Engenheiros da Pré-História: Pesquisa revela “megatúneis” de tatus gigantes que resistiram ao tempo no Brasil

Escrito em: 27 de maio de 2026

Por: Maria Laura Costa Souto

Cientistas mapeiam túneis gigantes de mamíferos extintos no Sul e Sudeste do Brasil. Pesquisa revela detalhes surpreendentes sobre as “paleotocas” e “crotovinas”, galerias subterrâneas de dezenas de metros escavadas por antigos tatus gigantes há milhares de anos.

Uma equipe de pesquisadores brasileiros publicou um estudo revelador na Revista Brasileira de Paleontologia detalhando a descoberta e o mapeamento de impressionantes estruturas subterrâneas pré-históricas nos estados do Rio Grande do Sul e de São Paulo. Conhecidas no meio científico como paleotocas (quando estão desobstruídas e vazias) e crotovinas (quando foram preenchidas por sedimentos ao longo do tempo), essas estruturas são, na verdade, um tipo de icnofósseis, registros de atividades biológicas de organismos do passado. 

O trabalho, liderado pelos cientistas Francisco Sekiguchi Buchmann, Renato Pereira Lopes e Felipe Caron, investigou dezenas de estruturas expostas principalmente em barrancos e taludes à beira de rodovias. Ao todo, os cientistas registraram duas paleotocas e 24 crotovinas no Rio Grande do Sul, além de duas crotovinas no estado de São Paulo. 

O grande destaque da pesquisa foi o mapeamento de uma paleotoca monumental localizada no município de Cristal, no interior gaúcho, às margens da BR-116. Para conseguir explorar o local, os pesquisadores precisaram usar equipamentos pesados, como geradores e bombas submersas, para drenar a água acumulada, além de botes infláveis para o transporte do material de campo. A exploração revelou um túnel impressionante de 33 metros de comprimento (sendo que outros 30 metros haviam sido destruídos durante as obras da rodovia). O túnel tem largura média de 1,46 metro, altura de 0,90 metro e conta inclusive com “câmaras de giro”, que são espaços mais amplos e arredondados onde os animais podiam dar a volta dentro da própria morada. Como não foram encontrados ossos dos escavadores originais dentro dos túneis, o que é comum nesse tipo de registro, os cientistas atuaram como detetives da pré-história. A chave para desvendar os escavadores estava impressa nas paredes argilosas da toca de Cristal. 

Os pesquisadores identificaram dois tipos principais de marcas: 

1: Ranhuras curtas e profundas: Interpretados como as marcas deixadas pelas garras dos animais durante o processo de escavação. 

2: Cristas paralelas e longas: Marcas idênticas às impressões causadas pelo atrito da carapaça (os osteodermos) do animal contra as paredes enquanto ele se locomovia. 

A análise dessas impressões permitiu descartar as preguiças-gigantes e os gliptodontes (que possuíam placas dérmicas muito maiores). O tamanho milimétrico das marcas e o diâmetro do túnel levaram a equipe a concluir que o engenheiro por trás da obra foi um ancestral dos tatus, especificamente um animal da família dos dasipodídeos (como os gêneros extintos Propraopus ou Eutatus). 

A pesquisa também lançou luz sobre o comportamento da fauna preexistente. Em São José dos Ausentes (RS), uma das crotovinas analisadas apresentou o fenômeno de “crotovina dentro de crotovina”. Isso sugere que, após a morte ou o abandono do túnel pelo tatu gigante original, animais menores sucessivamente invadiram e reocuparam o local, escavando seus próprios pequenos túneis no sedimento macio que começava a entupir a estrutura. 

Quanto à idade dessas estruturas, os cientistas ainda buscam respostas precisas, mas já possuem um importante marco temporal. Uma das crotovinas foi encontrada no município de Viamão (RS) em depósitos de dunas antigas com cerca de 400 mil anos de idade, datação correspondente ao Pleistoceno Médio. Isto indica que estes animais escavadores estavam ativos no pleistoceno médio e que suas obras arquitetônicas conseguiram resistir de forma impressionante à ação do tempo, restando hoje como monumentos escondidos sob o solo brasileiro. 

Texto fonte: Buchmann, F.S.; Lopes, R.P.; Caron, F. (2009). Icnofósseis (paleotocas e crotovinas) atribuídos a mamíferos extintos no sudeste e sul do Brasil. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 12, n. 3, p. 247-256. Doi: 10.4072/rbp.2009.3.07. 

DOI: 10.4072/rbp.2009.3.07.

Disponível em: https://doi.org/10.4072/rbp.2009.3.07.

Fonte e legenda da imagem de capa: Detalhe da morfologia superficial interna de uma paleotoca/crotovina encontrada no Sul/Sudeste do Brasil. Esta imagem pertence ao acervo do Projeto Paleotocas, uma iniciativa de pesquisa científica pioneira no Brasil liderada pelo geólogo e paleontólogo Heinrich Theodor Frank, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Disponível em: https://www.ufrgs.br/paleotocas/Boletim.htm.


Texto revisado por: Ana Luísa Ferreira, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

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