E QUANDO SERÁ A ABERTURA DO NOVO JURASSIC PARK? Quais as possibilidades de um parque dos dinossauros fora da sua telinha?

Escrito em: 04 de Abril de 2023

Por: Hans Muller Silva Campos

Um dos grupos de animais que geram grande temor e admiração do ser humano são os dinossauros. Michael Crichton em seu livro Jurassic Park e Spielberg no filme homônimo, que deu início a uma franquia de sucesso, trouxeram uma trama com esses gigantes extintos que fascinam o público de todas as idades até os dias atuais, ainda mais com a revitalização do assunto com a nova trilogia do Jurassic World.

Naturalmente, com os avanços da ciência moderna e os processos genéticos cada vez mais sofisticados, muitas pessoas se questionam: “é possível clonar ou criar um dinossauro com a nossa tecnologia atual?”. Para os entusiasmados que sonham ter um velociraptor em casa, devo avisar que a resposta é não. Embora Hollywood explore bem essa temática e nos mostre um ambiente tecnológico e estruturado possível para tal feito, de acordo com o artigo Jurassic World: quão impossível é? de Geraint Parry, esse processo infelizmente está longe da realidade fora das telas de cinema.

O processo de clonagem está fora de cogitação, visto que, independentemente da fonte de DNA de dinossauro; seja de ossos fossilizados ou de um mosquito preso em âmbar, são nulas as chances de encontrar material genético intacto, tornando a ideia da criação de novos dinossauros a partir de DNA preservado coisa da “Sessão da tarde” do que de fato possível.

Um ponto importante que o artigo aponta, é a diferença na escala temporal, algo que os humanos não são muito bons em entender. Os mamutes, por exemplo, viveram entre 5 milhões e 5.000 anos atrás, e obtivemos amostras de DNA com cerca de 10.000 anos. Já os dinossauros andavam pela terra cerca de 100 milhões de anos atrás, conferindo assim uma idade superior de 20 vezes a mais do DNA desses répteis que o DNA do mamute mais moderadamente útil.

Um grupo de pesquisadores Kiwi demonstrou que o tempo de vida de uma molécula de DNA é de aproximadamente 521 anos. Isso significa que o DNA em qualquer amostra desapareceria em 6,8 milhões de anos. Umas das tentativas mais famosas nessa corrida de conseguir seu Estegossauro de estimação, foi feita pela equipe de Jack Horner. Eles conseguiram isolar componentes sanguíneos do dinossauro, mas, infelizmente, nenhum DNA.

Esses processos são bons para o envolvimento do público, mas, além de caros, oferecem uma chance limitada de isolar o ácido “dinonucléico”. Atualmente diversas pesquisas têm voltado sua atenção para a possibilidade de criarem híbridos de dinossauros e aves. Esses estudos visam a possibilidade de criarem aves, cujas características se assemelhariam a desses seres colossais, uma vez que elas seriam o melhor ‘andaime’ genético para adicionar o DNA dos dinossauros.

Evidências recentes sugerem que não seriam sapos, como Michael Crichton sugeriu, mas sim as aves os melhores candidatos para tal processo. Entretanto, entender as diferenças entre dinossauros e aves é muito complicado, pois não é apenas a sequência genética que determina as mudanças, mas onde e quando os genes são expressos, e isso é controlado por todas as outras partes do genoma. Tanto a área expressiva quanto as áreas silenciosas.

Além disso, ainda temos a falta de compreensão de por que diferentes organismos respondem às modificações genéticas de maneiras tão variadas. Assim, vemos que o contato mais próximo com essas amadas criaturas gigantes e mortais ainda só é possível através de livros, séries, filmes e jogos, o que não é ruim. Uma vez que essas experiências têm se tornado cada vez mais realistas e no final do dia você não precisará explicar a sua família e/ou amigos como você perdeu um braço ao passar distraído pela cela dos velociraptors.

Texto fonte: PARRY ;Geraint. Jurassic World: just how impossible is it?; Acesso em: 04 de abril de 2023.

Disponível em: Disponível em: < https://portlandpress.com/biochemist/article/37/6/18/1429/ Jurassic-World-just-how-impossible-is-it >.


