Planta faz isso?

Escrito em: 02 de novembro de 2023

Texto escrito por: Larissa Ferreira

Atualmente, sabemos que as plantas desempenharam um papel crucial na preparação do ambiente terrestre. Elas foram responsáveis por contribuir para a produção de oxigênio na atmosfera e pela fixação de dióxido de carbono (CO₂), criando condições que permitiram a vida e a evolução dos nossos antepassados até os dias atuais.

Mas você sabia que existe uma área da paleontologia dedicada ao estudo de fósseis de organismos vegetais? Isso mesmo! É comum associarmos fósseis a dinossauros ou outros animais, mas as plantas também deixam registros fósseis igualmente importantes.

A paleobotânica é uma subdisciplina da paleontologia que combina conhecimentos de geologia e biologia para estudar os fósseis de organismos vegetais que habitaram nosso planeta há milhares ou até milhões de anos. A análise dos fósseis de plantas, junto com estudos morfológicos e moleculares, tem contribuído significativamente para a compreensão da evolução da vida, especialmente por meio da Teoria da Seleção Natural, proposta por Darwin.

Infelizmente, a paleobotânica é uma área ainda pouco conhecida e muitas vezes negligenciada, especialmente quando comparada aos estudos de fósseis de vertebrados, como os dinossauros.

Um exemplo importante no estudo de fósseis vegetais é a flora de Glossopteris, que fornece evidências de um período em que todos os continentes estavam unidos em um supercontinente chamado Pangeia. Além disso, as estruturas foliares dos fósseis vegetais têm um papel fundamental na reconstrução de mudanças climáticas ao longo do tempo. Por exemplo, a densidade dos estômatos em folhas fósseis é usada para estimar a concentração de CO₂ em diferentes períodos da história da Terra.

A paleobotânica trabalha de uma maneira que complementa a paleontologia, ajudando-nos a entender como a vida se desenvolveu e funcionou na Terra ao longo de milhões de anos. Ainda há muito a ser descoberto, à medida que os estudos nessa área avançam.

Palavras-chave: Paleobotânica, Fosseis vegetais, planta

Fonte e legenda da imagem de capa: Madeira fossilizada. Disponível em: https://www.assis.unesp.br/#!/departamentos/ciencias-biologicas/museu-cbi/acervo/fosseis/vegetal/

Texto fonte: MARQUES DE SOUZA, J. Paleobotânica: o que os fósseis vegetais revelam?. Cienc. Cult.,  São Paulo , v. 67, n. 4, p. 27-29,  Dec.  2015.

Disponível em: http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252015000400011

Texto revisado por: Vívian Camargos Pinto

Cocô fóssil: como o DNA mitocondrial encontrado em coprólitos pode ajudar a entender a megafauna Centro Europeia.

Escrito em: 02 de novembro de 2023

Por Heron Aníbal Pereira da Cruz

Cientistas estão utilizando coprólitos, os famosos cocôs fossilizados, para entender melhor o DNA de animais que compuseram a megafauna europeia do Pleistoceno, que abrange um período de 2,58 milhões de anos (Ma) a cerca de 11.700 anos atrás, é o que diz um artigo publicado pela royal society. Coprólitos de hienas-das-cavernas (Crocuta crocuta spelea) uma subespécie das hienas malhadas modernas (crocuta crotuta), no material coletado foram encontrados  mitogenomas (DNA mitocondrial) das próprias hienas, bem como de um de seus “lanches”, os rinocerontes-lanosos (Coelodonta antiquitatis), um dos maiores herbívoros da era glacial europeia que foram extintos há cerca de 10.000 anos.

Esta descoberta representa o primeiro registro genético desses rinocerontes em solo europeu, visto que, embora espécimes já tenham sido recuperados na Europa, o DNA desses animais só havia sido identificado em espécimes provenientes do permafrost siberiano, uma camada de gelo permanente.

Devido às condições climáticas desfavoráveis à preservação de DNA antigo (aDNA), a megafauna do Pleistoceno da Europa Central, carece de material genético dificultando as investigações sobre a evolução, diversificação e dispersão desses animais no continente. Até agora esta escassez trazia muita divergência e incertezas entre os cientistas. Portanto, os coprólitos se tornam uma valiosa fonte de informações sobre os predadores individuais e suas presas, conforme ressaltado pelos autores.

A falta de material genético para comparação levou a controvérsias em relação à filogenia do rinoceronte-lanoso europeu, com especulações sobre sua ancestralidade sendo de uma subespécie ou até mesmo de uma espécie distinta. No entanto, a descoberta desse primeiro mitogenoma em coprólitos permitirá uma investigação mais precisa dos possíveis trajetos percorridos pelo C. antiquitatis, desde sua origem no norte asiático há cerca de 2,5 milhões de anos, no início do Pleistoceno, até sua migração em direção à Europa.

