Um Estudo de Robert K. Carr: “Paleoecology of Dunkleosteus terrelli (PLACODERMI: ARTHRODIRA)”

Escrito em: 04 de abril de 2024

Por: Cristiano F. Filho

Introdução

Dunkleosteus terrelli é um grande Arthrodira, ordem extinta de peixes “blindados”, é também o fóssil vertebrado numericamente predominante do período Devoniano tardio — aproximadamente 382,7 milhões de anos —, além de ser um dos melhores membros da fauna Famenniana descritos. Em sessão cruzada, tem forma oval e possui um esqueleto dérmico bem desenvolvido, com ossos individuais chegando até 7,5 centímetros de largura ao longo do espessamento lateral e occipital de sua cabeça. A criatura, participante do Devoniano tardio, período limitado pela pouca diversidade de espécies, é uma das poucas espécies da fauna Famenniana, o que gerou imprecisões em seu estudo, visto que na paleoecologia, é deveras comum a utilização de analogias entre faunas com altas taxas de similaridades, dessa forma gerou várias confusões até o momento, já que tais analogias geralmente envolvem a comparação de fácies — conjunto de rochas com características distintas — e composições de fauna dissimilares, exatamente o que foi analisado no estudo de Robert K. Carr.

História Fóssil

Historicamente, a maioria dos placodermos foram vistos como organismos bênticos obrigatórios, que ingressavam às colunas de água somente para se alimentar, o que sugere que a presença das carcaças na bacia com baixa diversidade representa um acúmulo de restos originados de comunidades bênticas estabelecidas nas regiões aeradas rasas da bacia. Para os Dunkleosteus, essa afirmação é inválida, já que, através da análise da distribuição de seus elementos na Bacia Appalachian, foi descoberto que seus ossos se separaram relativamente cedo no processo de desarticulação, que teoricamente, geraria acumulação próxima ao local da morte. Ademais, os fósseis do Dunkleosteus evidenciam, além do supracitado, estimativas de peso, que os categorizam como organismos pelágicos, já que sugerem que, além de serem incapazes de descansar no fundo do oceano, devido às suas propriedades sedimentares, eles apresentavam um mecanismo de flutuação estática.

Paleoecologia do Dunkleosteus

Na paleoecologia, é impossível analisar um contexto sem estudar a região que o abrange. Dito isso, sabe-se que os espécimes de Dunkleosteus estudados foram encontrados na região de Ohio, Cleveland, em meio à Ohio Shale, uma formação geológica do tipo xisto preto. Tais formações são indícios de bacias anóxicas, e vários fatores contribuem para diversas hipóteses relacionadas aos seus desenvolvimentos, incluindo: quantidade mínima ou completa falta de oxigênio; presença de sulfeto de hidrogênio, representando uma potencial toxina; um substrato instável composto de sedimentos finos com alta porosidade; profundidades com pouca luz ou abaixo da zona fótica; e falta ou limitação de icnofóssil e bioturbação. Os efeitos combinados dos primeiros quatro fatores apresentados, claramente impactam o potencial estabelecimento de comunidades bentônicas. Desse modo, à partir da avaliação da distribuição paleogeográfica do Dunkleosteus terrelli gera-se duas possíveis hipóteses: D. terrelli viveu, morreu, e foi preservado em meio à bacia; ou, D. terrelli viveu e morreu em outro lugar, mas foi transportado para a bacia, onde foi preservado. 

Os restos de Dunkleosteus terrelli descobertos no Cleveland Member são geralmente desarticulados e possuem diversos pedaços desaparecidos, vide os elementos gnatais inferiores e superiores dos arthodiras. Para isso, existem três possíveis culpados: flutuação, catação, ou transporte por correntes. Porém, na Bacia Appalachian, os dois últimos mecanismos têm pouca influência nos restos orgânicos depois de se assentarem no fundo, e outros mecanismos propostos para responsabilizar a anoxia e a deposição dos xistos pretos necessitam de um ambiente mais profundo. Ademais, um ambiente anóxico faria com que o fundo fosse insustentável para catadores macroscópicos, no entanto, ainda não exclui a possibilidade de catação à partir da flutuação de carcaças em meio à coluna de água. Outrossim, a presença de um hábitat de fundo insalubre é sustentada em parte pela falta de bioturbação e icnofósseis. Em outro ponto, o tamanho dos grãos finos dos sedimentos do Cleveland Member sugerem um ambiente deposicional de baixa energia, além da falta de correntes o suficiente para mover os fósseis relativamente grandes do Dunkleosteus terrelli. Além disso, não existem estruturas sedimentares que sugerem a presença de correntes profundas fortes na região. Dito isso, a flutuação continua sendo o mecanismo mais plausível para descrever os restos desarticulados do Dunkleosteus terrelli, já que placas gnatais isoladas sugerem que carcaças flutuantes podem ter soltado esses elementos relativamente próximos ao hábitat original das criaturas.

A presença dos restos do Dunkleosteus terrelli nos xistos pretos da Bacia Appalachian pode ser explicada tanto como uma acumulação post mortem de organismos que viviam na bacia, quanto uma “chuva” de partes, vindas de regiões aeradas, de carcaças transportadas via flutuação. Ademais, os resultados de uma análise estatística qui-quadrada desses fósseis não suportam a hipótese de que D. terrelli era restrito às áreas aeradas rasas e que sua presença nos sedimentos distais era resultado de carcaças flutuando até a bacia. Além disso, a distribuição aleatória dele pela bacia sugere que a espécie era possivelmente pelágica e não obrigatoriamente um morador das profundezas. Paralelamente, todas as evidências paleontológicas, sedimentológicas e geoquímicas apontam para a inospitalidade do ambiente do fundo de bacia, no entanto, mesmo se os peixes pudessem chegar ao fundo, o substrato era estável demais para sustentar o peso desses organismos. Dito isso, para o D. terrelli sobreviver nessas condições, devido ao seu peso, teria que nadar continuamente.

Conclusão

Após o evidenciado, torna-se claro que os registros tafonômicos não apoia a interpretação do Dunkleosteus terrelli ser um organismo bêntico, além da análise estatística qui-quadrada da distribuição dos restos da espécie ter falhado em suportar a hipótese da vivência restrita ao fundo. Assim, torna-se evidente que Dunkleosteus terrelli foi uma espécie de nado livre, o que pode ajudar a explicar sua distribuição em toda a América do Norte. Portanto, as implicações deste estudo formam as bases do trabalho contínuo na fauna do Cleveland Member, abrangendo desde a estratégia reprodutiva do animal até a completa trajetória de vida.

Texto fonte: CARR, Robert K. (2010). PALEOECOLOGY OF DUNKLEOSTEUS TERRELLI (PLACODERMI: ARTHRODIRA). KIRTLANDIA, v. 57, p. 36-45.

Disponível em: https://www.researchgate.net/profile/Robert-Carr-9/publication/235924093_The_Cleveland_Museum_of_Natural_History_PALEOECOLOGY_OF_DUNKLEOSTEUS_TERRELLI_PLACODERMI_ARTHRODIRA/links/546229a40cf2c0c6aec1a831/The-Cleveland-Museum-of-Natural-History-PALEOECOLOGY-OF-DUNKLEOSTEUS-TERRELLI-PLACODERMI-ARTHRODIRA.pdf.

Fonte e legenda da imagem de capa:  Fóssil majoritariamente completo da cabeça de um Dunkleosteus.

Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Dunkleosteus_CMNH_5768_skull.png.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

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