Fonte e legenda da imagem de capa: Representação de um T-rex e seu código genético. Disponível em: Disponível em: < https://portlandpress.com/biochemist/article/37/6/18/1429/ Jurassic-World-just-how-impossible-is-it >.


Texto revisado por: Cíntia Silva e Alexandre Liparini.

Espermatozoide mais antigo do mundo

Escrito em: 15 de Abril de 2023

Por: Bruna Macedo Lima

Você sabia que é possível preservar a estrutura de um espermatozóide em um fóssil? Apesar de tecidos moles em geral terem uma rara atividade de fossilização, devido as diferenças de composição e potencial de preservação delicado, conseguimos encontrar amostras em ambientes favoráveis, a partir de circunstâncias ideais de conservação.

Um estudo publicado em 2020 pela revista “The Royal Society” aponta a descoberta de células reprodutivas masculinas do período Cretáceo, datando aproximadamente 100 milhões de anos. Além da qualidade de preservação, o tamanho do exemplar também chamou a atenção, visto que, em comparação com outras espécies, seria considerado gigante, excedendo a dimensão do organismo. A descoberta veio por meio de fósseis da fêmea de ostracodes, um crustáceo (como camarões e lagostas) e estavam em forma de resina, o conhecido âmbar, destacando sua capacidade em documentar os tecidos não resistentes. Para isso, foram utilizados métodos de microscopia tridimensional de raios-X, para reconstruir as imagens digitalmente e analisar os detalhes.

O espermatozoide gigante e a morfologia preservada do organismo, comparadas com espécimes viventes atuais, foram importantes para identificar que esse método reprodutivo já existia no período do cretáceo. Além disso, a descoberta aponta uma estratégia que melhora o sucesso de fecundação, uma vez que contribuiu para a expansão dos ostracodes ao longo do tempo. Assim, essa característica evolutiva é bem sucedida há milhares de anos.

Texto fonte: Wang, H., Matzke-Karasz, R., Horne, D. J., Zhao, X., Cao, M., Zhang, H., & Wang, B. (2020). Exceptional preservation of reproductive organs and giant sperm in Cretaceous ostracods. Proceedings of the Royal Society B, 287(1935), 20201661. Acesso em: 15, abr, 2023.
Disponível em: https://royalsocietypublishing.org/doi/full/10.1098/rspb.2020.1661

Fonte e legenda da imagem de capa: Estruturas corporais do ostracode fóssil em comparação com espécies viventes. (lado esquerdo) Massa de espermatozoide encontrado (direita). Figura 4 do artigo.

Texto revisado por: Beatriz Fonseca e Alexandre Liparini.

Um Passo a mais na Descoberta do Elo Perdido das Aves  

Escrito em: 11 de abril de 2023

Por: Matheus H. M. Vilhena

Há cerca de 150 anos foi encontrado um dos fósseis mais importantes e estudados, pertencente a um póstumo Archaeopteryx lithographica do período Jurássico. Com estudos baseados neste fóssil descobriram ligações entre os dinossauros terópodes (grupo ao qual esse espécime pertence), e as aves modernas. Estas ligações consistem em características como a presença de penas e o pescoço em forma de S, dessa forma em um lugar não tão esperado, um antepassado das aves que as ligavam aos dinossauros foi descoberto. 

Entretanto, desde a descoberta deste fóssil, inúmeros fatores e estudos contribuíram para colocar uma sombra de dúvida a respeito desta outrora tão aceita ancestralidade. Seria então o Archaeopteryx um ancestral das aves modernas ou somente um animal semelhante às aves? Em seu trabalho, Martin Kundrát e colaboradores indicam que o baixo número de fósseis descobertos de Archaeopteryx dificultam sua classificação. Será que com tão poucos exemplares poderíamos confirmar se todos os indivíduos pertencem a uma mesma espécie ou se compreendem espécies diferentes? Podemos afirmar que estes fósseis representam indivíduos jovens, ou também indivíduos adultos? 

