Escrito em: 30 de Março de 2024
Por: Bianca Stacanelli Ribeiro
*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>
Você já pensou em como desvendar o passado e como as origens de alguns causadores de doenças em humanos pode nos ajudar a desvendar nossa própria história? Por mais absurda que essa relação possa parecer em um primeiro momento, ela é o alvo de interesse de uma área de estudo pouco conhecida, mas muito importante, a paleoparasitologia. Através de vestígios em fezes que fossilizaram (coprólitos) e de restos humanos, pesquisadores de várias áreas se unem para tentar reconstruir a história das parasitoses e suas relações com as diversas espécies.
Para começar, imagine que você pudesse voltar séculos atrás e observar como viviam as comunidades humanas antigas. Com certeza notaria o quão parasitadas eram essas populações, que já conviviam com piolhos, pulgas e vermes intestinais. Os quais não necessariamente causavam uma doença, uma vez que ela é oriunda de um desbalanço entre o sistema hospedeiro – parasito – ambiente, mas que certamente estariam moldando o comportamento e exercendo pressão evolutiva na população.
Ao analisar os restos arqueológicos, como os supracitados, é possível identificar um parasito, até mesmo ao nível de espécie, e, então, localizar infecções no espaço e no tempo e acompanhar as migrações humanas pelas descobertas desses pequenos organismos nos ambientes ocupados no passado. Nesse contexto, outro ponto a se pensar é que a combinação de restos alimentares com análises paleoparasitológicas nos dá indícios de dietas antigas. Por exemplo, pense que foram descobertos ovos de um parasita de lagartos em fezes humanas, a partir disso, infere-se que os humanos utilizavam tais animais como fonte de proteínas.
Além disso, uma outra coisa que vai te deixar ainda mais instigado a pensar na importância da paleoparasitologia é o fato de que ela pode ajudar a desvendar algumas mortes ou doenças de personalidades históricas. Como é o caso do imperador romano Júlio César, o qual apresentava quadros de epilepsia que poderiam ocorrer devido a uma possível neurocisticercose, já que o parasita foi encontrado em uma múmia egípcia datada do período ptolomaico (200 a 100 anos a.C.) também.
Entretanto, depois de apresentar alguns exemplos históricos, é importante mencionar que a relevância da paleoparasitologia não se restringe apenas ao estudo do passado distante, no sentido que suas descobertas têm importantes implicações para a saúde pública contemporânea. Isso porque garante a compreensão da evolução e da disseminação dos parasitos ao longo de toda a história, fazendo com que estratégias mais eficazes de prevenção e de controle de doenças parasitárias presentes nos dias de hoje possam ser tomadas.
Resumindo, a paleoparasitologia oferece uma visão fascinante da relação entre humanos e parasitas ao longo da história, destacando sua importância ao compreendermos a evolução dessas infecções para enfrentar os desafios de saúde do presente e do futuro.
Texto fonte: Adauto Araújo, Karl Reinhard, Luiz Fernando Ferreira, Elisa Pucu, Pedro Paulo Chieffi (2013). Paleoparasitology: the origin of human parasites. Arq Neuropsiquiatr; 71(9B):722-6. Doi: 10.1590/0004-282X20130159. PMID: 24141513.
Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24141513/
DOI: 10.1590/0004-282X20130159. PMID: 24141513.
Fonte e legenda da imagem de capa: Coprólito e sua importância para a história da interação entre parasitos e espécies antigas.
Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24141513/
Texto revisado por: Ana Luísa Ferreira e Alexandre Liparini.