Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?

Escrito em: 06 de novembro de 2023

Por: Izabella Dafne Rocha

Quem nunca escutou a pergunta: “Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?” e criou várias hipóteses na cabeça, que atire a primeira pedra. Você também já pode ter escutado ou lido em algum lugar que os cientistas acreditam que foi o ovo, afinal, várias espécies de dinossauros, que são os antepassados diretos das aves, já colocavam ovos. Porém, um artigo publicado na revista Nature Ecology & Evolution em 2023, escrito por Baoyu Jiang e seus colaboradores, nos leva a uma descoberta que pode mudar a maneira como vemos a história da vida na Terra.

Jiang, um professor de paleontologia da Universidade de Nanjing na China, investigou os fósseis dos primeiros amniotas, que são os animais cujos embriões são envolvidos por uma membrana amniótica. Seres humanos são exemplos de amniotas, pois quando um feto está em gestação, é produzido o que chamamos de líquido amniótico. A nova descoberta foi surpreendente: essas criaturas antigas, em vez de depositar ovos como muitos de nós imaginamos, eram vivíparas. Isso significa que elas davam à luz a seus filhotes, assim como os mamíferos fazem hoje.

No estudo, foi observado que entre diferentes espécies de Choristodera (grupo de répteis semi-aquáticos pré-históricos que viveram durante a “Era dos Dinossauros”) algumas podiam pôr ovos, já outras podiam dar à luz filhotes.  Além disso, a pesquisa argumenta que a ausência de evidências fósseis de ovos de tetrápodes antes de cerca de 190 milhões de anos atrás sugere que a casca dura e mineralizada dos ovos evoluiu mais tarde. Os cientistas confirmaram essa teoria por meio de uma análise de estados ancestrais, que é uma técnica usada para inferir características dos ancestrais com base nas relações evolutivas e nas características das espécies atuais.

O estudo mostrou que no começo desse processo existia uma maior diversidade no que diz respeito ao período de gestação dos embriões no corpo da mãe. Isso significava que certas espécies podiam manter seus filhotes dentro de si até que o ambiente externo se tornasse mais seguro para o nascimento, uma habilidade que ainda é evidente em alguns répteis e anfíbios, que existem hoje em dia e é denominada de retenção prolongada de embriões (RPE). Portanto, por essa nova perspectiva, não necessariamente o ovo veio primeiro que a galinha, ou melhor, que o ancestral das galinhas atuais. A depender do ancestral que consideramos a característica original poderia ser o embrião se desenvolver dentro do corpo da mãe, sem a presença de um ovo.

Texto fonte: Jiang, B., He, Y., Elsler, A. et al. Extended embryo retention and viviparity in the first amniotes. Nat Ecol Evol 7, 1131–1140 (2023).

Disponível em:  https://doi.org/10.1038/s41559-023-02074-0

Fonte e legenda da imagem de capa: Pintinho observando com curiosidade a casca do ovo eclodido. Extraída do site Freepik.

Disponível em: https://br.freepik.com/fotos-gratis/pequena-galinha-nascida-curiosa-olhando-na-casca-do-ovo_10685638.htm?query=pintinho%20e%20ovo#from_view=detail_alsolike


Texto revisado por: Letícia Lopes e Alexandre Linparini

A Revolução dos Fungos na Paleontologia

Escrito em: 06 de novembro de 2023

Por Sarah Elisa

A conservação de um organismo após sua morte depende de muitos fatores específicos para ocorrer, sendo necessário milhares de anos para que ocorra sua fossilização. Entre esses fatores, está a ação de microrganismo

Apesar de serem mais conhecidos por atuarem no processo de decomposição, os microrganismos também são responsáveis pela produção de biominerais que podem auxiliar no desenvolvimento de um fóssil. Esse é o aspecto investigado pelo artigo “Fungal-induced fossil biomineralization”, que avalia a provável contribuição de fungos produtores de nanofibras para a preservação de estruturas frágeis, como fezes. Essas nanofibras são como mini fios que, entrelaçados, envolveriam o tecido fossilizado, dificultando a sua degradação ao longo do tempo.

Para justificar esta hipótese, foi realizado um estudo acerca da composição de fezes fossilizadas com o auxílio de técnicas avançadas de microscopia e mineralogia, onde foram encontradas fibras de hidroxiapatita, uma substância insolúvel formada por fosfato de cálcio. Na área dos cosméticos, é uma substância amplamente conhecida por estimular a produção de colágeno e evitar a temida flacidez da pele. Posteriormente, fungos da espécie Aspergillus niger foram cultivados em laboratório em meio com abundante disponibilidade de cálcio e fosfato.