Neste trabalho os pesquisadores analisaram o fóssil mais jovem de um Archaeopteryx da região da Bavária, na Alemanha, buscando responder se ele é realmente uma ave primitiva. Através de técnicas modernas com nomes chiques, como microtomografia síncrotron de alta resolução, os pesquisadores conseguiram fazer uma dissecação virtual do fóssil, para analisar perfeitamente e sem danos diversas partes do Archaeopteryx

Mas qual a conclusão que as análises levaram? O fóssil foi determinado com características diferentes suficientes para ser classificado como uma espécie única, denominada Archaeopteryx albersdoerferi sp. mais jovem que a anteriormente mencionada Archaeopteryx lithographica, e com a presença de características mais relacionadas a aves voadoras do que aquelas presentes no parente mencionado. Também pôde ser unanimemente classificado como um Avialae basal (Avialae é um clado que une as aves e os dinossauros mais próximos), assim como realmente um Archaeopterygidae é, sendo coerente com o nome Archaeopteryx

Então com todas estas informações, as teorias da ancestralidade das aves vêm cada vez mais consolidando a árvore de evolução das aves, e os elos perdidos, que a tanto tempo vem sendo buscados acabam por se tornar elos encontrados. 

Texto fonte: Martin Kundrát, John Nudds, Benjamin P. Kear, Junchang Lü & Per Ahlberg. (2018). The first specimen of Archaeopteryx from the Upper Jurassic Mörnsheim Formation of Germany. Historical Biology, v. 31, n. 1, p. 3-63. Doi: https://doi.org/10.1080/08912963.2018.1518443.

Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/08912963.2018.1518443 Acessado em: 10/04/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa:Representação hipotética de como seria um Archaeopteryx em vida.

Disponível em: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcR3Iu9RfS1XzdAL7onmH-eP4SnGd5NskKMPCw&usqp=CAU, acessado em: 11/04/2023.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Que Histórias Nos Contam os Dinossauros do Ártico?

Escrito em: 7 de abril de 2023

Por: Vicenzo Blaso

Apesar de popularmente serem imaginados como grandes lagartos de sangue frio, os dinossauros pré-históricos que conhecemos na verdade eram animais de sangue quente, homeotérmicos, ou seja, eram capazes de regular a temperatura do próprio corpo. Sabe-se atualmente que alguns dinossauros possuíam penas semelhantes as das aves atuais, que os auxiliavam a manter a temperatura do corpo constante, por evitarem a perda de calor para o meio externo. Esses fatos podem ser essenciais para entender a dispersão e o domínio que esses seres exerceram no Planeta Terra antes de estarmos aqui.

Em um artigo publicado na revista Science em 2022, os cientistas Paul Olsen, Vivi Vajda e seus colaboradores revelaram uma descoberta intrigante. O grupo de pesquisa identificou fósseis de pegadas de dinossauros na região da Bacia de Junggar, na China, que no final do triássico estaria em latitudes polares setentrionais comparáveis ao ártico atual. A descoberta é muito importante pois fornece evidências de que os dinossauros, animais geralmente associados com ambientes tropicais e quentes, eram capazes de viver em climas mais frios. Mas como isso seria possível?

Inicialmente, uma das respostas que o artigo nos traz é que os dinossauros eram animais capazes de se manter protegidos das baixas temperaturas, pela homeotermia e pelo isolamento térmico promovido pelas penas, mesmo que rudimentares se comparadas com as das aves. Muitas penas encontradas em fósseis de dinossauros se parecem com filamentos, mas já cumpriam a função de manter seus corpos aquecidos.

Além disso, o clima nos polos do planeta não era tão rigoroso quanto é hoje. Isso mesmo! O Ártico, entre o final do período Triássico e início do Jurássico (cerca de 200 milhões de anos atrás) possuía um clima temperado, próximo do que se observa na Europa Central atualmente. Com invernos frios, é claro, mas não há evidências da formação de geleiras como as que vemos hoje naquela época. Isso permitiria que plantas se estabelecessem ali, criando um ambiente favorável para a sobrevivência de dinossauros herbívoros. Existindo herbívoros, certamente haveria carnívoros para se alimentarem deles, não é mesmo?

Desse modo, o artigo propõe uma forte presença de dinossauros nas regiões polares do planeta há cerca de 200 milhões de anos atrás, o que pode explicar a ascensão desse grupo de seres que, até esse momento, ainda não dominavam a Terra. Segundo os pesquisadores, essa ocupação das áreas mais geladas seria muito benéfica para os dinossauros pois, durante esse período da história do planeta, ocorreram diversas erupções vulcânicas, principalmente nas regiões mais próximas à linha do Equador. Elas foram responsáveis por extinguir diversos animais que competiam fortemente com os dinossauros por recursos e habitat, os fitossauros e os pseudosuchias.

