Escrito em: 27 de outubro de 2025
Por: Vinícius Delgado
Os ”golfinhos dos rios” fazem parte de uma subordem de animais chamada de Odontocetos, pelo fato de apresentarem dentes, diferentemente da ordem ao qual pertencem denominada Cetáceos (que possuem algumas espécies de baleia como exemplares). Existem quatro grupos que constituem tais animais e três desses são exclusivamente de água doce. Dentre esses três, os golfinhos baiji que habitavam o rio Yang-Tsé estão extintos, atualmente restando apenas representantes vivos de dois grupos que serão abordados no texto de hoje.
A família Platanistidae consiste nos golfinhos de rio do sul da Ásia e o estudo de sua evolução é extremamente difícil por conta de seu registro fóssil ser insuficiente para a demanda, é algo complexo com várias lacunas que não estão preenchidas. Os botos-cor-de-rosa constituem a família Iniidae mas não são eles que vão receber os holofotes também. Milhões de anos atrás, a Amazônia era o lar de um golfinho gigante, o Pebanista yacuruna, o maior de água doce já encontrado. Mas o que mais intriga os cientistas não é o seu tamanho, e sim de onde ele veio: seus parentes vivos mais próximos estão na Ásia, sendo justamente os platanistídeos (exemplares da família Platanistidae) mencionados anteriormente! Como este golfinho encontrado no continente sul-americano pode estar ligado a espécies do outro lado do mundo?
Essa descoberta foi realizada por meio de programas computacionais que são capazes de comparar características similares provenientes de um ancestral em comum entre as espécies de golfinhos de rio que existem e que já foram extintas com base em um registro preestabelecido, como por exemplo uma forte assimetria na região facial encontrada tanto em Pebanista como em outros platanistídeos. Dessa forma, com esse levantamento, os cientistas conseguem traçar até mesmo práticas que exemplificam a semelhança entre o fóssil e o comportamento dos platanistídeos hoje, como os dentes alargados associados com o focinho forte e largo e as inserções musculares bem desenvolvidas no crânio, sugerindo uma atividade de caça ativa e voraz para captura de alimento. Algo comum entre os integrantes desse grupo.
Além disso, é importante ressaltar que estamos tratando da maior espécie de golfinhos de água-doce encontrada equiparando-se em tamanho com os platanistídeos marinhos, hoje extintos. A estimação do tamanho do comprimento do Pebanista ocorreu por meio de cálculos que usaram os valores da largura máxima do rosto e reconstruíram seu tamanho com ressalvas de 2,81 a 3,47 metros, o que é muito maior que o tamanho de golfinhos de rios de hoje em dia, que têm um máximo de 2,5 metros.
Sob essa visão é essencial pensar que o Pebanista yacuruna apresenta características de uma espécie que realizou essa transição do habitat marinho para o ambiente de água-doce, o que de acordo com a datação do fóssil identificado justifica a presença desse organismo no sistema de bacias andino do continente sul-americano antes da invasão de ambientes de água-doce pela linhagem dos botos-cor-de-rosa, membros da família Iniidae. Essa colonização da linhagem do Pebanista que hoje é similar aos platanistídeos do Sul da Ásia, permite compreender a diversificação do ambiente Amazônico. A espécie se desenvolveu nessa bacia entre 16 e 11 milhões de anos, na época que a região da proto-Amazônia (a antiga Amazônia) conseguia suprir as demandas dessa espécie. A diversidade e abundância de recursos, um verdadeiro berçário de vida, promoveram que a linhagem marinha do Pebanista evoluísse para o gigante de água doce. Com o tempo, essa espécie se extinguiu, abrindo espaço para o surgimento do nosso boto-cor-de-rosa, que conhecemos hoje.
Texto fonte: Benites-Palomino. A.; Aguirre-Fernández. G.; Baby. P.; Ochoa. D.; Altamirano. A.; Flynn. J. J.; Sánchez-Villagra. R. M.; Muizon. C.; Salas-Gismondi. R.; Tejada. J.V. (2024). The largest freshwater odontocete: A South Asian river dolphin relative from the proto-Amazonia. Science Advances, [S. l.], v. 10, n. 12, p. eadk6320, DOI: 10.1126/sciadv.adk6320.
Disponível em: https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.adk6320.
DOI: 10.1126/sciadv.adk6320.
Fonte e legenda da imagem de capa: Representação realista do Pebanista yacuruna em ambiente aquático com base nos fósseis datados do fim do Mioceno Inferior (há cerca de 16,5 milhões de anos) e encontrados na região de Loreto no percurso do rio Napo, no Peru.
Disponível em: https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.adk6320.
Texto revisado por: Vinícius Delgado, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.