Paralelamente ao processo de desenvolvimento das colônias de fungos, observou-se a produção de nanofibras associadas ao oxalato de cálcio, composição equivalente àquela encontrada nos fósseis. Além disso, a estrutura das fibras encontradas em ambas as situações também é similar, reforçando a ideia da participação de fungos, possivelmente do mesmo grupo dos que foram usados como modelo, na fossilização. Vale ressaltar que a espécie utilizada para o cultivo em laboratório, Aspergillus niger, é comumente encontrada em diversos ambientes terrestres, incluindo solo, fezes e alimentos contaminados como frutas e legumes.

Portanto, esse é um estudo de grande relevância não somente no que diz respeito ao intrigante processo de fossilização, mas também quando se trata da longa permanência dos microrganismos no ambiente terrestre e sua importância para o estudo da vida.

Texto fonte: Mao Luo, Zhen Li, Mu Su,
Geoffrey Michael Gadd, Zongjun Yin, Michael J. Benton, Yanhong Pan, Daran Zheng, Tao Zhao, Zibo Li, Yuxuan Chen. (2023) Current Biology, vol. 33, n.12, pp 2417-2424

Fungal-induced fossil biomineralization

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0960982223005481

Fonte e legenda da imagem de capa: Comparação de tamanho e forma de nanofilamentos em croprólitos e fungos modelo


Texto revisado por: Lucélio Batista, Alexandre Liparini.

Alucinação ou realidade? Hallucigenia: o estranho fóssil descrito de cabeça para baixo e de trás para frente

Escrito em: 07 de novembro de 2023

Por Lucas Rabelo de Vasconcellos

O mundo dos fósseis é um recanto de descobertas que tocam a curiosidade e a imaginação. É bem provável que você já tenha, alguma vez, visto a representação de um animal extinto, que viveu no passado distante, e se intrigado com sua aparência única, imaginando como seria ver aquele bicho pessoalmente. Uma triste verdade, no entanto, especialmente para os mais curiosos, é que todas aquelas belas reconstruções são apenas hipóteses: nós nunca saberemos, de fato, qual era a aparência desses organismos. Isso é tão verdade que, ao longo do tempo, com a realização de mais estudos, as interpretações da morfologia dos seres vivos fossilizados podem mudar. Até mesmo o famosíssimo tiranossauro rex sofreu esse destino – se anteriormente era imaginado como um animal coberto de escamas, com pele similar à de um lagarto, de postura mais ereta e cauda apoiada no solo, com o tempo, ele passou a ser reconstruído apresentando algum nível de plumagem esparsa, e com a cauda mais ou menos à mesma altura da cabeça, andando com a coluna quase na horizontal.

Esse processo de reinterpretação é comum, em maior ou menor grau, mas um dos casos mais drásticos e emblemáticos é a história da descrição do animal vermiforme Hallucigenia sparsa. Descoberto em 1911 pelo paleontólogo Charles Walcott no Canadá, o organismo foi nomeado Canadia sparsa e inserido no grupo Polychaeta, que inclui alguns parentes marinhos das minhocas. O fóssil, estimado em 508 milhões de anos, foi encontrado no Folhelho Burgess, um sítio fossilífero também descoberto por Walcott dois anos antes, especial por seu potencial de preservação excepcional de organismos do período Cambriano. Esse estranho ser vivo tinha pouco mais de um centímetro, apresentando um corpo cilíndrico e alongado, com espinhos enfileirados em sua superfície e apêndices aparentemente mais flexíveis do lado oposto.

Por muito tempo depois disso, Canadia sparsa passou praticamente despercebido, até que, em 1977, atraiu os olhares do pesquisador inglês Simon Conway Morris. Ele discordou radicalmente da classificação inicial de Walcott, afirmando que o animal representava um grupo de animais nunca antes visto, e renomeando-o Hallucigenia sparsa, em virtude de sua aparência “bizarra e surreal” – em suas palavras –, como algo vindo de uma alucinação. Morris propôs que ele caminharia sobre seus espinhos pareados, que funcionariam como pernas rígidas e inarticuladas, e que os apêndices em seu dorso seriam tentáculos utilizados para transportar alimento até a cabeça, que corresponderia à mancha escura e globosa em uma das extremidades do fóssil. Alternativamente, ele fez a inusitada previsão de que talvez cada tentáculo contasse com uma “mini boca” própria, que se conectaria ao sistema digestório central do animal… Bem alucinante mesmo.