A extinção de competidores foi um dos fatores que permitiu que os dinossauros daquela época pudessem expandir sua distribuição por todo o planeta, tornando-se extremamente dominantes até a extinção que marcou o fim de seu reinado, há cerca de 66 milhões de anos atrás. Toda essa narrativa é construída com base em evidências e pesquisas científicas, com avanços graduais como os elucidados no artigo. Os dinossauros do Ártico nos contam e ainda podem nos contar grandes histórias!

Texto fonte: Olsen, P.; Sha, J.; Fang, Y.; Chang, C.; Whiteside, J. H.; Kinney, S.; Sues, H.S.; Kent, D.; Schaller, M.; Vajda, V. (2022). Arctic Ice and the Ecological Rise of the Dinosaurs. ScienceAdvances, v. 8, n. 26.

Doi: 10.1126/sciadv.abo6342

Disponível em: https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.abo6342 acessado em: 03/04/2022

Fonte e legenda da imagem de capa: Distribuição de fósseis de dinossauros com idade de cerca de 202 milhões de anos, com destaque para a Bacia de Junggar.


Texto revisado por: André Pimenta e Alexandre Liparini

Megafauna para além de mamíferos: conheça a rã-gigante do Eoceno!

Escrito em: 21 de abril de 2023

Por: Laura Romanelli

Que estamos cercados de animais gigantes você já sabe, afinal, dividimos o mesmo planeta com elefantes, girafas, baleias etc . Entretanto, você já parou para pensar no maior sapo (Anura) do mundo?

Em Janeiro de 2008, um grupo de cientistas liderados pelo Dr. Rodrigo Otera encontrou um fragmento de osso pertencente a anfíbios que habitaram a Terra no Eoceno, época geológica que ocorreu há cerca de 40 milhões de anos atrás. O achado por si só já é bem importante, já que são poucos os registros desse grupo de animais neste período, mas o seu tamanho logo chamou a atenção dos pesquisadores. 

O fragmento em questão se trata de um osso do braço conhecido como úmero, hipótese que só foi possível de ser elaborada porque estes animais apresentam morfologia desse osso bem conservada com seus antecessores e sucessores. Dessa forma, os cientistas compararam todas as características do úmero encontrado com outros úmeros fósseis mais recentes. Além disso, a análise comparativa se estendeu para animais vivos nos dias de hoje, já que a macro-região em que ele foi encontrado é habitada por uma espécie muito especial conhecida como rã-capacete (Calyptocephalella gayi).

A rã-capacete é endêmica da região temperada centro-sul do Chile, além de ser a única espécie viva desse gênero no mundo. Por isso, ela é considerada uma relíquia de uma linhagem com várias espécies extintas que temos registros a partir do Cretáceo (135 milhões de anos atrás). Os resultados das análises de comparação apontaram que o úmero fóssil partilhava diversas características em comum com o úmero da Calyptocephalella gayi, e com o úmero de linhagens intermediárias que separam esses dois animais. Além disso, ele se diferenciava do úmero de outras duas famílias de anuros comuns na região: Leptodactylidae e Pipidae. Com essas informações, os pesquisadores perceberam que o fóssil em questão tem muito potencial para pertencer ao gênero Calyptocephalella.

E não para por aí, por meio de cálculos matemáticos, que nos permite simular o plano corporal de animais extintos a partir dos seus fragmentos, os cientistas chegaram à hipótese que o úmero encontrado teria em média 12,5cm. O que permitiria esse animal alcançar quase 60 cm de comprimento!

Para se ter uma ideia de comparação, a rã-capacete atual alcança apenas metade desse tamanho. Já a rã-golias (Conraua goliath), considerada um dos maiores anfíbios do mundo, chega até 40 cm, e pode pesar cerca de 3 kg. Esses números colocam essa espécie ancestral ao lado de Beelzebufo ampinga (sapo-de-chifre-gigante), um outro anfíbio pré-histórico que ocorreu nas proximidades da Ilha de Madagascar, conhecido por ser capaz de se alimentar de filhotes de dinossauros!