Embora esta seja a primeira vez que material genético de rinoceronte-lanoso tenha sido coletado de um coprólito, os autores destacam a negligência em relação a muitos outros achados de material fóssil que também poderiam ser fontes de DNA antigo.

Texto fonte: Seeber P. A., Palmer Z., Schmidt A., Chagas A., Kitagawa K., Marinova-Wolff E., Tafelmaier Y. and Epp L. S. (2023). The first European woolly rhinoceros mitogenomes, retrieved from cave hyena coprolites, suggest long-term phylogeographic differentiation. Biol. Lett.1920230343. 20230343.

Disponível em: https://doi.org/10.1098/rsbl.2023.0343.

Fonte e legenda da imagem de capa: Figura1- Rinoceronte lanoso (Coelodonta antiquitatis).

Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Woolly_rhinoceros_(Coelodonta_antiquitatis)_-_Mauricio_Ant%C3%B3n.jpg?uselang=pt.

O Clima Esquentou para os Sauropodomorfos

Escrito em: 5 de novembro de 2023

Por: Bárbara Luísa Vieira da Silva

O clima desempenhou um papel significativo na evolução e expansão dos sauropodomorfos, dinossauros que habitaram na Terra durante os períodos Triássico e Jurássico. No início, quando os dinossauros eram raros e geograficamente restritos, o clado Sauropodomorpha ocupava ambientes climáticos mais limitados em comparação a outros grupos, como os dinossauros tetrápodes e não-sauropodomorfos. Eles preferiam habitats mais frios, caracterizados por temperaturas superficiais sazonais. Enquanto isso, os dinossauros tetrápodes ocupavam regiões mais amplas com climas quentes e baixa sazonalidade, lugares onde os sauropodomorfos estavam ausentes. 

No entanto, à medida que avançamos para o período Jurássico, esses habitats começaram a se sobrepor, permitindo que os sauropodomorfos se expandissem para áreas com climas variados, colonizando tanto regiões frias quanto quentes. Isso resultou em uma expansão significativa de sua extensão geográfica à medida que os dinossauros não-sauropodomorfos começaram a migrar para regiões com temperaturas mais frias e com maior sazonalidade. 

Essa mudança no comportamento dos Sauropodomorpha é importante para entender a evolução desses dinossauros. No Triássico, eles habitavam predominantemente ambientes mais frios, excluindo habitats mais quentes de baixa latitude, enquanto no Jurássico, optaram por áreas com climas mais quentes. Essa transição climática representou um marco evolutivo importante para os saurópodes.  

A expansão geográfica desses dinossauros foi possível graças à conservação das condições climáticas favoráveis em seu habitat durante a transição do Triássico para o Jurássico. Em contraste, outros grupos de dinossauros não tiveram a mesma sorte, já que seus ambientes e climas preferidos passaram por mudanças significativas. Durante esses períodos, os sauropodomorfos atingiram seu número máximo de indivíduos em regiões com temperaturas que variavam entre 40°C e 50°C. Isso demonstra claramente que a variação de temperatura desempenhou um papel fundamental na distribuição inicial dos dinossauros, com foco especial nos sauropodomorfos.

Texto fonte: Dunne, E. M. et al. (2023). Climatic controls on the ecological ascendancy of dinosaurs. Current Biology. V. 33. Pages 206-214.e4.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0960982222018942.

DOI: https://doi.org/10.1016/j.cub.2022.11.064.

Fonte e legenda da imagem de capa: Diferentes espécies de dinossauros em habitats diversos onde há variação climática.

Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/wp-content/uploads/sites/12/2022/11/221128081200-02-new-dwarf-dinosaur-species.jpg.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Um novo espécime de escorpião chicote (Arachnida: Thelyphonida) da Formação Crato, Cretáceo Inferior do Brasil.

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Escrito em: 06 de novembro de 2023

Por: Mateus de Melo Lima 

Os escorpiões-vinagre são aracnídeos diferentes que se assemelham a escorpiões, mas de certa forma são mais ‘’aparentados’’ às aranhas. Esses animais possuem pedipalpos (que são dois apêndices próximos à boca) robustos e um flagelo abdominal semelhante a um chicote. Esses animais são carnívoros e se alimentam de insetos, escorpiões e outros “bichos’’. Fósseis de escorpiões-vinagre são incrivelmente raros, e até agora, a Formação Crato na Bacia do Araripe, Brasil, havia fornecido apenas quatro exemplares. Entre esses, apenas uma espécie, Mesoproctus rowlandi, foi formalmente identificada.

A Formação Crato, na bacia do Araripe, é famosa por seus fósseis excepcionais de aracnídeos. Esses escorpiões-vinagre se destacam por seu tamanho relativamente grande em comparação com outros espécimes fósseis e são atribuídos ao gênero Mesoproctus, embora sua classificação taxonômica exata seja incerta. Nessa nova descoberta, pesquisadores descreveram um espécime anteriormente desconhecido dessa formação. Embora o fóssil não esteja perfeitamente preservado, é possível reconhecer nele características-chave que sugerem que pertence ao gênero Mesoproctus.