Dessa forma, os maiores enigmas relacionados à morfologia de Hallucigenia estavam solucionados. Estudos posteriores, com uso de mais fósseis e tecnologia mais avançada, revelaram interessantes detalhes adicionais, no entanto. Aparentemente, o animal contava com um par de olhos simples na cabeça, além de dentes em sua faringe que auxiliariam no processamento de comida. Além disso, os três primeiros pares de apêndices ventrais seriam mais longos, esguios e flexíveis que os demais, tendo funcionado efetivamente como tentáculos – possivelmente auxiliando na alimentação, mais ou menos como havia proposto Morris, de maneira mais peculiar. O organismo viveria caminhando sobre o fundo do mar, buscando por alimento com ditos tentáculos, enquanto era protegido por seus espinhos. As pesquisas também têm concordado em certo nível que ele seria próximo dos chamados “vermes aveludados”, parte do grupo Onychophora e parentes dos artrópodes. Ainda hoje, entretanto, há muito a ser discutido e descoberto – apesar de talvez parecer produto de uma alucinação, certamente os mistérios e as curiosidades que rondam Hallucigenia são bem reais.

No entanto, em 1991 essa visão foi virada de cabeça para baixo – literalmente. Ao estudar outro fóssil, chamado Microdictyon, a dupla de paleontólogos Lars Ramsköld e Hou Xianguang percebeu suas semelhanças com Hallucigenia – isto é, se ele fosse invertido. Eles, então, propuseram que os espinhos do animal ficavam em suas costas, funcionando como estruturas de defesa, e que os “tentáculos” na verdade eram pareados e representavam pernas, que inclusive contavam com garras em suas extremidades. Agora se tornava mais claro que o animal era parte de um grupo chamado Lobopodia, aparentado aos artrópodes atuais – grupo que inclui aranhas, caranguejos, insetos e muitos outros.

Apesar dessa enorme mudança de paradigma, Ramsköld, em 1992, fez mais um adendo: além de o bicho ter sido descrito de cabeça para baixo, também estava de trás para frente – e ele e Hou tinham deixado isso passar batido no ano anterior. Os pesquisadores haviam mantido a ideia de Morris de que o grande círculo encontrado nos fósseis seria a cabeça, mas análises mais precisas revelaram que esse não era o caso. Ramsköld propôs que a mancha escura antes considerada a região cefálica do animal seria, na verdade, o resultado da expulsão de fluidos corporais e matéria orgânica a partir da cauda após a morte. E a sugestão foi bem recebida: consolidou-se, então, a ideia geral da aparência do bicho.

Dessa forma, os maiores enigmas relacionados à morfologia de Hallucigenia estavam solucionados. Estudos posteriores, com uso de mais fósseis e tecnologia mais avançada, revelaram interessantes detalhes adicionais, no entanto. Aparentemente, o animal contava com um par de olhos simples na cabeça, além de dentes em sua faringe que auxiliariam no processamento de comida. Além disso, os três primeiros pares de apêndices ventrais seriam mais longos, esguios e flexíveis que os demais, tendo funcionado efetivamente como tentáculos – possivelmente auxiliando na alimentação, mais ou menos como havia proposto Morris, de maneira mais peculiar. O organismo viveria caminhando sobre o fundo do mar, buscando por alimento com ditos tentáculos, enquanto era protegido por seus espinhos. As pesquisas também têm concordado em certo nível que ele seria próximo dos chamados “vermes aveludados”, parte do grupo Onychophora e parentes dos artrópodes. Ainda hoje, entretanto, há muito a ser discutido e descoberto – apesar de talvez parecer produto de uma alucinação, certamente os mistérios e as curiosidades que rondam Hallucigenia são bem reais.

Textos fonte: Morris, S. C. (1977). A new metazoan from the Cambrian Burgess Shale of British Columbia. Palaeontology, v. 20, n. 3, p. 623–640.

Ramsköld, L. (1992). The second leg row of Hallucigenia discovered. Lethaia, v. 25, n. 2, p. 221–224.

Ramsköld, L.; Xianguang, H. (1991). New early Cambrian animal and onychophoran affinities of enigmatic metazoans. Nature, v. 351, n. 6323, p. 225–228.

Smith, M. R.; Caron, J.-B. (2015). Hallucigenia’s head and the pharyngeal armature of early ecdysozoans. Nature, v. 523, n. 7558, p. 75–78.

Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução completa. Desenhos, reproduzidos com permissão, por Danielle Dufault. Fig. 1f do artigo Hallucigenia’s head and the pharyngeal armature of early ecdysozoans. Disponível em <https://www.nature.com/articles/nature14573>, acesso em: 07/11/2024


Texto revisado por: Lucas Rabelo e Alexandre Liparini.

À lá Jurassic Park? A incrível preservação do conteúdo nuclear de um fóssil de dinossauro do Cretáceo Inferior.

