Os “Krakens” da vida real: polvos gigantes dominavam os mares do cretáceo

Escrito em: 30 de abril de 2026

Texto escrito por: Laura Dias Bueno 

Revisão: Damiane Mello

Quem nunca ouviu a lenda sobre um animal mitológico e misterioso chamado Kraken, que afundava navios com seus tentáculos gigantes? Pesquisadores talvez tenham encontrado um animal muito semelhante a lenda, proveniente do Período Cretáceo há cerca de 100 milhões de anos. Um estudo publicado na revista Science revela que os primeiros polvos com nadadeiras foram, na verdade, predadores de topo, competindo com os maiores répteis marinhos da época.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores estudaram mandíbulas fossilizadas de duas espécies recém-classificadas: Nanaimoteuthis jeletzkyi e N. haggarti. As estruturas em questão estavam surpreendentemente bem preservadas. O tamanho das mandíbulas permitiu estimar o comprimento total desses animais: até 1,84 metros de comprimento do manto (o corpo principal) para a menor espécie, e até 4,43 metros para a maior. Quando se incluem os braços, esses polvos podiam atingir de 7 a 19 metros de comprimento total.

Porém, o que mais chamou a atenção dos cientistas foi o desgaste intenso nas mandíbulas. Marcas de lascados, arranhões e polimento indicam que esses polvos usavam suas bocas para triturar esqueletos duros de presas, como conchas e ossos. Ou seja, eram animais durófagos (especialistas em esmagar), algo raro entre invertebrados modernos. Além disso, o desgaste aparecia de forma assimétrica: um lado da mandíbula estava sempre mais gasto que o outro. Essa é uma evidência de comportamento lateralizado, como o nosso uso preferencial da mão direita ou esquerda, e sugere que esses polvos tinham um sistema nervoso complexo e elevada inteligência.

Para chegar a essas descobertas sobre o desgaste e o tamanho, os pesquisadores usaram uma combinação de métodos inovadores, incluindo o uso de Inteligência Artificial (IA). Eles revisitaram 15 mandíbulas fósseis já conhecidas e descobriram outras 12 por meio de uma técnica chamada “mineração digital de fósseis”. Essa tecnologia utiliza tomografia de alta resolução aplicada para analisar amostras de rochas que passaram pelo processo de moagem e um modelo de inteligência artificial com aprendizado zero-shot (zero-shot learning), desenvolvido especialmente para o estudo. O software de IA processou grandes volumes de imagens com precisão, revelando detalhes invisíveis a olho nu, como padrões de pigmentação e as marcas de desgaste nas mandíbulas. Com essas ferramentas, os cientistas também puderam entender melhor a evolução desses animais.

Outro ponto interessante é que esses animais não tinham concha externa protetora, ao contrário de muitos cefalópodes antigos. Eles se diversificaram amplamente após o Triássico Superior (entre 237 e 201 milhões de anos atrás), e uma das mais importantes é que perderam essa concha externa. Com um corpo mole e ágil, isso lhes permitiu desenvolver visão apurada e habilidades de caça sofisticadas. Essa combinação foi tão bem-sucedida que surgiu de forma convergente tanto em polvos gigantes quanto em vertebrados marinhos predadores.

A descoberta, por fim, também quebra um paradigma: durante os últimos 370 milhões de anos, grandes vertebrados dominaram o topo da cadeia alimentar marinha. Agora, sabemos que, no Cretáceo, invertebrados enormes e inteligentes ocuparam esse posto. Esses polvos dotados de nadadeiras cefálicas não eram monstros lendários, mas predadores reais, capazes de influenciar toda a estrutura dos ecossistemas oceânicos da época.

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