Além de análises taxonômicas e estatísticas sobre formas e números, a evidência de um animal sensível ao meio ambiente, no extremo sul-chileno, nos ajuda a desenhar vagamente o passado climático desta região. O fóssil foi encontrado no mesmo estrato geológico que outros restos de animais marinhos, como dentes do extinto tubarão-tigre (Striatolamia macrota) e fragmentos de um pinguim gigante do gênero Palaaeudyptesn (táxon extinto que alcançaria até 1,5 m de comprimento). O que revela um ambiente costeiro próximo a Bacia de Magalhães, que hoje é parcialmente coberto por gelo, ameno o suficiente para habitar anuros gigantes.

Por isso, o fragmento desse úmero ainda nos guarda diversas respostas sobre linhagens de anuros no início do Cenozoico. Enquanto não conseguimos revisitar todo o passado podemos garantir nossa observação do futuro com ações de preservação, uma vez que a rã-capacete é considerada uma espécie vulnerável à extinção pela Lista Internacional de Espécies Ameaçadas (IUCN/2023). Esse “fóssil-vivo” ainda será de extrema importância se quisermos compreender um pouco mais sobre a paleoecologia dessa região. 

Texto fonte: Otero, R. A., et al. Evidence of a giant helmeted frog (Australobatrachia, Calyptocephalellidae) from Eocene levels of the Magallanes Basin, southernmost Chile. Journal of South American Earth Sciences, 2014. v. 55, p.133-140. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jsames.2014.06.010. Acesso: 18/04/2023.


Disponivel em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0277379120305722#!

Fonte e legenda da imagem de capa: Gráfico ilustrativo que compara o tamanho de um exemplar vivo da rã-capacete (Calyptocephalella gayi) com o ancestral antigo identificado a partir do fragmento de úmero encontrado.

Disponivel em:


Texto revisado por: Leticia de Souza Lopes e Alexandre liparini

Paleo comportamento: a longa caminhada de um adolescente e uma criança de colo 10 mil anos atrás

Escrito em: 04 de abril de 2023

Por: Eduardo Danilo Castro Silva

Ao final do Pleistoceno, cerca de 10 mil anos atrás, um adolescente ou um adulto pequeno com uma criança no colo, deixou pegadas cerca de 1,5 km. E, como se não bastasse só isso, perto delas, haviam pegadas de preguiça-terrestre-gigante e de um mamute colombiano, porém, todos esses registros não marcam que elas estavam fugindo desses animais ou que estavam sendo predados.
O rastro é bem grande e conta com mais de 400 pegadas ao longo dele, inclusive da criança que foi colocada sobre o chão, que além de tudo, estava escorregadio pela chuva e isso pode ser identificado por conta da precisão dos métodos 3D utilizados para verificar até os dedos que escorregavam sobre o solo. Em relação ao mamute e a preguiça, não houve nenhum tipo de disputa ou tentativa de predação, embora creia-se que a preguiça tenha sentido o cheiro dos humanos que andavam, pois ela em algum momento ficou sobre dois pés, presumidamente para sentir o cheiro. As pegadas infantis dizem-se a respeito de um indivíduo de aproximadamente 3 anos .Embora seja muito impreciso dizer o que aconteceu, presume-se que ela tenha sido apenas colocada no chão para que o adulto que a segurava pudesse se organizar e pegá-la, novamente.
Portanto, essa trilha marca algo muito positivo para a paleontologia, os icnofósseis, que são fósseis de um registro/ação de um ser biológico, seja ele qual for e o que fez, por exemplo: toca, marca de alimentação, furos, pegadas e outros que podem ser usados em estudos, inclusive comportamentais acerca dos nossos antepassados.
Logo, podemos levar a uma conclusão de uma história através desse registro, onde: Um adulto jovem ou um adolescente que carregava em seus braços uma criança, com idade de aproximadamente 3 anos, viajando com uma certa pressa em um terreno escorregadio e sem muitos erros no trajeto, o que indica que esta pessoa estava indo para um lugar conhecido e como foi feito de uma forma mais apressada, pode-se indicar que os viajantes estivessem correndo risco em meio a megafauna da época.. Os icnofósseis ainda indicam em qual lado a criança era mais levada por conta das dimensões dos pés.
Finalmente, é importante ressaltar, mais uma vez, a contribuição desses estudos para a paleontologia como, também, estudo do passado de pessoas, com histórias, pensamentos e vidas diferentes das quais se vê hoje e como registro de icnofósseis que são bem importantes dentro do campo de paleontologia.

