Perfurações em vértebras de mastodontes revelam história post mortem desses animais

Escrito em: 04 de abril de 2024

Por: Gustavo H. P. Torquato

Uma descoberta feita na região de Araxá, em Minas Gerais, trouxe à tona um detalhe curioso sobre a vida (e a morte) dos mastodontes que habitaram o Brasil há milhares de anos. Ao analisar vértebras cervicais fossilizadas desses gigantes do período Pleistoceno, pesquisadores encontraram perfurações incomuns no osso.

Esses buracos, de formato ovóide e totalmente ocos, não foram causados por predadores ou processos naturais de erosão. A explicação é ainda mais intrigante: eles correspondem ao icnofóssil Cubiculum ornatus, produzido por larvas de besouros dermestídeos. Este foi o primeiro registro desse tipo de marca em fósseis do Quaternário continental brasileiro.

A presença dessas câmaras escavadas indica que os mastodontes permaneceram expostos após a morte por tempo suficiente para que a pele e os músculos que recobriam as vértebras se decompusessem ou fossem consumidos, permitindo a colonização por besouros carniceiros. Estima-se que esse processo tenha levado de um a dois anos, intervalo em que partes do corpo já estariam desarticuladas, embora a coluna (uma das últimas regiões a se separar) ainda estivesse preservada de forma articulada, antes do soterramento.

Além de servirem como “berçários” para as larvas, os dermestídeos provavelmente também aceleraram o processo de esqueletização, contribuindo para a desarticulação dos ossos. Outro aspecto relevante é que as perfurações de C. ornatus aparecem associadas a fraturas nas vértebras, sugerindo que a ação dos besouros também pode ter facilitado a fragmentação do esqueleto.

Mais do que simples marcas, esses registros revelam interações complexas entre carcaças de gigantes do passado e pequenos insetos, e mostram como até mesmo a decomposição deixou pistas importantes sobre os ecossistemas antigos. Essa descoberta não apenas enriquece nosso conhecimento sobre a paleontologia brasileira, mas também nos lembra que, na natureza, até os maiores animais dependem (em vida e após a morte) da ação de organismos muito menores.

Texto fonte: Dominato, V. H., Mothe, D., Avilla, L. S., & Bertoni-Machado, C. (2009). Ação de insetos em vértebras de Stegomastodon waringi (Mammalia, Gomphotheriidae) do Pleistoceno de águas de Araxá, Minas Gerais, Brasil. Revista Brasileira de Paleontologia, 12(1), 77-82. Doi: 10.4072/rbp.2009.1.07.

Disponível em: https://www.academia.edu/download/4836297/dominato.pdf.

DOI: https://doi.org/10.4072/RBP.2009.1.07.

Fonte e legenda da imagem de capa: Exemplar de mastodonte.

Disponível em: [[File:Stegomastodon arizonae.jpg|Stegomastodon_arizonae]].


Texto revisado por: Marina Purri, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

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