Escrito em: 24 de março de 2024
Por: Ananda Laet
A hipoplasia do esmalte (HE) é uma anomalia dental que diz respeito à formação incompleta ou defeituosa do esmalte dentário. Os registros de HE em fósseis são ideais para indicar alterações na fisiologia de um animal durante o desenvolvimento do dente, pela facilidade das análises e reconstruções dentárias, sendo excelentes evidências utilizadas por paleontólogos para reconstruir o passado. A HE carrega os danos dentários, sejam fisiológicos, deficiências de minerais, nascimentos prematuros ou doenças, o que tem grande ocorrência em mamíferos já extintos! Dessa forma, ao analisar o esmalte dentário de mamíferos, os paleontólogos analisaram as possibilidades de evolução ou extinção desses animais em determinados ambientes.
Os cientistas avaliaram 52 dentes de 35 animais das espécies Deinotherium pentatomidae e D. indicum, grandes mamíferos herbívoros, em que, a partir dos estudos da HE e comparações com a família Proboscidea do mesmo local, foi possível analisar o ambiente do Mioceno Médio do Siwalik, no Paquistão, e suas mudanças ambientais.
Ambas as espécies viviam em habitats parecidos e mantinham uma dieta semelhante, se alimentando de vegetação macia com dentes apropriados para pastagem, porém, ao longo de sua existência, a ocorrência de HE aumentou entre as espécies, em 13 de 52 dentes avaliados no estudo, cerca de 25%, evidenciaram hipoplasia do esmalte, sendo mais frequentes em molares (30,30%) em relação aos pré-molares (21,05%) indicando que o estresse sofrido por esses animais ocorreu na fase adulta possivelmente em decorrência das mudanças ambientais e competição.
Os fósseis analisados neste estudo foram descobertos do Mioceno Médio (aprox. 15-12 Ma) do Paquistão, pela análise isotópica de carbono e oxigênio dos ossos dos mamíferos, junto da análise de HE, foi possível concluir que houve uma grande mudança no habitat desses animais: as florestas úmidas foram substituídas por savanas e ainda mais tarde no fim do Mioceno médio, houve um grande aumento da aridez no ambiente. Essa mudança ocorreu pela diminuição no habitat dos animais, o que causou uma grande alteração na vegetação e por consequência alterando a sua dieta, aumentando os níveis de estresse sofridos, evidenciados pelo aumento da HE em seus dentes. Assim, com o encolhimento do habitat, os Deinotherium diminuíram a sua diversidade ao longo do Mioceno. Os animais da espécie Deinotherium indicum, que eram relativamente maiores em relação a D. pentapotamiae, ainda conseguiram migrar para outros ambientes, alguns dos seus fósseis foram encontrados na Índia! Portanto, com a grande mudança ambiental que alterou os padrões vegetacionais evidenciados na hipoplasia do esmalte dentário da família, os Deinotherium foram extintos do Siwalik do Paquistão.
Texto fonte: AMEEN, Muhammad et al. (2021). Appraisal of dental enamel hypoplasia in the Middle Miocene deinotheriidae: Implications of the Siwalik paleoenvironment of Pakistan. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 24, n. 4, p. 357-368. Doi:10.4072/rbp.2021.4.06.
Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/80/93.
Acesso em: 24 de fevereiro de 2026.
Fonte e legenda da imagem de capa: Desenho de um Deinotherium, por Heinrich Harder.
Disponível em: https://es.wikipedia.org/wiki/Deinotherium#/media/Archivo:Deinotherium.jpg.
Texto revisado por: Ruan Honorato Marzano Cintra, Alexandre Liparini, Damiane Mello Andrade e Cruz, Sandro Ferreira