Texto fonte: Bennett, M., Bustos, D., Odess, D., Urban, T., Lallensack, J., Buska, M., Santucci, V., Martinez, P., Wiseman, A., Reynolds, S. (2020). Walking in mud: Remarkable Pleistocene human trackways from White Sands National Park (New Mexico). Quaternary Science Reviews. volume 249.
Doi: https://doi.org/10.1016/j.quascirev.2020.106610
Disponivel em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0277379120305722#! Acessado em 01/07/2024

Fonte e legenda da imagem de capa: Marcas de pegada, disponível em: http://footprints.bournemouth.ac.uk/ Acessado em 01/07/2024


Texto revisado por: Vicente Sousa

Primeiro registro da Família Anyphaenidae do âmbar de Chiapas

Escrito em: 11 de Abril de 2023

Por: Thaise Martins do Nascimento

Os Artrópodes formam um grupo híper-diverso, contando com mais de um milhão de espécies descritas e catalogadas, tanto vivas quanto extintas. Dentre as espécies do passado, muitas já foram registradas no âmbar mexicano de Chiapas, um patrimônio paleontológico muito importante no mundo.

Os organismos ou suas partes que são capturados dentro de âmbares costumam ser bem conservados, permitindo o estudo de sua morfologia mesmo depois de milhões de anos. O âmbar de Chiapas, em particular, foi produzido por duas espécies de plantas do gênero Hymenaea (Leguminosae), H. mexicana e H. allendis e sua idade estimada varia entre 23,0 a 22,8 Ma, correspondendo ao início do Mioceno (Idade Aquitaniano).

Entre as várias famílias de artrópodes previamente registradas neste âmbar, algumas famílias de aranhas já haviam sido registradas, mas até uma publicação recente, não haviam ainda registros da Família Anyphaenidae. As aranhas desta família são de pequeno porte e por se moverem rapidamente, também recebem o nome de aranhas-fantasmas. Distribuídas mundialmente, elas são comumente encontradas em regiões tropicais e sua maior diversidade se encontra nas Américas. Ocupando diversos ambientes como florestas, desertos e regiões semi-áridas, onde vivem sob folhas, galhos e rochas, também podendo ser encontradas em culturas de plantio.

No México, sete espécies de Anyphaenidae vivem em Chiapas. Fósseis desta família foram previamente registrados de âmbares bálticos e dominicanos, pertencendo ao báltico a descoberta do fóssil mais antigo da Família Anyphaenidae encontrado em âmbar, i.e. Anyphaena fuscata, descrita por Koch & Berendt, datando de 44 Ma.

Mesmo com essas descobertas, o registro fóssil de Anyphanidae segue não sendo tão rico quando comparado com outras Famílias de aranhas. A explicação para isso pode estar relacionada ao fato de que elas são aranhas velozes, que possivelmente poderiam escapar de resinas, e também por habitarem as Américas, em regiões que em relação ao resto do mundo são pobres em âmbar.

Texto fonte: García-Villafuerte, M. Ángel. (2020). Primeiro registro da família Anyphaenidae (Arachnida: Araneae) do âmbar de Chiapas (Início do Mioceno, México). Revista Brasileira De Paleontologia , 23 (3), 165-170.
Disponível em: https://doi.org/10.4072/rbp.2020.3.01

Fonte e legenda da imagem de capa: Novo registro de Anyphaenidae. Barras de escala = 0.3 mm.

Texto revisado por: Gustavo Firpe e Alexandre Liparini.

Ovos de parasitos em coprólitos de antigos crocodilos

Escrito em: 12 de Abril de 2023

Por: Luíza F. S. Hoffmann Karez

Você já ouviu falar em Paleoparasitologia? Como o nome sugere, a Paleoparasitologia é a ciência que une a Paleontologia à Parasitologia, a fim de estudar a presença de espécies de parasitos em materiais arqueológicos e paleontológicos. É possível, por exemplo, utilizar as fezes fossilizadas de um animal, chamadas de coprólitos, para identificar ovos ou larvas de parasitos e deduzir hábitos alimentares daquela espécie, assim como obter informações ambientais acerca da época em que ela vivia. Nesse contexto, um grupo de pesquisadores brasileiros da Universidade Estadual Paulista (UNESP) encontraram ovos de parasitos em coprólitos de crocodiliformes (grupo que inclui parentes distantes dos crocodilos e dos jacarés atuais) que viveram no Período Cretáceo Superior (intervalo de tempo entre 100.5 M.a. e 66 M.a.).