Escrito em: 09 de abril de 2023

Por Henrique Garrido

E se fosse possível ter acesso ao conteúdo nuclear de um fóssil de milhões de anos? Apesar de parecer uma ideia retirada diretamente de um filme de Hollywood, um artigo publicado na revista Nature revelou que esse fato pode não estar tão distante assim.

No artigo “Nuclear preservation in the cartilage of the Jehol dinosaur Caudipteryx”, do final do ano de 2021, os autores Xiaoting Zheng, Alida M. Bailleul, Zhiheng Li, Xiaoli Wang e Zhonghe Zhou apresentam a possibilidade de estarmos diante de um importante registro de DNA preservado em fósseis.

Essa descoberta se mostra especialmente interessante devido à fragilidade dos ácidos nucleicos, que iniciam a sua degradação poucas horas após a morte do indivíduo. Por conta disso, a presença de DNA saudável se mostra extremamente rara na literatura paleontológica, instaurando uma infinidade de questionamentos referentes à sua preservação e às possibilidades que esse estudo traz para a ciência no geral. 

O artigo citado relata a descoberta de restos fossilizados de um dinossauro do período Cretáceo que habitava a atual China, chamado Caudipteryx. Além de se tratar de um registro fóssil interessante por si só, devido à considerável preservação da amostra, apresentando inclusive o contorno das penas do animal, o mais intrigante se encontrava em uma parcela do tecido cartilaginoso deste indivíduo.

Após passarem por um processo de desmineralização da cartilagem fóssil, fragmentos dessa cartilagem foram submetidos à coloração utilizando hematoxilina e eosina, procedimento clássico da histologia para a identificação de componentes no interior da célula, como por exemplo componentes nucleares e citoplasmáticos. Impressionantemente, ao comparar a amostra fóssil com lâminas produzidas a partir da cartilagem recente de uma galinha utilizando a mesma técnica de coloração, os autores perceberam que os dois procedimentos reagiram de forma excepcionalmente semelhante.

Além disso, em um dos condrócitos do dinossauro (célula constituinte do tecido cartilaginoso), é possível observar a presença de fios de cromatina fossilizados, sendo o segundo registro existente na literatura paleontológica de fossilização desses filamentos em vertebrados. As possibilidades oriundas dessa descoberta ainda são difíceis de serem dimensionadas, mas a remota capacidade de entendimento genético desses animais é o suficiente para animar qualquer cientista, uma vez que abre margem para novas abordagens taxonômicas, genotípicas, etc.

Apesar dos dados obtidos no trabalho apontarem para a preservação parcial do conteúdo bioquímico do núcleo das células cartilaginosas do dinossauro, novos estudos necessitam ser feitos para comprovar o estado de preservação do conteúdo nuclear e as teorias apontadas pelos autores do artigo.

Entretanto, os resultados já se mostram extremamente interessantes e promissores. A realidade observada em filmes megalomaníacos, como o clássico Jurassic Park, se mostra cada vez mais próxima. Cabe a nós nos mantermos atentos para os próximos passos da ciência e ver até onde essas novas descobertas podem nos levar.

Texto fonte: Zheng, X., Bailleul, A.M., Li, Z. et al. Nuclear preservation in the cartilage of the Jehol dinosaur Caudipteryx. Commun Biol 4, 1125 (2021). https://doi.org/10.1038/s42003-021-02627-8 Disponível em: https://www.nature.com/articles/s42003-021-02627-8#citeas Acesso em: 09 de Abril de 2023.


Fonte e legenda da imagem de capa: Células retiradas da cartilagem do fóssil de Caudipteryx e coradas utilizando a coloração HE, demonstrando a reação com o conteúdo nuclear apresentado.


Texto revisado por: Cíntia Silva, Alexandre Liparini.

É possível estabelecer conexões entre a Paleontologia e a Justiça Ambiental?   

Escrito em: 12 de abril de 2023

Por: Rafael Sousa Santos

Não se restringindo apenas ao estudo dos fósseis, a Paleontologia é, de fato, uma ciência extremamente necessária e capaz de contextualizar a presença humana em meio à crise ambiental mundial, considerando, por exemplo, os conflitos socioambientais existentes em sítios paleontológicos. 

Combinando conhecimentos entre a Ecologia, Geografia, Antropologia, Sociologia, Economia e Ciências da Natureza, a Ecologia Política é um campo interdisciplinar que busca entender como as relações entre a sociedade são construídas, analisando a forma como lidamos com o Meio Ambiente e como isso impacta diferentes grupos e comunidades. E é com base nessa matéria interdisciplinar que se pode tecer conexões entre a paleontologia e a justiça ambiental. 

