça Ambiental: tecendo conexões através da Ecologia Política. Ambiente & Sociedade, v. 24, p. e00892.

Disponível em: https://www.scielo.br/j/asoc/a/TySCNqtr9RzLRW3ftJCnV4K/?format=pdf&lang=pt.

Fonte e legenda da imagem de capa: Sítios de importância paleontológica de Minas Gerais em proximidade a áreas de mineração e unidades de conservação.

Disponível em: https://www.scielo.br/j/asoc/a/TySCNqtr9RzLRW3ftJCnV4K/?format=pdf&lang=pt. Figura 1 do artigo.


Texto revisado por: Damiane Mello Andrade e Cruz e Alexandre Liparini.

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