Sabe-se que os ovos de parasitos podem ser identificados através da morfologia que apresentam. No caso dos ovos encontrados nos coprólitos de crocodiliformes, foi possível visualizar o formato arredondado ou ovalado típico de vermes parasitos gastrointestinais de vertebrados, pertencentes à Superfamília Ascaridoidea, popularmente conhecidos como “lombrigas”, como os causadores da ascaridíase em humanos. Esses ovos têm semelhança morfológica com ovos encontrados em crocodilianos modernos, o que sugere que as espécies extantes adquiriram o parasitismo através de uma herança evolutiva. Ou seja, há indícios de que se trata de um grupo de parasitos bem sucedidos no processo evolutivo, os quais podem ser encontrados em exemplares de crocodilianos de milhões de anos atrás e de crocodilianos atuais.

Além disso, o estudo sugere que os crocodiliformes adquiriram esses parasitos por se alimentarem de peixes e de anfíbios. Portanto, a presença desses parasitos em coprólitos fornece informações valiosas sobre o hospedeiro e sobre os próprios parasitos, pois possibilita analisar a evolução desses parasitos e a sua distribuição geográfica pelo mundo ao longo do tempo. Assim, tanto a Paleontologia quanto a Parasitologia saíram ganhando.

Texto fonte: Cardia, D.F.; Bertini, R.J.; Camossi, L.G.; Letizio, L.A. (2018). The first record of ascaridoidea eggs discovered in crocodyliformes hosts from the upper cretaceous of Brazil. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 21, n. 3, p. 238-244. Doi: 10.4072/rbp.2018.3.04.
Disponível em: https://www.sbpbrasil.org/assets/uploads/files/rbp2018304.pdf Acesso em: 10/04/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Fezes preservadas (coprólitos) de crocodiliformes contendo ovos de parasitos da família Ascaridoidea. Barras de escala = 10 mm.

Texto revisado por: Gustavo Firpe e Alexandre Liparini.

“Pricesaurus megalodon” e sua difícil definição 

Escrito em: 12 de Abril de 2023

Por: Letícia Reis Cussat

Uma revisão publicada na Revista Brasileira de Paleontologia, em 2012, reúne uma minuciosa reavaliação proposta por Martins Neto (1986) dos espécimes atribuídos a nova espécie Pricesaurus megalodon, inferido como um novo pterossauro pterodactiloide, pertencente à Formação Romualdo da Bacia do Araripe.

Os objetos usados no estudo são um fragmento rostral e o fragmento médio do crânio, porém esses materiais possuem características incertas sobre o novo gênero e espécie, levando a uma grande dúvida sobre sua posição na filogenia.

Kellner & Campos (1988), para confrontar a afirmação de Martins Neto (1986), em um outro estudo afirmam que o material seja de, provavelmente, dois crânios de animais distintos, sendo o fragmento rostral possuindo afinidades com o gênero Anhanguera, e o outro espécime da parte média do crânio não tinha preservação adequada e características distintivas para permitir a sua identificação precisa, levando os autores a atribuí-lo ao grupo genérico Pterosauria indet.

Após uma minuciosa reavaliação dos espécimes atribuídos ao Pricesaurus megalodon, um novo estudo publicado conclui que o material não constitui um táxon distinto, como originalmente proposto em 1986.

Portanto, o táxon Pricesaurus megalodon é considerado um nomen nudum, ou seja, um nome sem características diagnósticas distintas, como os autores dessa revisão afirmam “os espécimes referidos a P. megalodon nunca foram estudados em detalhes ou ilustrados.” Por fim, foi publicado em desacordo com as recomendações do Código Internacional de Nomenclatura Zoológica.

Esses resultados destacam a importância da revisão e reavaliação constante de espécimes fósseis para uma melhor compreensão da biodiversidade passada.