Sítios paleontológicos são locais onde existe a preservação de evidências sobre a atividade de seres do passado, constituídos por lugares como depósitos de argila, rochas sedimentares, cavernas, lagos, entre outros. No entanto, essas localidades são consideradas pontos de conflitos socioambientais, principalmente no que diz respeito às comunidades que habitam ou habitavam esses ambientes. Um dos impactos negativos mais marcantes nessas áreas são as limitações de acesso impostas para moradores antigos, sendo que em muitas das vezes, esses sujeitos necessitam desses locais para a sua própria subsistência, como por exemplo, para realização de atividades de extrativismo, agricultura, pesca etc. Outra questão relevante consiste na atividade mineradora, impulsionada pelo valor comercial atrelado às rochas sedimentares, gerando impactos ambientais causados pelas técnicas de extração, pela geração de resíduos e efluentes, pela degradação de áreas preservadas, entre outros. 

Pensar a paleontologia por meio de reflexões que fomentem ações coletivas nesses espaços é extremamente necessário, transformando os sítios paleontológicos em locais que não sejam utilizados apenas para a contemplação da beleza e dos registros fósseis ali encontrados, mas de forma que proporcione a gestão integrada da população no uso dessas terras. Por conseguinte, percebe-se que a paleontologia é uma ciência capaz de estabelecer conexões com a Justiça Ambiental por meio da interdisciplinaridade da Ecologia Política.

Texto fonte: Silva, C. N., & Cosenza, A. (2021). PALEONTOLOGY AND ENVIRONMENTAL JUSTICE: MAKING CONNECTIONS THROUGH POLITICAL ECOLOGY. Ambiente & Sociedade, 24(Ambient. soc., 2021 24), e00892. DOI: https://doi.org/10.1590/1809-4422asoc20200089r2vu2021L3AO.

Disponível em: https://www.scielo.br/j/asoc/a/TySCNqtr9RzLRW3ftJCnV4K/?lang=en#. Acessado em: 12/04/2023.


Fonte e legenda da imagem de capa: Vista panorâmica da Floresta Fóssil no Rio Poti, em Teresina – Exemplar de sítio paleontológico.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Estudo de paleotocas de preguiças-gigantes: Uma viagem em 3D pelos túneis

Escrito em: 11 de abril de 2023

Por: Leonardo Dornas

Já pensou em visitar, de qualquer lugar do mundo, uma toca de preguiça gigante? Essa experiência pode estar bem próxima!
As preguiças-gigantes, mamíferos que habitavam o Brasil desde o período Neógeno (de 23 a 2,5 milhões de anos atrás) até aproximadamente 11.000 anos atrás, intrigam cientistas até hoje. Com o objetivo de entender melhor o comportamento desses seres, os pesquisadores costumam estudar as paleotocas – túneis que eram cavados pelas preguiças-gigantes. Recentemente, um grupo de cientistas da UNESP utilizou a fotogrametria para estudar uma paleotoca localizada no município de Doutor Pedrinho, em Santa Catarina.
A fotogrametria é uma técnica que utiliza fotografias para extrair informações sobre a forma, dimensão e posição dos objetos contidos na imagem. Com ela, os cientistas puderam identificar traços de garras duplas na paleotoca, e conseguiram gerar um modelo em 3D.
Os túneis encontrados na paleotoca tinham até 34,4 metros de extensão e uma dimensão total de 80,3 metros. Por terem sido escavados em arenitos com pouca infiltração ou colapso, os túneis estavam bem preservados. Utilizando fotografias padronizadas e câmeras digitais de alta resolução, os cientistas geraram um modelo digital em 3D da paleotoca, chamado de M3D.
Esse modelo permite a preservação digital das paleotocas para estudos e também possibilita uma visita utilizando tecnologias de realidade virtual. Com isso, as paleotocas e o importante conhecimento adquirido sobre as preguiças-gigantes podem ser compartilhados com o mundo, contribuindo para a preservação, pesquisas e a divulgação científica.