O prosoma do espécime (a seção frontal do corpo) e os pedipalpos são bem desenvolvidos enquanto as pernas são esguias, com o primeiro par se assemelhando a antenas. O opistossoma (seção traseira do corpo) é composto por vários segmentos, com um flagelo distintivo no final. O que torna essa descoberta ainda mais relevante é a presença de pulmões foliáceos no escorpião-vinagre fossilizado, esses pulmões foliáceos são uma estrutura respiratória crucial, e sua existência está sendo documentada pela primeira vez em um escorpião-vinagre fóssil, esse achado é muito importante para melhor entendimento sobre as adaptações respiratórias antigas desses aracnídeos.

 A Bacia do Araripe, onde esse fóssil foi encontrado, é conhecida por sua grande importância paleontológica. Dentro dela, onde é localizada a formação Crato, se situa um ambiente lacustre raso e hipersalino. Os fósseis nessa formação são extremamente bem preservados, tornando-a uma Lagerstätte, um local com uma abundância extraordinária de fósseis que se formaram em um conjunto de condições ambientais bem específicas.

Embora o novo espécime seja incompleto e sua classificação taxonômica exata possa ser debatida devido à sua preservação limitada, ele contribui para nossa compreensão da diversidade de escorpiões-vinagre pré-históricos, e até mesmo outros aracnídeos que ainda permanecem insuficientemente entendidos. Descobertas nessa formação única são essenciais para descobrir mais sobre a vida desses animais no mundo antigo.

Textos fonte: Gabrielle de Melo Alberto, Francisco Irineudo Bezerra, Alessandro Ponce de Leão Giupponi, Márcio Mendes (2023). A new specimen of whip scorpion (Arachnida; Thelyphonida) from the Crato Formation, Lower Cretaceous of Brazil. Revista Brasileira de Paleontologia, 26(3), 147–155. 147doi:10.4072/rbp.2023.3.01
Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/404/187

Fonte e legenda da imagem de capa:  Representante atual de Mastigoproctus maximus

Texto revisado por: Leticia Lopes e Alexandre Liparini.

Quem foi o verdadeiro culpado pela extinção da megafauna no fim do quaternário: O clima ou os humanos?

Escrito em: 28 de outubro de 2023

Por Izabela Souza

No final do Quaternário, período que abrange a última era do gelo, incluindo suas fases de máxima glacial e interglaciais, como a fase interglacial atual, ocorreram mudanças climáticas intensas que afetaram muitas espécies de mamíferos de grande porte, especialmente aquelas adaptadas a climas específicos. É surpreendente que essas mudanças climáticas não tenham causado extinções em massa, como ocorreu em transições anteriores entre períodos glaciais e interglaciais.

Para entender as extinções no final do Quaternário, precisamos analisar o papel dos seres humanos modernos. Embora antes estivessem restritos à África e partes da Ásia durante o último período interglacial, cerca de 120 mil anos atrás, os humanos se espalharam posteriormente para a Eurásia, Austrália e Américas. A presença humana introduziu um novo predador que caçou a megafauna adulta, resultando em impactos graves nas populações desses animais, afetando também a distribuição do tamanho corporal das comunidades de megafauna em todo o mundo.

Além disso, fatores como a resistência a doenças em populações humanas que habitavam áreas por muito tempo podem ter desempenhado um papel nas extinções. Análises estatísticas revelam que as mudanças climáticas, por si só, têm pouca ou nenhuma correlação com a gravidade das extinções em nível global. No entanto, quando observamos o momento da chegada dos humanos, a correlação entre variações de temperatura e extinções se mostra presente nas regiões onde os humanos chegaram mais cedo

Essas extinções representam a primeira transformação ambiental em escala planetária provocada pelo ser humano. Elas não se limitaram a áreas severamente afetadas pela presença humana, ocorrendo mesmo em áreas com menor influência humana. Assim, estudos reforçam a importância do papel do Homo sapiens nas extinções da megafauna, com pouca influência das mudanças climáticas, estendendo nossa compreensão dos impactos humanos no ambiente desde o Pleistoceno Superior.

Modelos demonstram que a migração humana prevê as extinções do final do Quaternário mais eficazmente que as mudanças climáticas. Embora o modelo baseado na distribuição Homo sugira menor extinção em áreas com mais hominídeos devido à coadaptação, um modelo baseado apenas na migração de H. sapiens apresentou correlações mais fortes, tornando a diferença entre eles difícil de determinar.

Essas descobertas fortalecem a ideia de que os humanos modernos tiveram um papel central nas extinções do final do Quaternário. No entanto, as explicações para a razão pela qual essas extinções ocorreram de maneira geograficamente escalonada podem variar, dependendo se consideramos a coadaptação entre hominídeos e megafauna, ou se nos concentramos em diferenças comportamentais entre populações humanas em expansão e sedentárias. Além disso, outros fatores, como tecnologia, cultura, doenças e características das espécies, podem ter contribuído para esse quadro complexo de extinções.

