Escrito em: 05 de maio de 2026
Por: Rebeca Luiza Alves Souza
Durante muito tempo, fósseis foram vistos apenas como restos petrificados, vestígios silenciosos do passado. Contudo, estudos recentes mostram que eles podem guardar informações invisíveis a olho nu, incluindo vestígios químicos e biológicos microscópicos. Nesse contexto, um estudo recente realizado em fósseis do Pleistoceno, incluindo dentes de Tayassu (porco-do-mato) e Smilodon populator (tigre-dente-de-sabre), coletados na caverna Toca de Cima do Pilão, próxima ao Parque Nacional Serra da Capivara, no semiárido brasileiro, investigou a presença de biomoléculas nesses dentes. Para isso, os cientistas utilizaram espectroscopia Raman, técnica que utiliza lasers para “ler” a vibração das moléculas e identificar sinais químicos de compostos orgânicos mesmo em fósseis muito antigos.
À primeira vista, essas biomoléculas poderiam ser confundidas com tecidos originais dos animais, como o colágeno. No entanto, a investigação revelou uma realidade muito mais curiosa: o que os pesquisadores detectaram não foram restos do animal, mas sim prováveis evidências de biofilme preservado na estrutura mineral do fóssil. Os pesquisadores demonstraram que, após a deposição dos fósseis na Toca de Cima do Pilão, colônias de bactérias e fungos se estabeleceram no material em busca de nutrientes, criando camadas biológicas microscópicas. Ao longo do tempo, esses microrganismos deixaram para trás polissacarídeos e hidrocarbonetos — moléculas orgânicas utilizadas como fonte de energia — que se “imprimiram” na estrutura mineral do dente. Esse processo é impulsionado pela dinâmica das cavernas tropicais, onde a escassez de recursos força microrganismos a colonizar qualquer material orgânico disponível, transformando o tecido fossilizado em um pequeno ecossistema.
Além disso, uma análise detalhada revelou que esses sinais estavam concentrados na superfície externa e associados a sedimentos avermelhados, sugerindo que a cor dos fósseis pode ser um indicativo dessa atividade biológica invisível. O curioso é que essa “invasão” biológica não segue uma regra de tempo: o estudo comprovou que a formação desses biofilmes não depende do tempo de soterramento, mas sim das condições ambientais específicas de cada local da caverna. Isso significa que um fóssil mais jovem pode ter mais “ruído” biológico do que um mais antigo, dependendo de onde esteve guardado.
Com efeito, esta pesquisa muda a forma como interpretamos biomoléculas em fósseis: nem todo sinal químico detectado indica restos orgânicos originais do animal. Compreender a formação e a degradação de biofilmes ajuda os paleontólogos a diferenciar sinais integrantes dos fósseis daqueles provenientes de microrganismos após a deposição, aumentando a precisão na reconstrução de processos biológicos e ambientais do passado. Por fim, ao estudar como esses biofilmes se degradam e se preservam, os cientistas também abrem portas para a astrobiologia. Portanto, se conseguimos identificar sinais de vida microscópica em fósseis de milhares de anos em ambientes extremos, como o semiárido brasileiro, essa mesma lógica pode ser aplicada na busca por assinaturas biológicas dentro e fora da Terra. Assim, os fósseis da Serra da Capivara deixam de ser apenas restos petrificados; eles são arquivos dinâmicos que continuam vivos, contando histórias que vão muito além do animal que os carregava.
Texto fonte: de Sousa, D.V., Maia, P.V.S., Eltink, E. et al. (2024). Biomolecules in Pleistocene fossils from tropical cave indicate fossil biofilm. Sci Rep 14, 21071. https://doi.org/10.1038/s41598-024-71313-6.
Disponível em: Biomolecules in Pleistocene fossils from tropical cave indicate fossil biofilm | Scientific Reports.
Fonte e legenda da imagem de capa: Carlos Souto/Wikimedia Commons. Formação rochosa localizada no Parque Nacional Serra da Capivara, região onde os fósseis analisados no estudo foram encontrados. O ambiente das cavernas favorece a ação de microrganismos e a formação de biofilmes nos fósseis.
Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Parque_Nacional_da_Serra_da_Capivara_Carlos_Souto_(08).jpg.
Texto revisado por: Natália F. F. Medeiros e Alexandre Liparini.