Para conferir o modelo 3D, acesse o link a seguir: https://skfb.ly/ooprJ

Texto fonte: Audi, C., Meyer, D., Odess, D., Urban, T., Yeuw, T. T., Beraldo, K. B., Fey, J. D., Spanghero, N. F., Munhoz, M. C., Oliveira, B. J., Buchmann, F. S. (2022). FOTOGRAMETRIA DE UM ICNOFÓSSIL ESCAVADO POR PREGUIÇAS-GIGANTES (MEGAICHNUS MAJOR). Revista Brasileira de Paleontologia, 25(3):208–218.
Doi: 10.4072/rbp.2022.3.04
Disponivel em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/306/125 Acessado em 12/10/2024

Fonte e legenda da imagem de capa: Modelo da paleotoca gerados em 3D, retirado do próprio texto fonte (Figura 5)


Texto revisado por: Vicente Sousa

Quando surgiram as Angiospermas? Fóssil encontrado na China pode trazer novas informações

Escrito em: 11 de abril de 2023

Por: Ian Barcellos

As angiospermas são plantas que têm flores e produzem frutos, fazem parte de um grupo diverso que inclui diversas plantas que vemos todos os dias, como as rosas, as margaridas, as orquídeas, as árvores frutíferas e muitas outras. Atualmente, são altamente diversificadas, com muitos hábitos de vida, formas e peculiaridades em cada grupo.

Elas se tornaram um grupo de plantas dominante durante o período Paleógeno, que começou há cerca de 66 milhões de anos atrás. Por possuírem estruturas reprodutivas altamente especializadas, as flores, as angiospermas se adaptaram a uma ampla variedade de habitats ecológicos. Devido a essa inovação evolutiva, tornaram-se as plantas mais diversificadas e bem-sucedidas do planeta.

O surgimento do grupo na história evolutiva segundo a teoria mais aceita ocorreu há cerca de 130 milhões de anos atrás, durante época Cretáceo inferior, entretanto, um grupo de paleontólogos encontraram um fóssil no nordeste da China que muda a visão sobre a história da evolução das plantas com flores.

O fóssil, chamado de Archaefructus, se trata de uma angiosperma com característicasprimitivas, ou seja, características que apontam para a origem do grupo das plantas com flores. A idade do fóssil pode alterar como entendemos a evolução das angiospermas, já que foi encontrado em um afloramento do época Jurássico superior, ou seja, anterior ao que era considerado como o surgimento das angiospermas.

A partir dessa descoberta, foi sugerida a criação de uma nova subclasse dentro da classificação das angiospermas, sustentada por algumas características observadas no fóssil que podem ajudar a elucidar a origem do grupo. Além disso, durante muitos anos os cientistas consideraram que a origem das angiospermas ocorreu nas regiões tropicais do mundo. Entretanto, a descoberta de espécimes como o Archaefructus e outras angiospermas primitivas encontradas em Jixi, nordeste da China, sugere que a diversificação e o surgimento das primeiras plantas com flores podem ter ocorrido na China. Achados como este contestam a ideia anteriormente difundida de que a origem das angiospermas estava limitada às regiões tropicais.

Texto fonte: Sun Ge; David L. Dilcher.; Zheng Shaoling.; Zhou Zhekun. (1998). In Search of the First Flower: A Jurassic Angiosperm, Archaefructus, from Northeast China. Nature, Vol. 282, Issue 5394, pp. 1692-1695. Doi: 10.1126/science.282.5394.1692.

Disponível em: https://link.gale.com/apps/doc/A53588744/AONE?u=capes&sid=bookmark-AONE&xid=68abf18c


Fonte e legenda da imagem de capa: Archaefructus liaoningensis, fóssil encontrado no nordeste da China

Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Archaefructus_liaoningensis.jpg


Texto revisado por: André Garcia e Alexandre Liparini.

Descoberta de Fóssil com 165 Milhões de Anos Revela Informações sobre a Evolução e Adaptação de Mosquitos

Escrito em: 18 de abril de 2023

Por: Milena Patrocínio Teixeira

O artigo “Morphology of the oldest fossil subfamily of Limoniidae (Diptera, Architipulinae) in the light of exceptionally preserved Mesozoic material” publicado na revista Nature relata a descoberta de um novo fóssil de uma subfamília de mosquitos Limoniidae, datado do período Jurássico Médio, há cerca de 165 milhões de anos atrás. A descoberta foi feita em uma região de rochas sedimentares na China, que preservou os vestígios do inseto com riqueza de detalhes, incluindo partes moles, asas e antenas.
Os mosquitos são insetos muito antigos, com uma história evolutiva que se estende por milhões de anos. A descoberta desse fóssil fornece informações valiosas sobre como esses insetos evoluíram e se adaptaram ao longo do tempo. A análise detalhada da morfologia do fóssil revela características que sugerem que os mosquitos ancestrais eram diferentes dos mosquitos modernos. Por exemplo, o fóssil apresenta um sistema nas asas bem desenvolvido, o que sugere que os mosquitos ancestrais podiam voar por períodos mais longos do que os mosquitos modernos.
Além disso, a descoberta do fóssil de Limoniidae também permite entender a diversidade desses insetos durante o período Mesozoico, como por exemplo a forma de adaptação às mudanças climáticas e geológicas. A subfamília Limoniidae ainda existe hoje em dia, com mais de 1.500 espécies no mundo. A descoberta desse fóssil permite aos paleontólogos traçarem a história evolutiva dessa família de insetos e comparar as diferenças e semelhanças entre as espécies antigas e modernas.
A descoberta de fósseis preservados com essa qualidade e detalhes pode ser de grande importância para o campo da paleontologia, fornecendo informações valiosas sobre a história da vida na Terra e ajudando a responder perguntas importantes sobre como os organismos evoluíram e se adaptaram ao longo do tempo no nosso planeta.

