Fósseis de esponjas de estruturas vermiformes podem ser os registros mais antigos das primeiras formas de vida animal*

30 de junho de 2022

Por: Júlia Pinheiro de Assis Santos

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

De acordo com os registros fósseis, as primeiras formas de vida que surgiram na Terra eram organismos constituídos por apenas uma célula e foi a partir desses seres mais simples, juntamente com mudanças na composição da atmosfera, da flora e da fauna do planeta que outras formas de vida mais complexas, como os animais, se originaram e evoluíram ao longo de milhões de anos. Desse modo, os metazoários, mais conhecidos como animais, são os primeiros organismos multicelulares do planeta Terra e apresentam enorme diversidade, ocupando praticamente todos os nichos e são encontrados em todas as partes do globo.

Nesse sentido, com a ajuda da paleontologia, que é a ciência que estuda os seres vivos que viveram no passado através dos fósseis e demais vestígios deixados por eles, buscamos entender a história evolutiva não apenas da Terra, mas também dos diversos grupos de espécies. Dentre essas, estão os animais, grupo do qual nós seres humanos fazemos parte e, por isso, estudos acerca da sua origem e evolução são de muita importância, pois nos ajudam a compreender melhor qual o nosso lugar na árvore da vida.

Em um estudo realizado em 2021, a pesquisadora e geóloga Elizabeth C. Turner descobriu fósseis, em formações de recifes microbianos de Little Dal, no Canadá, de aproximadamente 890 milhões de anos, do período Neoproterozoico e que, possivelmente, seriam corpos de esponjas do mar. Esses animais são considerados as formas de vida mais primitivas entre os metazoários, com uma organização corporal simples sem tecidos verdadeiros, ausência de sistema nervoso e possuem o corpo todo recoberto por poros, os quais dão ao filo o nome de Porifera (dotado de poros). Contudo, com base em estudos anteriores, os fósseis mais antigos de esponjas seriam datados de cerca de 540 milhões de anos atrás, do período Cambriano.

Figura 1: Comparação da estrutura de ramificação encontrada nos fósseis de Little Dal (a e b) e a estrutura do esqueleto de uma esponja moderna (c). Extraída do artigo fonte. Barras de escala equivalentes a 0,5 mm (a), 0,05 mm (b) e 0,02 mm (c).

Os fósseis encontrados nos recifes de Little Dal possuem forma, tamanho e estilo de ramificação dos túbulos vermiformes, que se assemelham muito às redes de fibras de espongina (uma proteína) que compõem os esqueletos das esponjas Keratosas fósseis e das modernas. Se assemelham também quanto à sua microestrutura vermiforme, considerada como derivada de esponjas e diversos microrganismos fanerozoicos, formadores de rochas carbonáticas recifais e não recifais, e que estavam associadas a recifes construídos por cianobactérias fotossintetizadoras. Logo, isso explicaria o possível indício do surgimento mais antigo da vida metazoária, pois a maior quantidade de oxigênio na atmosfera proveniente da atividade fotossintética das cianobactérias teria permitido a sobrevivência e desenvolvimento das esponjas, antes mesmo do evento de oxigenação no Neoproterozoico, que é tido como o pontapé do surgimento das primeiras formas de vida animais. Além disso, a idade desses fósseis – 300 milhões de anos mais antigos do que os fósseis animais incontestados que se tem registro – pode indicar que esses organismos eram tolerantes a baixas quantidades de oxigênio, o que também é compatível com o comportamento de alguns fósseis de esponjas e de algumas esponjas modernas.

Portanto, caso os fósseis das supostas esponjas de Little Dal sejam aceitos como os mais antigos registros da vida animal, corroboraria com as hipóteses de que o surgimento evolutivo dos metazoários ocorreu de forma independente do evento de oxigenação do Neoproterozoico e que os animais mais primitivos sobreviveram aos períodos de glaciação que também ocorreram durante esse período. No entanto, o debate continua em aberto, sendo necessários mais estudos e mais dados que comprovem se os fósseis encontrados são realmente de esponjas ou se a busca pelo animal mais antigo que habitou a Terra ainda continua.

Artigo fonte: Turner, E.C. (2021). Possible poriferan body fossils in early Neoproterozoic microbial reefs. Nature, v. 596, p. 87–91. DOI: 10.1038/s41586-021-03773-z. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41586-021-03773-z. Acessado em: 21/09/2022

Fonte e legenda da imagem de capa: Esponja do mar. Autoria de: Peter Southwood. Extraída do site commons.wikimedia.org. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sponge_at_Bakoven_Rock_DSC11067.JPG. Acessada em: 21/09/2022.

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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