Passo a passo de como trazer espécies extintas de volta a vida*

23 de novembro de 2021

Por: Douglas Henrique

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Já pensou na possibilidade de um “Jurassic Park” atualmente? Os avanços tecnológicos de sequenciamento de DNA tornou essa uma discussão calorosa na comunidade científica.

Figura 1 — Extinto há milénios, o Mamute (Mammuthus primigenius) é uma das opções à desextinção.

A ideia de ‘ressuscitar’ animais extintos divide opiniões entre a comunidade científica. Enquanto alguns pesquisadores acreditam que trazer espécies extintas de volta será benéfico tanto para a ciência quanto para a manutenção e recuperação do ecossistema, outros cientistas, ao mesmo tempo que temem o desequilíbrio ecológico ao trazer espécies pré-históricas de volta, afirmam que não existem informações genéticas suficientes para tal feito, sendo a hibridização com descendentes vivos a única forma de tornar real a desextinção de espécies — embora nesse caso ‘desextinção’ não seria o termo correto a ser utilizado.

Figura 2 — Tigre-dentes-de-sabre, um dos mais famosos predadores pré-histórico

Longa é a lista de animais extintos tanto por causas naturais quanto por interferência humana. O Mamute (Mammuthus primigenius), o tigre-dentes-de-sabre (Smilodon fatalis) e o tigre-da-tasmânia (Thylacinus cynocephalus) são alguns animais candidatos na lista de desextinção de espécies.

Com o avanço da tecnologia em biologia molecular e sequenciamento genético, o termo desextinção de espécies é bastante discutido entre a comunidade científica. Embora o sequenciamento genético de espécies antigas já venha sendo explorado há anos, a possibilidade de trazer esses animais de volta a vida não é fácil e exige um passo a passo para que, quem sabe um dia, a desextinçao de espécies se torne uma realidade.

Figura 3 — De volta para o presente, Revista VEJA.

Segundo cientistas, o primeiro passo é o animal a ser trazido de volta ter, necessariamente, um parente vivo, com característica genética e fisiologia reprodutiva semelhantes. Com isso, o Mamute é um dos principais candidatos a desextinção de espécies, uma vez que são o antepassado próximo dos elefantes asiáticos. Em paralelo, para LOI (2011) um método interessante para ressuscitar o mamute seria tentar recuperar os espermatozoides do testículo de machos da espécie, pois o genoma dos espermatozoides é uma longa sequência de DNA transcricionalmente inativo, e a decodificação do material genético é um passo importante quando se trata de trazer espécies de volta a vida. Entretanto, para esse processo os cientistas teriam que contar com a sorte de encontrar uma espécie bem preservada e que o espermatozoide não estivesse danificado.

Não se tratando apenas dos espermatozoides, mas com a dificuldade em encontrar materiais genéticos de animais extintos bem preservados, o mais viável seria coletar códigos de um ser vivo geneticamente parecido com o animal que se pretende ressuscitar, recortar alguns genes e inserir no lugar os genes do animal a ser recriado (BRITO 2021). Nessa perspectiva, embora a utilização de cromossomos de origem materna como os oócitos (gâmeta feminino – óvulo) seria uma ótima opção para ressuscitar animais extintos, por enquanto, teremos que nos contentar com o uso de células somáticas diploides como a única opção disponível. Nesse caso, ocorreria a clonagem, uma vez que as células somáticas seriam programadas para uma condição de totipotência e potencialmente capazes de produzir descendentes após a transferência do embrião clonado em uma mãe adotiva adequada (LOI, 2011).

Para finalizar o processo, os embriões híbridos teriam que ser transferidos para uma fêmea de espécie semelhante ao animal que se quer recriar e, embora a incompatibilidade imunológica entre o embrião e o útero da mãe elefante não seja esperado, a possibilidade não é descartada. Caso isso ocorra, uma outra opção poderia ser a inserção de células de massa celular interna do embrião em vesículas de trofoblasto de mães de espécies parentes isoladas (LOI, 2011).

Figura 4 — Cientistas recebem US$ 15 milhões para ressuscitar mamute extinto

Apesar de a ideia de um ‘Jurassic Park’ nos dias atuais pareça irreal, a empresa americana Colossal recebeu um aporte de US$ 15 milhões (cerca de 83 milhões de reais na cotação atual) para recriar — criar um híbrido por meio da engenharia genética — o mamute, um animal extinto há milênios. Entretanto, várias são as dificuldades e críticas na comunidade científica a respeito da desextinção, clonagem e hibridização de espécies.

Afinal, a desextinção de espécies pré-históricas realmente seria para reestabelecer o ecossistema e combater a crise climática — como alguns estudos apontam — ou esses animais serviriam como um espetáculo para os seres humanos realmente fazendo jus ao nome “Jurassic park”?

Referências utilizadas:

LOI, Pasqualino. at al. 2011, Biological time machines: a realistic approach for cloning an extinct mammal. ENDANGERED SPECIES RESEARCH, Vol. 14: 227–233, doi: 10.3354/esr00366.

BRITO, Sabrina, 2021. O DNA de mamutes com 1 milhão de anos aguça a clonagem de animais extintos. VEJA. Disponível em > https://veja.abril.com.br/ciencia/o-dna-de-mamutes-com-1-milhao-de-anos-aguca-a-clonagem-de-animais-extintos/ <. Acesso em: 22 de novembro de 2021.

Cientistas recebem US$ 15 milhões para ressuscitar mamute extinto há 4 mil anos. CNN, Disponível em > https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/mamutes-e-grandes-animais-da-era-do-gelo-viveram-por-mais-tempo-do-que-se-pensava/ <. Acesso em: 22 de novembro de 2021.

Cientistas recebem quase R$ 80 milhões para ‘ressuscitar mamutes. EXAME, Disponível em > https://exame.com/pop/cientistas-recebem-quase-r-80-milhoes-para-ressuscitar-mamutes/ <. Acesso em: 22 de novembro de 2021.

Será possível reviver animais extintos?. NATIONAL GEOGRAPHIC, Disponível em > https://www.nationalgeographicbrasil.com/ciencia/2021/04/posso-explicar-reviver-especies-extintas-dna-germoplasma <. Acesso em: 23 de novembro de 2021.

Fonte e legenda da imagem de capa: Extinto há milênios, o Mamute (Mammuthus primigenius) é uma das opções à desextinção. Imagem extraída do site brasilescola.com <link>.

Fonte das imagens no corpo do texto:

Figura 1: https://s5.static.brasilescola.uol.com.br/be/2021/09/mamutes.jpg

Figura 2: https://t5z6q4c2.rocketcdn.me/wp-content/uploads/2020/10/tigre-dente-de-sabre-quando-viveram-quais-suas-caracteristicas-960×576.jpg.webp

Figura 3: https://veja.abril.com.br/wp-content/uploads/2021/02/arte-mamute-iPhone.jpg

Figura 4: https://s2.glbimg.com/TEfqi1-40IvUO40mHnvblk3XHYQ=/e.glbimg.com/og/ed/f/original/2021/08/13/mammoth_painting_havens-768×649.jpg

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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