Mecanismos de fertilização? Cocólitos podem ser a solução!

30 de junho de 2022

Por: Vitor Santos

A produtividade primária é um termo da ecologia que define a transformação da energia presente no meio em compostos orgânicos, por meio da atividade dos organismos autotróficos. Também é sabido que, durante um determinado período de tempo, é natural que a quantificação dessa produtividade varie, pois depende da energia e fertilidade do ambiente, os quais, por sua vez, estão ligados a diversos fatores. Sendo assim, para elucidá-los, por que não utilizar organismos cuja presença e quantidade estariam intrinsecamente correlacionados a esses fatores?

No trabalho de Juliana de Freitas Gonçalves e Adriana Leonhardt, foram utilizados cocolitoforídeos (ou cocólitos) – algas unicelulares microscópicas – para descobrir os mecanismos de fertilização das águas do cabo de Santa Marta, no sul da margem continental brasileira. No local, foi coletada uma amostra de solo de 365 centímetros (testemunho SIS188), a qual foi segmentada em tamanhos menores que foram submetidos individualmente aos testes. Dentre as amostras, há desde espécies que são consideradas oportunistas – isto é, que proliferam em áreas com nutriente e luminosidade abundantes – a espécies como a Florisphaera profunda, que está localizada em zonas de menor incidência luminosa e foi utilizada neste trabalho para monitorar a dinâmica da camada de maior concentração dos nutrientes.

Nesse sentido, por meio de datação a partir de isótopos de oxigênio contido nas testas (estruturas de revestimento dos cocólitos), foi definido que o testemunho compreende de 7.200 a 47.700 anos. Além disso, a partir da datação, foi possibilitado o estabelecimento de três estágios isotópicos marinhos (EIM) distintos para o período da datação. Também foram realizados testes com objetivo de quantificar o conteúdo de Carbonato de Cálcio (CaCO3) e o carbono orgânico total nos sedimentos, que são indicadores diretos da produção primária.

Dessa forma, durante os três EIMs descritos, foi o EIM1 que apresentou maior produção e maior taxa de sedimentação. Esse resultado está ligado ao Último Máximo Glacial e ao Heinrich Stadial 1, ocorridos no fim do EIM2. Neste cenário, massas de gelo se desprendem das geleiras e atravessam oceano atlântico norte, tendo efeitos secundários como perturbações na dinâmica atmosférica, redistribuição de fósforo e aumentando do aporte de poeira para os oceanos. Em adição a isto, outro fator importante é a insolação, capaz de influenciar a dinâmica atmosférica e também a ressurgência oceânica, que foi atenuada no período, corroborando a maior produção apresentada no período.

Artigo fonte: Gonçalves, J. de F.; Leonhardt, A. (2022). Mecanismos de fertilização inferidos através do registro de cocolitoforídeos durante o Quaternário Tardio na Margem Continental Sul-Brasileira. Revista Brasileira De Paleontologia, v. 25, n. 1, p. 76-89. Doi:10.4072/rbp.2022.1.06. Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/228. Acessado em: 14/12/2022

Fonte e legenda da imagem de capa: Cocolitoforídeos envoltos em sua testa composta por estruturas de carbonato de cálcio (CaCO3). Autoria de Robin Mejia, cortesia de Dr. Alison Taylor. Extraída de commons.wikimedia.org. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Coccolithophores.png. Acessada em: 14/12/2022.

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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