Escrito em: 06 de maio de 2026
Por: Mariana Requena Pavlovic
Você já se perguntou se é possível saber a cor de um dinossauro que viveu há milhões de anos? A resposta é sim! Em alguns casos, é possível saber informações sobre a coloração de um animal através de fósseis. Uma das formas de se fazer isso é identificar estruturas microscópicas que faziam parte das células produtoras de pigmentos desses animais, os melanossomos. Esses pequenos componentes celulares, que podem ser preservados no registro fóssil, ajudam os cientistas a reconstruírem os padrões de coloração desses animais. Em um estudo recente, pesquisadores analisaram a pele fossilizada de um dinossauro Diplodocus e encontraram dois tipos dessa estrutura, revelando que ele não era um simples gigante cinza como se pensava anteriormente.
Diplodocus é um gênero de dinossauro pertencente ao grupo dos Saurópodes, que compreende os grandes dinossauros herbívoros que viveram no período Jurássico Superior. Esses animais possuíam um longo pescoço e quatro pernas largas que sustentavam seu corpo. Nesse grupo estão incluídos os maiores animais terrestres que já existiram, dentre eles o famoso Argentinosaurus. Seu tamanho podia ultrapassar os trinta metros de comprimento e eles pesavam dezenas de toneladas.
Durante muito tempo acreditou-se que esses grandes animais apresentavam coloração cinza por meio de inferências dos cientistas, já que não havia nenhuma evidência de suas cores no registro fóssil. Essa ideia veio de uma comparação com os grandes animais existentes hoje, como os elefantes, rinocerontes e hipopótamos, que costumam ser cinzas e apresentar pouca variação de cor. Além disso, por serem répteis, eles também eram associados a lagartos e crocodilos, que possuem cores escuras e discretas, sendo esse mais um argumento que apoiava a hipótese de que esses animais eram cinzas e discretos.
Entretanto, uma nova descoberta colocou essas ideias em xeque: a identificação de melanossomos na epiderme, camada mais externa da pele, de exemplares de Diplodocus, revelou que eles apresentam uma aparência mais variada e complexa do que a que se acreditava anteriormente. Foram descobertas dois tipos dessa estrutura microscópica, sendo um tipo alongado e um tipo em forma de disco. O primeiro tipo possui formato semelhante a um bastão, comprido e semelhante aos melanossomos presentes em aves e em outros fósseis. A presença dessa estrutura indica presença de melanina, geralmente associada a tons escuros como preto e marrom. Isso indica que o Diplodocus tinha pigmentação, apesar de não ser possível determinar sua cor exata porque faltam evidências, como a presença de cromatóforos, células especializadas que produzem e controlam a cor na pele de diversos animais.
O segundo tipo, em forma de disco, se parece com estruturas associadas a efeitos especiais de cor como brilho e iridescência em aves, sugerindo que eles têm uma variação e diversidade de cor mais complexas do que o esperado. Além disso, a organização dos melanossomos em grupos ao longo da pele do animal e a presença dos dois tipos indica que sua coloração não era uniforme, podendo haver padrões como manchas e pontilhados.
A coloração do animal pode revelar diversos aspectos importantes da sua biologia. Um dos pontos levantados pelo artigo é que a presença desses melanossomos pode indicar um sistema de pigmentação mais complexo, semelhante ao de animais com metabolismo elevado, indicando que os saurópodes eram mais ativos que os outros répteis, porém isso foi apenas sugerido e não foi comprovado pelo estudo.
Assim, embora não seja possível determinar exatamente a cor do Diplodocus, evidências demonstram que esses animais estavam longe de ser uniformemente cinzentos como acreditava-se anteriormente. A descoberta dos melanossomos revela colorações e padrões complexos, revelando uma aparência mais diversa que a esperada para o grupo. Isso mostra como a tecnologia é uma aliada na descoberta de informações do passado, que antes eram inacessíveis e que os fósseis ainda têm muitos segredos escondidos a serem descobertos.
Texto fonte: ROSSI, V.; MCNAMARA, M. E. (2024). Fossil melanosomes and the reconstruction of dinosaur coloration. Trends in Ecology & Evolution, v. 39, n. 3, p. 210–222.
Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.tree.2024.01.002.
Fonte e legenda da imagem de capa: Representação de um saurópode encontrado no estado de Utah nos EUA. SMITHSONIAN NATIONAL MUSEUM OF NATURAL HISTORY. Reconstrução de saurópode.
Disponível em: https://www.mnh.si.edu/.
Texto revisado por: Luiza Brasileiro e Alexandre Liparini.