O modelo baseado no Homo se enquadraria na hipótese de coadaptação e embora um modelo baseado no H. sapiens pudesse funcionar na mesma premissa, o período relevante de coadaptação potencial seria muito mais curto, embora este modelo também pode ainda capturar efeitos de impactos Homo mais profundos. Considerações adicionais podem ser diferentes níveis de tecnologia por exemplo, desenvolvimento de um propulsor para lançamento e pontas de projéteis associados, construção de armadilhas para matar um grande número de animais de uma vez, especialidades culturais ou tabus, ou condições que afetam a densidade máxima de humanos modernos entre esses países, como doenças.

Também pode ser que as características das espécies associadas à vulnerabilidade à caça, como a rotatividade reprodutiva ou a mobilidade, não tenham sido distribuídas uniformemente, por exemplo, um grande número de preguiças terrestres de grande porte e movimentos lentos e tatus gigantes nas Américas.

Em resumo, o estudo do final do Quaternário destaca a influência significativa dos seres humanos modernos nas extinções da megafauna, com a migração humana sendo mais relevante do que as mudanças climáticas. Essas descobertas ampliam nosso entendimento sobre as complexas relações entre humanos e megafauna, enfatizando a necessidade de investigações adicionais para desvendar os mecanismos subjacentes a essas extinções e as interações entre espécies e o ambiente. Este estudo reforça o impacto duradouro das ações humanas em nosso planeta.

Textos fonte: Lemoine, Rhys Taylor, et al. “Megafauna Extinctions in the Late-Quaternary Are Linked to Human Range Expansion, Not Climate Change.” Anthropocene, vol. 44, no. Volume 44, December 2023, 100403, 1 Dec. 2023, p. 100403, https://doi.org/10.1016/j.ancene.2023.100403

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S221330542300036X

Fonte e legenda da imagem de capa: Paleoarte retratando um grupo de humanos frente a uma fonte de água e alguns animais ao fundo https://sae.museunacional.ufrj.br/museu-de-curiosidades-3/


Texto revisado por: Lucélio Batista e Alexandre Liparini.

Geomitologia: Fósseis, Rituais e Saberes Ancestrais no Sul da África

Escrito em: 20 de novembro de 2024

Por Lucas Rabelo de Vasconcellos

Quando pensamos em fósseis, é comum associá-los à paleontologia, geralmente com base no método científico. A forma como devemos analisar esses vestígios de outras eras é a ciência – essa é a noção amplamente compartilhada, quase inquestionável. Vivendo em uma sociedade ocidental, definida por visões de mundo eurocêntricas, é natural que associemos a natureza ao saber científico, pois é esse o meio mais frequentemente utilizado para explicar a realidade.

Como um legado da colonização e do imperialismo, as perspectivas europeias modernas se espalharam pelo mundo. No entanto, culturas indígenas, tanto antigas quanto atuais, que não foram influenciadas pela visão europeia, desenvolveram formas ricas de interpretar e interagir com o mundo. Essas perspectivas eram fundamentais para sua visão de mundo e podem ser, além de fascinantes, uma fonte de inspiração e aprendizado.

Hoje, existem algumas investigações sobre como culturas não-ocidentais abordavam e abordam elementos de estudo paleontológico e geológico, embora essas pesquisas ainda sejam relativamente escassas. Nesse contexto, destaca-se o sul do continente africano, que, mais do que qualquer outro lugar, teve sua geomitologia – o uso desses elementos no contexto cultural e de visão de mundo – especialmente negligenciada. Exemplos dessa geomitologia, embora extremamente interessantes, são raramente buscados e, quando encontrados, não recebem a atenção que merecem. Vamos explorar um pouco desse mundo?

Os chamados “abrigos rochosos” são relativamente comuns na África do Sul e em países vizinhos, e alguns deles revelam pistas sobre o passado humano. No município de Cederberg, por exemplo, próximo a um desses abrigos, foram encontrados cristais de quartzo, fragmentos minerais, ferramentas de pedra e, talvez o mais impressionante, um fóssil inconfundível de trilobita. Seria coincidência demais que um fóssil fosse encontrado ao lado de ferramentas humanas, especialmente considerando que o depósito fossilífero mais próximo está a 10 quilômetros de distância. Isso indica que os antigos habitantes da região reconheceram o fóssil como algo especial e admirável, e o coletaram por esse motivo. Outro fóssil de trilobita foi encontrado em condições semelhantes na reserva natural de Robberg, também na África do Sul, demonstrando que esse fenômeno não foi isolado. Fósseis eram vistos como objetos de encantamento, também, por povos africanos originários.

