Escrito em: 27 de outubro de 2025
Por: Isabela Novais Miranda de Almeida
Muitas vezes, quando pensamos em paleontologia, lembramos apenas dos museus e de seus grandes fósseis de dinossauros, mamíferos e até mesmo de plantas. Entretanto, essa é uma área que não se limita aos organismos macroscópicos. Os microfósseis existem e são objeto de estudo da micropaleontologia. Eles podem ser organismos inteiros ou partes deles que foram fossilizados e possuem tamanho microscópico, sendo invisíveis a olho nu.
O trabalho do pesquisador brasileiro Matheus Denezine e colaboradores, publicado em 2024 no “Journal of Paleontology”, investigou microfósseis orgânicos encontrados na Formação Sete Lagoas, no norte de Minas Gerais, revelando detalhes sobre a vida microscópica que existia há milhões de anos.
Esses fósseis foram identificados em rochas formadas em antigos mares rasos que cobriam a região durante o período geológico Ediacarano, há cerca de 550 milhões de anos. Uma equipe internacional de pesquisadores analisou amostras dessas rochas sob o microscópio e realizou testes químicos para entender sua composição e idade. O resultado foi a descoberta de sete espécies diferentes de microorganismos, entre eles cianobactérias e acritarcas (um grupo taxonômico informal de microrganismos com organização celular eucariótica) incluindo Siphonophycus robustum, Leiosphaeridia crassa e Germinosphaera bispinosa. A maior novidade do estudo foi a descrição de uma nova espécie, batizada de Ghoshia januariensis, em homenagem à cidade de Januária (MG).
A partir das análises, os cientistas concluíram que a presença e a distribuição desses microfósseis estão relacionadas a um ambiente marinho calmo e bem iluminado, ideal para a proliferação de organismos fotossintetizantes. No entanto, as camadas superiores da formação mostram sinais de mudança: apenas a nova espécie foi encontrada, indicando possíveis variações na salinidade e na oxigenação dos oceanos. Esses dados ajudam os pesquisadores a reconstruir o clima e as condições ambientais de um tempo em que os primeiros seres multicelulares estavam surgindo.
Esse trabalho é de extrema importância por dar maior visibilidade ao patrimônio fossilífero brasileiro, evidenciando a necessidade de se preservar e conservar os sítios geológicos, sobretudo das grandes bacias do território nacional. Além disso, o estudo de fósseis microscópicos como esses contribui para compreender como o planeta reagiu às mudanças ambientais do passado, tema cada vez mais relevante diante das transformações climáticas atuais.
Texto fonte: Denezine, M.; Carmo, D. A.; Xiao, S.; Tang, Q.; Sergeev, V.; Mazoni, A. F.; Zabini, C. (2024). Organic-walled microfossils from the Ediacaran Sete Lagoas Formation, Bambuí Group, Southeast Brazil: taxonomic and biostratigraphic analyses. Journal of Paleontology, v. 98, n. 2, p. 287–306. DOI: 10.1017/jpa.2023.78.
Disponível em: https://doi.org/10.1017/jpa.2023.78.
Fonte e legenda da imagem de capa: Microfotografias ópticas mostrando filamentos do microfóssil Ghoshia januariensis. As imagens exibem estruturas alongadas e segmentadas em diferentes condições de luz e aumento. As células aparecem organizadas em série, o que é característica típica de cianobactérias filamentosas.
Disponível em: https://doi.org/10.1017/jpa.2023.78.
Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e AlexandreLiparini.