Escrito em: 12 de junho de 2025
Por: Cíntia da Silva Xavier
A paleontologia é uma ciência incrível e cheia de descobertas, mas de tempos em tempos há fósseis que conseguem se destacar ainda mais, a ponto de até mesmo furar a bolha científica, chegando em núcleos da sociedade antes impensáveis.
Foi o caso do fóssil de um Thrinaxodon em estivação, ou seja, o animal se escondeu no subsolo para escapar da seca escaldante. O protomamífero, porém, não estava sozinho: um raro anfíbio, o Broomistega, estava deitado sobre a barriga do “amigo”.
Esta cena improvável, datada de mais de 245 milhões de anos, foi descoberta em 1975, perto da base do Passo Oliviershoek, na África do Sul, pelo paleontólogo James Kitching. Com isso, as hipóteses começaram a surgir: há certo debate acerca da habilidade de Thrinaxodon em cavar tocas, mas Broomistega com certeza não poderia tê-la feito, sugerindo que o protomamífero era o principal ocupante da toca. Tendo isso em vista, parece uma coincidência absurda que os dois animais fossem soterrados juntos, com o Broomistega sendo carregado pela lama até o esconderijo.
Considerando isso, podemos chegar em duas hipóteses mais prováveis: Thrinaxodon arrastou Broomistega para a toca ou Broomistega entrou propositalmente na toca. Apesar de o anfíbio apresentar duas possíveis marcas de mordida em seu corpo, os espaços não correspondiam à dentição do Thrinaxodon. Sendo assim, Fernandez e seus companheiros concluíram que o Broomistega simplesmente entrou na toca onde o Thrinaxodon descansava, e posteriormente, ambos foram soterrados pela lama que adentrou na toca, preservando-os em um abraço muito único.
Mesmo nos dias de hoje, essa interação é intrigante. Porém, ao analisar o fóssil do anfíbio, podemos deduzir porque o animal decidiu correr o risco e adentrar a toca: ele possuía várias costelas quebradas, parcialmente curadas, o que poderia dificultar sua respiração e locomoção, dando a ele um bom motivo para se aventurar na toca de um animal muito maior.É realmente impressionante o impacto desse fóssil descoberto há 50 anos, que conseguiu até mesmo o feito de sair da bolha científica, eternizado em uma canção (triassic love song de Paris Paloma) que celebra essa união improvável, juntando-se a Lucy no seleto grupo de fósseis relacionados a músicas, o Australopithecus afarensis descoberto em 1974, porém sendo o primeiro fóssil a ser homenageado em uma canção, e não sendo nomeado em homenagem a algo, como foi o caso de Lucy.
Texto fonte: Fernandez, V., Abdala, F., Carlson, K., Cook, D., Rubidge, B., Yates, A., Tafforeau, P. (2013). Synchrotron Reveals Early Triassic Odd Couple: Injured Amphibian and Aestivating Therapsid Share Burrow. PLoS ONE 8, 6: e64978. Acesso em: 11/06/2025.
Disponível em: doi:10.1371/journal.pone.0064978.
Fonte e legenda da imagem de capa: Representação do fóssil de um Thrinaxodon e um Broomistega juntos.
Disponível em: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0064978.