Texto fonte: Pinheiro et al. (2012). What is “Pricesaurus megalodon”? REASSESSMENT of an enigmatic pterosaur. Revista Brasileira de Paleontologia. 15(3):264-272. doi:10.4072/rbp.2012.3.03. Acesso em 10/04/2023.

Disponível em: https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&url=https://www.sbpbrasil.org/revista/edicoes/15_3/03_Pinheiro_et_al.pdf&ved=2ahUKEwiK5LmUgaX-AhVCqZUCHdQsC90QFnoECBQQAQ&usg=AOvVaw1jqI0aU3_DWK4gcYTByGMc


Fonte e legenda da imagem de capa: Foto das peças anatômicas utilizadas no estudo. Disponível em: https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&url=https://www.sbpbrasil.org/revista/edicoes/15_3/03_Pinheiro_et_al.pdf&ved=2ahUKEwiK5LmUgaX-AhVCqZUCHdQsC90QFnoECBQQAQ&usg=AOvVaw1jqI0aU3_DWK4gcYTByGMc


Texto revisado por: Cíntia Silva e Alexandre Liparini.

Os dentes do T. rex não ficavam pra fora.

Escrito em: 10 de abril de 2023

Por: Ana Beatriz de Lima Freitas

O fóssil pode revelar muitas coisas sobre um animal extinto, entretanto o processo de fossilização preserva principalmente tecidos duros como ossos e dentes e, quando ele é encontrado, nem sempre pode estar completo. Retratações de dinossauros como na trilogia Jurassic Park mostram o famoso T. rex com seus grandes dentes para fora da boca, o que acontece porque o tecido mole dos lábios não é preservado no registro fóssil. Essa clássica representação ocorre pelo parentesco do grupo dos dinossauros com os crocodilos, que, de fato, possuem dentes grandes e expostos, sem tecido que os recobre.

Os dentes são recobertos por uma camada de esmalte, um tecido muito duro, e os dinossauros terópodes, carnívoros que andavam sobre duas patas, possuíam uma fina camada de esmalte. Sendo assim, foi possível comparar o desgaste dental dos dinossauros e dos crocodilos, pois o esmalte não é regenerado.

Nos crocodilos, a face do dente que fica voltada para fora sofre muito desgaste, dessa forma o esmalte pode ser perdido e a dentina, o tecido interno do dente, pode ser revelada , pois o esmalte não se regenera .Os dentes dos dinossauros terópodes foram cortados para verificar a presença dessas estruturas e foi identificado que o esmalte possui a mesma espessura tanto da parte do dente voltada para dentro quanto para fora. Ou seja, não havia desgaste, o que indica que esses dentes não ficavam expostos. O esmalte, rico em minerais e pobre em água, é mantido hidratado por secreções das glândulas bucais, o que afeta muito sua resistência. Os dentes que ficam protegidos pelos lábios têm esmalte mais resistente à abrasão, consistente com o que foi observado nos dentes dos dinossauros terópodes.

Outra característica importante é a posição em que os dentes estão,  nos terópodes eles se alinham verticalmente com o crânio como nos varanídeos, grupo de lagartos ao qual o dragão de komodo pertence e que possuem lábios que recobrem os dentes, diferentemente dos dentes dos crocodilos que se inclinam para fora da boca, ficando bem expostos.

Também foi realizada uma análise comparando o tamanho da relação crânio-boca e concluíram que os dentes não são tão grandes a ponto de não serem cobertos por lábios, pois se acreditava que eles eram grandes demais para o tamanho do crânio. Assim, esses resultados são importantes para reconstruções faciais de dinossauros na ciência e na cultura popular e também porque ajudam a entender como ele caçava e se alimentava.

Texto fonte: Cullen, T. et al. (2023). Theropod dinosaur facial reconstruction and the importance of soft tissues in paleobiology. Science Vol 379, Issue 6639pp. 1348-1. 10.1126/science.abo7877.
Disponível em: < https://www.science.org/doi/10.1126/science.abo7877 >, acessado em 07/04/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Expectativa vs realidade aquáticas.

Disponível em : https://www.science.org/doi/10.1126/science.abo7877 , acessado em: 07/04/2023.

Texto revisado por: Leticia Lopes e Alexandre Liparini.