Além disso, há relatos de povos que não apenas achavam elementos naturais peculiares, dando-lhes valor e guardando-os, mas também os incorporavam em suas tradições. Os povos sãs, habitantes da região, formam diferentes etnias de caçadores-coletores, com diversas línguas e nações. O povo !Kung (cujo “!” representa um som de clique presente em sua língua, para o qual o alfabeto latino não possui letra) tem uma conexão fascinante com os fulguritos – tubos de vidro naturais formados pela fusão do quartzo na areia devido à incidência de raios. Esses objetos, chamados por eles de “dentes da chuva” ou “dentes do relâmpago”, são usados em rituais. Após coletados, geralmente sob árvores atingidas por raios, os fulguritos são despedaçados, adicionados a matéria vegetal e colocados em cornetas para chamar a chuva – provavelmente um ritual climático originado em um passado distante.

Outro exemplo fascinante é o da caverna Mokhali, em Lesoto, onde missionários encontraram e relataram arte rupestre contendo um desenho interpretado como uma pegada de dinossauro, ao lado da representação de três criaturas bípedes – provavelmente os imaginados donos das pegadas. Até aqui, pode parecer apenas uma interpretação fantasiosa, mas o interessante é que o vale próximo à caverna é repleto de trilhas fossilizadas de dinossauros, e em uma pedra próxima à caverna havia até material esquelético desses animais. O achado sugere que essas culturas não só tinham consciência de que o que viam eram rastros de seres vivos, mas também provavelmente sabiam que essas criaturas não mais existiam, e imaginavam como seriam.

O mais impressionante é que a ilustração dos dinossauros feita pelos sã é bizarra e surpreendentemente similar ao grupo de dinossauros que os paleontólogos atuais acreditam ter deixado muitas das pegadas da região – os Ornithopoda. Mais ainda, as primeiras reconstruções dos cientistas ocidentais erraram o que os sã já haviam acertado, provavelmente milênios antes: esses animais andavam sobre duas patas, e não sobre quatro.

É possível, até, que os sã tenham usado sua expertise como rastreadores (trackers) como inspiração para sua religião e cosmogonia – talvez investindo na crença de que os vestígios encontrados seriam de entidades espirituais acessadas por rituais xamânicos, ou de criaturas antigas de lenda e história. No folclore sã, há registro de um grande monstro pré-histórico, similar a um dragão no entendimento ocidental, chamado “Kholumolumo”. A besta, descrita como como “o devorador do mundo”, teria reinado sobre todas as outras criaturas do mundo durante tempos imemoriais. Hoje, como vestígios de sua antiga grandiosidade, restam suas pegadas e ossos transformados em pedra. Paleontólogos que visitam o Lesoto relatam que, ainda hoje, os habitantes locais, quando questionados sobre o que os cientistas estão procurando, dizem que eles estão em busca dos rastros de Kholumolumo – nome que, aliás, foi dado até a um gênero de dinossauros, em homenagem a esse ser do folclore local.

Esses exemplos demonstram que existem muitas maneiras diferentes de se relacionar com objetos tradicionalmente vistos como pertencentes à ciência, além das abordagens mais convencionais. Muitos povos antigos e tradicionais fazem isso. Portanto, é fundamental manter a mente aberta a diferentes interpretações e perspectivas que desafiem a dominância eurocêntrica ocidental, pois, além de interessantes e merecedoras de respeito por si só, elas podem ser verdadeiramente inspiradoras. A geomitologia no sul da África ainda tem muito a revelar, e com mais investimentos, cada vez mais descobertas podem ser feitas – descobertas que podem se tornar fontes legítimas de orgulho, celebração do patrimônio cultural e identidade, especialmente para esses países em processo de ressignificação identitária após um longo e doloroso período de dominação colonial.

Texto fonte: Helm, C. W.; Benoit, J.; Mayor, A.; Cawthra, H. C.; Penn-Clarke, C. R.; Rust, R. (2019). Interest in geological and palaeontological curiosities by southern African non-western societies: A review and perspectives for future study. Proceedings of the Geologists’ Association, v. 130, n. 5, p. 541–558. https://doi.org/10.1016/j.pgeola.2019.01.001

Fonte e legenda da imagem de capa: Arte rupestre em Sevilla após a aplicação do conjunto de ferramentas CPED (imagem cortesia de Kevin Crause). Fig. 12 do texto fonte. Disponível em <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S001678781930001X>, acesso em: 20/11/2024


Texto revisado por: Lucas Rabelo e Alexandre Liparini.

A Paleontologia e a Educação

Escrito em: 23 de outubro de 2023

Por: Celso Roza Sampaio

A Paleontologia, que estuda fósseis e vestígios de seres vivos do passado, é uma ciência essencial para entendermos a história da Terra. No entanto, seu ensino enfrenta desafios, especialmente na educação básica, devido à formação insuficiente de professores e à dificuldade dos alunos em compreender essa área do conhecimento.

A relevância da Paleontologia vai muito além de simplesmente “desenterrar ossos”. Ela oferece conhecimentos fundamentais para entendermos como o planeta e o meio ambiente evoluíram ao longo do tempo, incentivando uma reflexão crítica sobre a natureza e nossa relação com ela.