Texto fonte: opeć, K., Soszyńska-Maj, A., Kania-Kłosok, I. et al. (2021). Morphology of the oldest fossil subfamily of Limoniidae (Diptera, Architipulinae) in the light of exceptionally preserved Mesozoic material. Sci Rep 11, 24137. DOI: https://doi.org/10.1038/s41598-021-03350-4.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-021-03350-4 acessado em 18/04/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Mosquito extinto Elephantomyia longirostris, da família Limoniidae.

Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Elephantomyia_(E.)_longirostris_fig_10_body_01.jpg, acessada em: 18/04/2023.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Virossauros Entre Nós

Escrito em: 09 de abril de 2023

Por: Júlia W. Souza

Você já imaginou espécies ancestrais de vírus vivendo entre nós, mais especificamente, dentro do DNA de outros seres vivos? Pois é! Foi descoberto que isso tem acontecido nos últimos milhões de anos. Alguns hospedeiros de certos vírus têm partes de seu DNA muito parecida com a do vírus em si, que possui certas partes bem conservadas em seu código genético. Além disso, são utilizadas a estrutura dos vírus e suas proteínas, que são conservadas por mais tempo.

O que tem sido descoberto é que, através de hospedeiros cada vez mais antigos, conseguimos remontar a história dos vírus de DNA, descobrindo seus ancestrais e suas relações evolutivas, ou seja, estamos desenterrando informações a respeito de linhagens virais que vêm desde os tempos dos dinossauros, ou são ainda mais antigas.

Descobriu-se que existe uma enorme diversidade viral nos genomas dos hospedeiros (protozoários, plantas, animais, fungos) e que a maioria das linhagens existem ainda hoje. Ao contrário do que podemos pensar inicialmente, nem todas essas histórias foram recuperadas apenas a partir do genoma de hospedeiros contemporâneos a nós. Vários genes atribuídos a vírus, ou atividade viral, foram descobertos em fósseis encontrados em diversas condições, desde que bem conservados. Os exemplares de DNA viral mais antigos recuperados até hoje remontam ao triássico, período em que surgiram os primeiros dinossauros! Verdadeiros virossauros! Apesar de o exemplar mais antigo ser do triássico, estima-se que algumas linhagens existam desde a presença dos primeiros seres vivos, antes do cambriano (momento em que houve uma explosão de biodiversidade na Terra).

Esses estudos permitem compreender mais sobre vírus que foram relativamente pouco explorados, como os vírus gigantes ou os vírus de algas, por exemplo. A compreensão desses seres é significativa, não só por sua aplicação biotecnológica e de controle biológico, mas também por significar um grande avanço na ciência evolutiva e dar cada vez mais evidências para as teorias genética e evolutiva mais aceitas atualmente.

Texto fonte: Barreat, J.G.N.; Katzourakis, A. (2022). Paleovirology of the DNA viruses of eukaryotes. Trends in Microbiology, v. 30, n. 3. DOI: https://doi.org/10.1016/j.tim.2021.07.004 , Acessado :09/04/2023


Legenda da imagem da capa: A figura mostra as eras e períodos em que a história da Terra está dividida. Nela, aparecem diversas linhagens virais atuais e a quando seu passado remonta. Os exemplares de vírus que foram encontrados em fósseis estão marcados com a linha listrada mostrando de quando era o fóssil em que o vírus foi encontrado.

Fonte: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0966842X21001645?via%3Dihub , Acessado :09/04/2023


Texto revisado por: Leticia Lopes e Alexandre Liparini.

Teriam as aves adquirido seu comportamento de  pré-eclosão  diretamente dos dinossauros?

Escrito em: 09 de abril de 2023

Por: Lucas Oliveira

Que as galinhas são um dos parentes mais próximos dos répteis pertencentes à era mesozoica, e que habitam a terra atualmente é conhecimento difundido. Uma das evidências a essa evolução são os comportamentos dos embriões pré-históricos serem semelhantes ao das aves.  

