O embrião de 120 milhões de anos*

01 de julho de 2022

Por: Aryel Paz

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Um fóssil encontrado em 2015, no Piauí, na Formação Romualdo da Bacia do Araripe, foi identificado como um ovo do grupo Crocodylomorpha do período Cretáceo Inferior. Nele foi possível identificar a estrutura de um embrião mineralizado!

Há milhões de anos, o surgimento do ovo amniótico foi um acontecimento ímpar na história evolutiva. Esse tipo de ovo protege o embrião do ressecamento fora da água, e foi, portanto, um dos fatores determinantes para a conquista do ambiente terrestre pelos animais. Por esse motivo, caracterizar e identificar fósseis como o fóssil encontrado no Piauí é indispensável para que possamos contar a história da vida.

Esse ovo é datado do Aptiano (entre 113 e 125 milhões de anos atrás) e pertence ao grupo Crocodylomorpha, que inclui os crocodilos que conhecemos hoje e seus parentes extintos. Além de ter sobrevivido a milhões de anos (o que já é um feito grandioso) ele pode ainda conter um embrião fossilizado, o que é bastante raro. Isso porque ovos são frágeis e é muito difícil que passem intactos pelo processo de fossilização. Na verdade, no caso desse fóssil da Formação Romualdo, isso foi possível porque o embrião encontra-se mineralizado. Isso quer dizer que, apesar de manter sua forma original, a composição química dos tecidos foi transformada, tornando-se mais resistente e durável.

Felizmente, apesar de o material ter sido modificado, ainda é possível extrair informações sobre esse fóssil incomum, como o grupo a que pertence. Para isso, o ovo foi comparado a ovos de espécies de animais recentes e passou por uma série de análises incluindo uma tomografia computadorizada, que possibilitou a identificação de estruturas anatômicas de um embrião. Comparando esses dados com embriões e ovos de animais que conhecemos hoje, é bastante seguro afirmar que se trata de uma espécie de Crocodylomorpha, o que pode tornar esse fóssil o primeiro ovo com resquícios embrionários encontrado desse grupo.

Artigo fonte: Abreu, D.; Viana, M. S. S.; Oliveira, P. V. de; Viana, G. F.; Nojosa, D. M. B. (2020). First record of an amniotic egg from the Romualdo Formation (Lower Cretaceous, Araripe Basin, Brazil). Revista Brasileira de Paleontologia, v.2 3, n. 3, p. 185–193. Doi: 10.4072/rbp.2020.3.03. Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/166. Acessado em: 29/11/2022

Fonte e legenda da imagem de capa: Ovo fóssil de Crocodylomorpha extinto envolto por sedimento calcário (concreção calcária). Barra de escala = 20 mm. Modificada do artigo fonte.

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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