A Geografia tem um papel importante ao desenvolver o pensamento crítico e destacar a importância do uso sustentável dos recursos naturais. No contexto escolar, as aulas de Geografia, especialmente de Geografia Física, podem aproximar os alunos de conceitos geológicos. 

Integrar a Paleontologia às aulas de Geografia é uma proposta que vem ganhando espaço. O objetivo é envolver os alunos de forma mais dinâmica, promovendo a interação entre diferentes áreas do conhecimento e facilitando o aprendizado de conceitos geológicos.

Atividades práticas, como jogos e dinâmicas lúdicas, são estratégias eficazes para tornar o aprendizado mais envolvente e significativo. Ferramentas como analogias também são valiosas na Geologia, ajudando os alunos a compreenderem a ordem das camadas de rochas ao longo do tempo, mesmo quando não é possível determinar datas precisas.

Palavras-chave: Paleontologia, Geografia, Educação, Fósseis.

Texto fonte: Leite, M.G. 2020. PALEONTOLOGIA NA EDUCAÇÃO BÁSICA: uma perspectiva lúdica na abordagem de temas geológicos e paleontológicos no ensino de Geografia. Revista Acadêmica  Licencia & acturas. Graduação/Pós-graduação/Extensão v.8, n.2 jul/dez 2020.

Disponível em: https://ws2.institutoivoti.com.br/ojs/index.php/licenciaeacturas/article/view/182/190

Fonte e legenda da imagem de capa: Alunos em visita ao Alf Museum of Paleontology. Extraído de Alf Museum of Paleontology.

Texto revisado por: Vívian Camargos Pinto

Além da Proclamação da República: Colonialismo e a Luta pela Autonomia no Patrimônio Paleontológico Brasileiro

Escrito em: 15 de novembro de 2024

Por: Giulia Alves

Hoje, no Dia da Proclamação da República, refletimos sobre a verdadeira soberania que o Brasil ainda busca. Embora o país tenha se tornado uma República em 1889, algumas práticas coloniais ainda afetam áreas cruciais como a ciência, especialmente a paleontologia.

A soberania é um tópico central para entendermos esse desafio. O conceito de soberania evoluiu ao longo da história, moldado pelos contextos político e econômico de cada época. Neste contexto, entendemos soberania como o direito exclusivo e poder supremo de cada Estado sobre seus próprios recursos econômicos, políticos e científicos, sem interferência externa. Assim, a luta por soberania na paleontologia reflete esse princípio: o Brasil deve ter controle e poder decisório sobre seu patrimônio, assegurando que a ciência nacional avance de maneira autônoma e em benefício de sua sociedade.

O artigo “Digging deeper into colonial palaeontological practices in modern day Mexico and Brazil”, nos ajuda a entender como o Brasil ainda enfrenta desafios no controle de seu próprio patrimônio paleontológico, evidenciando como vestígios de um passado colonial continuam a influenciar nossa ciência.

Neste artigo, os autores exploram como, ao longo da história, fósseis e outros recursos científicos foram sistematicamente extraídos do Brasil e enviados para instituições estrangeiras. Esse processo, que pode parecer parte de uma colaboração científica internacional, na verdade, perpetua uma dinâmica colonial, onde o Brasil perde o controle sobre seu próprio patrimônio. Para os pesquisadores, essas práticas ainda são um reflexo da desigualdade histórica no campo da ciência, onde países mais desenvolvidos se apropriam dos recursos naturais e culturais de nações em desenvolvimento, como o Brasil.

Há de se destacar que essa retirada de material, muitas vezes, ocorre de maneira ilegal, desrespeitando as legislações brasileiras que visam proteger o patrimônio paleontológico. O tráfico de fósseis e outros recursos científicos contraria a legislação de proteção ao patrimônio, e muitas dessas peças acabam permanecendo fora do Brasil, longe do alcance de nossos pesquisadores.

A paleontologia brasileira, rica em fósseis e registros históricos, sofre com essa falta de soberania. A transferência de fósseis para outros países, sem o devido retorno ou benefícios para os cientistas brasileiros, impede que o Brasil tenha acesso integral a seu próprio patrimônio, limitando sua capacidade de avançar em pesquisas e desenvolvimento acadêmico. Essa dependência de cientistas e instituições estrangeiras enfraquece o campo científico nacional e torna o Brasil refém de uma estrutura global que ainda carrega vestígios de uma era colonial.

Nos últimos anos, um exemplo emblemático da extração indevida de fósseis brasileiros é o caso do dinossauro Ubirajara jubatus, removido do país sem autorização e levado para a Europa. Esse episódio evidenciou a vulnerabilidade do patrimônio paleontológico brasileiro diante da atuação de instituições estrangeiras. Apesar das leis nacionais e dos tratados internacionais, as medidas vigentes ainda são insuficientes para coibir a extração e apropriação indevida de fósseis em países em desenvolvimento. A recente repatriação do Ubirajara reforça a importância de medidas legais mais rígidas e de uma cooperação internacional genuína para proteger esses bens inestimáveis.