Essa hipótese de que o comportamento ser semelhante ao das aves atuais e ter sido originada/proveniente dos seus ancestrais terópodes, é sustentada pelo exemplar notavelmente preservado e com estruturas articuladas e uma ampla formação esquelética intacta guardada em um depósito no Sul da China, por 15 anos, até ser descoberto por um curador do Museu de história natural do País. Portanto, após extrair o fóssil de sua matriz rochosa, a qual estava datada em média 72 a 66 milhões de anos, foram convidados pesquisadores internacionais com o intuito de examinar o achado. Desse modo, os autores se depararam com um exemplar fóssil articulado de um feto “in-ovo”, pertencente aos Terópodes. 

Entre todos os fósseis de oviraptossauros pertencentes ao tempo geológico do Mesozoico, os pesquisadores elencaram esse espécime fóssil preservado como o melhor registro embrionário que se tem dos oviraptorídeos descobertos até então. Isso para dinossauros não-aviários, dado o quão difícil é preservar estruturas articuladas, uma vez que, quando um animal morre, se não for soterrado quase imediatamente, ele geralmente perde suas estruturas articuladas  (compostas por tecidos moles, que são rapidamente metabolizadas), e ainda pode acontecer o transporte de suas estruturas esqueléticas, sujeitas a intempérie do ambiente em que se encontram. 

Embora o exemplar encontrado com cerca de 27 cm de comprimento e batizado como “bebê de Yingliang” pelos pesquisadores, não é possível afirmar com exatidão o estágio de desenvolvimento do embrião. Os cientistas inferiram por meio da posição das vértebras e do próprio esqueleto, ou seja, do estudo da osteologia anatômica do oviraptorídeo, que ele se encontra em estágio avançado. Essa afirmação só é possível de se comprovar pois o esqueleto está quase completo, sem muita perturbação pós-morte, como relatam os paleontólogos no artigo. 

No intuito de se comprovar a hipótese abordada e debatida no artigo, de que os ovos de oviraptorídeos encontrados podem reforçar um comportamento de postura apresentado pelas aves modernas, é necessário realizar uma comparação do eixo e a forma como o embrião está localizado dentro do ovo, com as aves atualmente. No espécime descoberto, os autores utilizaram imagens geradas por meio de tomografia computadorizada e micro TC Contudo, é necessário reforçar que as imagens fornecidas por esse método são difíceis de serem geradas, uma vez que a composição que levaram a formação do espécime é rica em sedimentos como o ferro, um mineral de alta densidade, o que implica na dificuldade de interpretação do contraste apresentado entre o osso e a matriz.  

Nesse sentido, primeiro é preciso elucidar os pontos principais da eclosão das aves atuais para realizar uma comparação com o fóssil. O processo de dobramento é divido em três fases: pré-dobra, dobra e pós-dobra. Dessa forma, por meio de um comportamento único em seu dobramento, as aves fazem uma série de movimentos coordenados pelo sistema nervoso central para se preparar para o evento de eclosão.

Os embriões das aves que conhecemos hoje, no final da eclosão de seus ovos, realizam uma série de movimentos coordenados de dobramento e posições do corpo para se preparar para o evento de eclosão, sendo esse tipo comportamento exclusivo das aves conhecidas hoje em dia. Isso é importante, pois a postura dobrada de forma inadequada pode acarretar no insucesso da eclosão deste embrião, o que aumentará sua taxa de mortalidade.  

Nesse viés, muito do que sabemos hoje acerca da reprodução dos dinossauros bem como seu desenvolvimento embrionário e informações a respeito da morfologia, a cor do ovo e estrutura do ninho de postura, foram obtidas pelos poucos embriões “in-ovo” que foram preservados (no qual se tem registro), como o Bebê de Yingliang.

Texto fonte: Xing, L; Niu, K; Ma, W; Zelenitsky, D, K; Yang, T, R; Brusatte, S, L. (2021) An exquisitely preserved in-ovo theropod dinosaur embryo sheds light on avian-like prehatching postures. iScience, Massachusetts, United States, v. 25, n. 1, p. 163-167. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/357237659_An_exquisitely_preserved_in-ovo_theropod_dinosaur_embryo_sheds_light_on_avian-like_prehatching_postures> Acesso em: 21/07/2024.
Fonte e legenda da imagem da capa: Comparação da postura e  posição anatômica do fóssil  encontrado  denominado “YLSNHM01266”, e ave atual “domestic chicken” Gallus gallus. Fig. 1 do artigo. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/357237659_An_exquisitely_preserved_in-ovo_theropod_dinosaur_embryo_sheds_light_on_avian-like_prehatching_postures> Acesso em: 21/07/2024.


Texto revisado por: Luiza Leite e Alexandre Liparini.