A Conexão entre um Pequeno Dente e uma Preguiça-gigante

Escrito em: 30 de março de 2026

Por: Henrique Tosta Hernandez

Em 2023, cientistas brasileiros estudavam um fóssil de dente que havia sido encontrado anos antes no interior do Sergipe, quando se depararam com um problema: não havia identificação sobre a qual espécie de preguiça-gigante o fóssil pertencia. Sem essa resposta, eles não tinham como prosseguir com estudos sobre o dente. Assim, os cientistas se viram com a missão de classificar tal fóssil, mas, como fazer isso? 

O último paleontólogo que havia estudado aquele dente, conseguiu classificar o achado como pertencente a um animal da subfamília Mylodontinae, mas isso ainda abria portas para, no mínimo, 3 espécies de preguiça-gigante: Glossotherium phoenesis, Mylodonopsis ibseni e Ocnotherium giganteum. Além disso, essas 3 espécies, todas já extintas, viviam na mesma região e numa mesma época (Pleistoceno Tardio, entre 129 mil e 11 mil anos atrás), e se alimentavam de coisas parecidas. Com tantas semelhanças, de que forma os cientistas poderiam descobrir o verdadeiro dono daquele dente? Dadas as situações, restava apenas uma característica que poderia diferenciar esses 3 animais: o tamanho dos dentes. Então, os pesquisadores buscaram as medidas dos diâmetros dos dentes dessas 3 espécies e compararam-nas. 

Para isso, foi necessária muita pesquisa, interpretação de dados e a criação de uma tabela e um gráfico. Com 19,6 mm de diâmetro mesodistal (face relacionada ao plano sagital) e 14,0 mm de diâmetro vestíbulo-lingual (faces dentárias voltadas para a bochecha e a língua, respectivamente), o fóssil misterioso era pequeno demais para ter pertencido a G. phoenesis. Além disso, ele era muito grande para ter sido da mandíbula superior e muito pequeno para a mandíbula inferior de O. giganteum. Dessa forma, restava apenas M. ibseni. E eles acertaram! Os cientistas puderam provar que o dono daquele fóssil foi uma preguiça-gigante da espécie Mylodonopis ibseni, mais especificamente, um dente do tipo molariforme, da mandíbula inferior, de um indivíduo juvenil. 

Esse foi o primeiro registro feito da presença desse animal no Sergipe, o que abre portas para futuras pesquisas: em quais outros estados brasileiros ela viveu? Quantas vezes ela comia por dia? O quão parecida ela era com os bichos-preguiça que existem hoje? Essas e outras perguntas só serão respondidas por completo com o avanço das pesquisas paleontológicas no Brasil.

Texto fonte: DANTAS, Mário André Trindade; FRANÇA, Lucas de Melo; SOARES, Alexia David Santos; VIEIRA, Fabiana Silva. (2024). New Record of the Giant Ground Sloth Mylodonopsis ibseni Cartelle, 1991 in the Late Pleistocene of Brazilian Intertropical Region. Anuário do Instituto de Geociências – UFRJ 47.

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/386748877_New_Record_of_the_Giant_Ground_Sloth_Mylodonopsis_ibseni_Cartelle_1991_in_the_Late_Pleistocene_of_Brazilian_Intertropical_Region.

Fonte e legenda da imagem de capa: Litografia de crânio de Mylodonopsis sp. por Johannes Theodor Reinhardt.

Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mylodon_skull.jpg.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

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