Espinossauro: o primeiro dinossauro aquático

Escrito em: 03 de abril de 2024

Por: Enzo Zanetti Pierdomenico

Pode parecer curioso, ou até estranho, mas sim, aquele dinossauro enorme e feroz que aparece lutando com um Tyrannosaurus rex no filme “Jurassic Park 3″ na verdade viveu na água e muito provavelmente seria incapaz de protagonizar uma luta daquelas. Dito isso, não se engane, isso não o torna menos interessante, na verdade o torna mais especial. O espinossauro, mais especificamente a espécie Spinosaurus aegyptiacus, é até então (2025) o primeiro e único dinossauro aquático não aviano da história. 

Primeiro, é interessante entendermos um pouco da história das descobertas desse animal. No início do século XX foi encontrado o primeiro esqueleto de espinossauro no Egito. Porém, todo esse material original coletado na primeira metade do século XX foi destruído na segunda guerra mundial na Alemanha, consequência do colonialismo científico de fósseis. Isso gerou uma lacuna enorme no nosso conhecimento a respeito desse misterioso animal. Em 2014 o Dr. Ibrahim publicou um artigo com o que seria o primeiro esqueleto encontrado após a segunda guerra mundial, sendo encontrado no Marrocos, porém essa escavação foi feita por amadores locais, que depois disponibilizaram esses fósseis para o Dr. Ibrahim estudar. Nesse esqueleto não havia parte alguma da cauda e apenas em 2018, Dr. Ibrahim volta ao local com sua equipe e dessa vez conduz uma escavação com verdadeiros profissionais que encontram registros caudais do Spinosaurus aegyptiacus pela primeira vez. 

Esses achados incríveis nos levam à discussão acalorada que vem sendo travada há anos por cientistas: a ecologia do espinossauro. Para a grande maioria das espécies de Spinosauridae encontradas pelo mundo é nítido que existam diversas adaptações para hábitos semi-aquáticos e de piscivoria. Entre essas adaptações estão, no crânio: o formato do focinho, o formato e arranjo dos dentes e um sistema sensorial tegumentar na parte frontal da mandíbula, sendo muito semelhantes às adaptações craniais de crocodilianos. Porém as adaptações pós-craniais sempre deixaram um grande ponto de interrogação a respeito da locomoção desses animais nesses ambientes perto de corpos d’água.

É nesse sentido que a descoberta dessas vértebras caudais é tão importante. Ela soluciona o importante mistério ecológico do Spinosaurus aegyptiacus de acordo com testes de propulsão realizados no laboratório, Dr. Ibrahim foi capaz de provar que o formato da cauda do Spinosaurus aegyptiacus é capaz de gerar propulsão para se locomover embaixo d’água ou em sua superfície. Assim, a ecologia do S. aegyptiacus seria comparativamente bem semelhante a de crocodilianos. Ou seja: o espinossauro foi um animal que viveu a maior parte de seu tempo dentro da água, nadando e caçando peixes e outros animais aquáticos. Assim como os crocodilianos, a sua estratégia de caça consistia mais em emboscada do que em perseguição. 

Com esse artigo, o Dr. Ibrahim nos apresentou aquele que seria o primeiro dinossauro aquático registrado, gerando um grande alvoroço na comunidade científica e nos dando esperança de entendermos melhor o mundo que nos antecedeu.

Texto fonte: Ibrahim, N., Maganuco, S., Dal Sasso, C. et al. (2020). Tail-propelled aquatic locomotion in a theropod dinosaur. Nature 581, 67–70. DOI: https://doi.org/10.1038/s41586-020-2190-3.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41586-020-2190-3.

DOI: https://doi.org/10.1038/s41586-020-2190-3.

Fonte e legenda da imagem de capa: Possível reconstrução do corpo do Spinosaurus aegyptiacus..

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41586-020-2190-3.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

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