Escrito em: 29 de março de 2024
Por: Matheus H. Lopes de Souza
A paleopatologia é a ciência responsável por identificar e estudar as enfermidades presentes nos fósseis e, por isso, possui grande importância para descobrirmos um pouco sobre a saúde e o ambiente dos seres vivos do passado. Nos últimos anos, a paleopatologia tem se desenvolvido bastante, especialmente com os estudos de grandes mamíferos do Pleistoceno, período datado entre 2,58 milhões e 11,7 mil anos, conhecido pela megafauna (conjunto de animais de grande porte que conviveram com a espécie humana) e pela última Era do Gelo (resfriamento do planeta devido a diversas glaciações).
No entanto, esses registros e estudos ainda são escassos, e a grande maioria é voltada para os Xenartros, uma superordem de mamíferos placentários. Dificilmente são encontrados registros de indivíduos da ordem Carnivora, como os Smilodon, um gênero extinto de felídeos da subfamília Machairodontinae, também conhecido como tigre-dente-de-sabre. Esse gênero inclui várias espécies, sendo uma delas Smilodon populator, na qual poucos indivíduos apresentam patologia óssea.
Felizmente, pesquisadores registraram um fóssil de Smilodon populator, que consiste em um metacarpo IV esquerdo isolado, no qual o indivíduo possivelmente pode ter desenvolvido uma lesão inflamatória. Algumas análises revelaram que a lesão poderia se tratar de uma osteomielite crônica, tornando este o primeiro registro de processo infeccioso nesse grande predador. Esse indivíduo viveu no Pleistoceno Superior e foi encontrado no Nordeste da Argentina, mais precisamente em Arroyo Toropí, nos afloramentos da Formação Toropí/Yupoí, uma região caracterizada por apresentar areia fina maciça, além de variações de sedimentos e argilas arenosas. Esse local pode ter sido uma grande planície alagada que fazia parte de um sistema fluvial.
Para identificar a taxonomia do indivíduo, o material em estudo foi comparado com fósseis de outros felídeos que habitavam a região no Pleistoceno. Os materiais de comparação foram de Smilodon populator, a única espécie do gênero registrada na Argentina, Panthera onca e Puma concolor, todos pertencentes ao Museo Argentino de Ciencias Naturales “Bernardino Rivadavia”. Por meio da comparação, foi possível concluir que o material apresenta várias diferenças em relação aos demais felídeos. Além disso, foram observadas características diagnósticas para o gênero Smilodon.
Com base nas análises macroscópicas, foi possível deduzir que esse indivíduo passou por um processo no qual uma reação inflamatória crônica do periósteo, a camada externa do osso, resultou na deposição de novo osso. Isso levou ao aumento das camadas dessa região e ao espessamento da camada cortical do osso, que é a camada mais externa e densa. Em resumo, o espessamento ósseo é maior em comparação com outros grandes felídeos devido à deposição óssea em certos locais do material. Além disso, também pode ser identificado um possível nódulo e tecidos moles associados.
Esses dados indicam osteomielite crônica, um processo infeccioso resultante de lesões penetrantes ou infecções de tecidos moles. Consequentemente, essas lesões teriam afetado a capacidade de caça do animal. A osteomielite em grandes predadores geralmente resulta de lesões traumáticas durante a caça. A presença dessas lesões indica um estilo de vida dependente da mobilidade dos membros anteriores, com o Smilodon utilizando-os para capturar presas. Embora as lesões possam comprometer a capacidade de caça, elas não costumam ser fatais, e outros grandes predadores, como leões, podem sobreviver a lesões semelhantes.
Texto fonte: LUNA, Carlos A. et al. Osteomyelitis in the manus of Smilodon populator (Felidae, Machairodontinae) from the Late Pleistocene of South America. Palaeoworld, 2023.
Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1871174X23000471#f0015.
Acesso em: 23 de fevereiro de 2026.
Fonte e legenda da imagem de capa: Material encontrado, trata-se de um metacarpo IV esquerdo isolado de Smilodon populator.
Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1871174X23000471#f0015.
Texto revisado por: Giulia Alves e Alexandre Liparini.