Esse cenário não é apenas uma questão científica, mas também política. A Proclamação da República não foi apenas uma mudança de regime, mas um símbolo do desejo de um Brasil mais independente, que pudesse decidir seu próprio futuro, sem interferências externas. No entanto, no campo da paleontologia, essa luta por autonomia ainda é necessária. A preservação do patrimônio paleontológico é essencial não apenas para a ciência, mas também para fortalecer a soberania intelectual do Brasil.

Embora existam esforços para melhorar a situação, o Brasil ainda carece de políticas robustas que protejam e promovam o uso responsável de seus recursos paleontológicos. A falta de uma legislação eficiente e de uma maior valorização da ciência nacional ainda são obstáculos a serem superados. Para que o Brasil se fortaleça cientificamente, é necessário que se faça uma verdadeira independência no campo do conhecimento, onde o país possa controlar e desenvolver sua própria ciência, sem a interferência de dinâmicas coloniais.

Assim, ao refletirmos sobre o Dia da Proclamação da República, é essencial compreender que a luta pela soberania não terminou em 1889. Ela continua hoje, o Brasil ainda enfrenta o desafio de proteger seu patrimônio científico e garantir que os recursos do país sejam usados de maneira justa e em benefício da nação.

Esse tema é especialmente relevante para todos nós, não apenas para os cientistas e pesquisadores, mas também para a sociedade em geral. A preservação do nosso patrimônio paleontológico e a construção de um futuro científico mais autônomo são essenciais para que o Brasil realmente alcance a independência plena. Mesmo no século XXI, o país ainda precisa lutar contra as práticas coloniais que limitam sua autonomia científica.

Se você quiser saber mais sobre as implicações do colonialismo científico e como ele afeta a paleontologia no Brasil, acesse o artigo completo abaixo

Texto fonte: CISNEROS, J. C. et al. Digging deeper into colonial palaeontological practices in modern day Mexico and Brazil. Royal Society Open Science, [S.L.], v. 9, n. 3, p. 01 – 32, mar. 2022

Disponível em:

https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rsos.210898

Fonte e legenda da imagem de capa: Arte simbólica utilizada na campanha de repatriação do dinossauro Ubirajara jubatus traficado para fora do Brasil – André Martins

Disponível em:

https://www.ufrn.br/en/press/features-and-knowledge/71341/o-retorno-de-ubirajara


Texto revisado por: Alexandre Liparini.

Reconstruindo a História da Tyto alba em Socotra 

Escrito em: 25 de outubro de 2023

Por: Kelly Santos

A maior ilha do Arquipélago de Socotra, que faz parte da República do Iêmen, encontra-se no extremo norte do Oceano Índico. Socotra é a maior ilha da Região e faz parte do Patrimônio Mundial da UNESCO por sua notável biodiversidade, é caracterizada por um alto grau de endemismo, resultado derivado de fatores geográficos e condições bioclimáticas exclusivas do local. A ilha é o lar de uma ampla variedade de vertebrados terrestres que incluem répteis, uma rica variedade de aves e algumas espécies de mamíferos. 

Na Caverna de Taiti, localizada no centro da Ilha de Socotra, foi encontrado um acúmulo de pelotas (restos não digeríveis de uma presa, que foram expelidos), regurgitadas possivelmente por uma coruja de médio porte em uma pequena duna presente numa cavidade central na caverna. Essas pelotas continham restos de vertebrados datados da época Holoceno, a qual nós vivemos, entretanto não muito recentes. Este achado é extremamente representativo ao contribuir para o entendimento da história ecológica da ilha. 

Os ossos nas pelotas das corujas foram encontrados tanto na superfície da duna como abaixo dela, alguns deles ainda capazes de serem reconhecidos como estruturas anatômicas específicas devido a pouca evidência de digestão. Essas pelotas evidenciam a presença de uma coruja de médio porte, levantando a hipótese de ser a Tyto alba, espécie conhecida popularmente como a coruja das torres, devido a seu comporte compatível com as evidências encontradas. Além disso, fora encontrado um fragmento de bico desta espécie em outra caverna presente na ilha, a caverna Hoq. Isto representa a primeira aparição paleontológica da Tyto alba na ilha e corrobora com a hipótese de que esta seria a responsável pelas pelotas regurgitadas presentes na Caverna de Taiti.

Texto fonte: RAMELLO, G. et al. (2023). Holocene vertebrate assemblages provide the first evidence for the presence of the barn owl (Tytonidae, Tyto alba) on Socotra Island (Yemen). Geobios, Elsevier.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0016699523000621?via%3Dihub.

DOI: https://doi.org/10.1016/j.geobios.2023.03.005.

Fonte e legenda da imagem de capa: Ilustração de uma Tyto Alba.

Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Barn_Owl,_Manchester_area,_UK,_by_Andy_Chilton_2016-07-06_(Unsplash).jpg.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

A cobra que previu o clima

Escrito em: 03 de novembro de 2023

Por Hanna Moara Ferreira de Souza

De acordo com as análises dos restos encontrados, as vértebras da Titanoboa são muito similares às de constritoras atuais, como jiboias e sucuris, porém são assustadoramente maiores. Para estimar o tamanho da espécie, os pesquisadores analisaram as vértebras encontradas, combinadas à região do corpo na qual se encontravam.

Desde muito tempo as cobras e serpentes encantam o imaginário popular, obras cinematográficas como Anaconda (1997) ou Anaconda 2: Em Busca da Orquídea Sangrenta (2004) povoam a imaginação dos espectadores, com cenas de ação extrema. Estrelando em representações grotescas e sanguinárias animais que conhecemos hoje como sucuris (gênero Eunectes). Em todo o mundo, existem quatro espécies de sucuris, sendo elas a sucuri-amarela (Eunectes notaeus), a sucuri-verde (Eunectes murinus), a sucuri-malhada (Eunectes deschauenseei) e a sucuri-da-Bolívia (Eunectes beniensis), das quais três são encontradas no Brasil. E se eu te disser que os filmes não estão tão errados assim? E se serpentes de proporções gigantescas realmente rastejaram pela Terra?  Essas cobras gigantes e monstruosas retratadas nos filmes já foram tão reais quanto eu e você!!

Apresento-lhes a Titanoboa cerrejonensis, a única espécie dentro do gênero Titanoboa, um réptil espetacular que rastejava pelas florestas tropicais da América do Sul e dominava o topo da cadeia alimentar. Datada de cerca de 60 milhões de anos atrás, na Época Paleoceno, esse animal atingiu proporções nunca antes relatadas em qualquer outra serpente, com cerca de 14 m de comprimento, 1 m de diâmetro e pesando cerca de 1,5 toneladas essa cobrona definitivamente botava medo em qualquer desavisado pelo caminho. Os primeiros registros fósseis desses animais foram encontrados durante uma expedição do pesquisador Jonathan Bloch, paleontólogo especialista em vertebrados da Universidade da Flórida, e por Carlos Jaramillo, paleobotânico do Smithsonian Tropical Research Institute, do Panamá, em 2009, na Formação Cerrejón, nas minas de carvão de Cerrejón, em La Guajira, Colômbia.

 Outra estimativa de extrema importância só se tornou possível graças à descoberta desta espécie. Com a descoberta e os estudos sobre a Titanoboa, sabe-se que elas eram animais ectotérmicos, popularmente conhecidos como “animais de sangue frio”, assim como as cobras atuais ela precisava absorver calor do ambiente para manter sua temperatura corporal. Mais do que isso, precisava do calor principalmente para manter seu metabolismo funcionando, permitindo ao animal realizar suas atividades principais: caçar e procriar.  Para permitir que atingissem proporções gigantescas e manter o pleno funcionamento de seus corpos gigantescos, o clima no período Paleoceno deveria ser significativamente mais quente do que o atual. Por meio de cálculos, os pesquisadores afirmam que a paleotemperatura média do local onde os fósseis foram encontrados era em torno de 30° a 34°, muito mais alta que as temperaturas atuais para essa região. Essa comparação indica que, evolutivamente, as maiores cobras atuais ainda são muito menores do que a Titanoboa, o que sugere uma possível relação entre temperaturas mais baixas e o menor tamanho corporal entre as serpentes.

Apesar de todas essas descobertas fascinantes, ainda falta muito a ser desvendado. O que se sabe sobre os hábitos, habitat, reprodução e alimentação desses animais, por meio de estudos e muita pesquisa, é que, possivelmente, a Titanoboa era um réptil semiaquático, que vivia em florestas tropicais e pântanos, e que poderia atingir aproximadamente 30 anos de idade. Além disso, durante a reprodução, as fêmeas poderiam gerar em torno de 80 filhotes, que já nasciam prontos para caçar. Em relação à alimentação, foi possível inferir, através de análises craniais, que elas se alimentavam de animais aquáticos igualmente grandes, como peixes, tartarugas e até crocodilos.

Texto fonte: Head, J., Bloch, J., Hastings, A. et al. (2009). Giant boid snake from the Palaeocene neotropics reveals hotter past equatorial temperatures. Nature 457, 715–717.

Disponível em: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/olhos-infravermelhos-e-ataque-fatal-5-curiosidades-sobre-as-gigantes-cobras-titanoboa.phtml.

DOI: https://doi.org/10.1038/nature07671.

Fonte e legenda da imagem de capa: Réplica em tamanho real da Titanoboa cerrejonensis na exposição “Titanoboa: Monster Snake”, no museu Smithsonian, em 2018.

Disponível em: https://www.smithsonianmag.com/science-nature/how-titanoboa-the-40-foot-long-snake-was-found-115791429/.

Texto revisado por: Damiane Mello, Sandro Ferreira e Alexandre Linparini.