Microrganismos e Fossilização: como biofilmes ajudaram a preservar insetos do Cretáceo

Escrito em: 27 de outubro de 2025

Por: Thamires Nunes

A Formação Geológica La Cantera, localizada na província de San Luis, na Argentina, data do Cretáceo Inferior (145 a 100 milhões de anos atrás). Esse ambiente de transição, onde um rio desaguava em um lago, apresentava condições físicas e químicas singulares que possibilitaram a preservação de organismos delicados, como insetos.

Nas rochas da formação, foram observadas estruturas rugosas formadas por comunidades de microrganismos, além de fendas subaquáticas e estruturas reniformes (em forma de rim). Esses indícios sugerem a antiga presença de tapetes microbianos, compostos por bactérias, fungos e algas. Apesar de não existirem evidências diretas dessas estruturas sobre os fósseis, pesquisadores propuseram que a boa preservação dos insetos poderia estar relacionada à ação de biofilmes microbianos, finas camadas de microrganismos que se aderem a superfícies e produzem uma película protetora formada por açúcares e proteínas, retardando a decomposição e favorecendo a mineralização dos tecidos moles. Segundo o estudo, a formação de um “sarcófago microbiano” ao redor do corpo do inseto poderia preservar com alta fidelidade sua morfologia original.

Datadas do Cretáceo, várias espécies de insetos já foram registradas em locais como Las Hoyas (Espanha) e a Formação Crato (Brasil), sendo relativamente escassos os fósseis de insetos preservados dessa maneira, em outras partes do mundo. Na Formação La Cantera, destacam-se fósseis de besouros, vespas, formigas e percevejos, sendo estes últimos os mais abundantes. A excelente preservação desses insetos motivou experimentos para compreender o papel dos biofilmes nesse processo que resultou na conservação desses ricos vestígios paleoentomológicos.

Nesses experimentos utilizaram percevejos aquáticos coletados nas margens do rio El Volcán (Argentina), escolhidos por sua proximidade evolutiva com os fósseis de La Cantera. Foram testados cinco tratamentos, variando o uso de algicidas, antibióticos e fungicidas, com o objetivo de avaliar quais condições favoreciam a formação dos biofilmes e retardavam a decomposição.

Os resultados mostraram que os biofilmes se formaram em todos os tratamentos, envolvendo diferentes microrganismos: fungos (Aspergillus niger e Zygomycota), algas (diatomáceas e Zygnematales) e bactérias (Enterobacteriaceae e Staphylococcaceae). As condições físicas e químicas não influenciaram diretamente o desenvolvimento microbiano durante o experimento. Os tratamentos com maior crescimento de fungos e algas mostraram melhor preservação dos corpos, atuando como barreiras protetoras que impediram a desarticulação dos insetos. Outra hipótese é que a inibição das bactérias tenha ajudado a manter a integridade morfológica dos espécimes.

Esse estudo reforça a importância das comunidades microbianas na preservação de organismos aquáticos, indicando que tapetes formados por algas e fungos podem ter desempenhado um papel essencial na fossilização dos insetos da Formação La Cantera. A comparação com a Formação Crato, no Brasil, onde biofilmes bacterianos contribuíram para a mineralização de tecidos moles, mostra que diferentes grupos de microrganismos podem atuar de formas complementares na conservação dos fósseis. O estudo evidencia, assim, como a interação entre microrganismos e ambiente é fundamental para compreender os processos que permitiram a preservação da vida no passado.

Texto fonte: Mancuso, A. C.; Sierra, M.; Escalona, E. L. B.; Arcucci, A. (2024). Revealing microbial components in biofilm on aquatic insect cadavers: an experimental taphonomic study. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 27, n. 1.

Disponível em:  https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/351.

Fonte e legenda da imagem de capa: A imagem mostra um percevejo, organismo-modelo do estudo ao qual se refere o artigo, em uma formação rochosa envolto por microrganismos formadores de biofilme que atuam na proteção contra a degradação rápida do organismo e favorece seu processo de fossilização.

Disponível em:  Imagem gerada por inteligência artificial.


Texto revisado por: Daniel dos Santos Araújo e AlexandreLiparini.

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