Escrito em: 8 de novembro de 2024
Por: Marina Purri de Magalhães
Há 20 mil anos atrás, durante o Pleistoceno, antes de entrarmos na mais recente fase interglacial, havia nas américas uma fauna completamente diferente, a megafauna, um grupo de animais que receberam esse nome por terem uma grande proporção corporal, considerada a partir dos 44kg. A descoberta de fósseis tais como do tigre-dente-de-sabre e da preguiça gigante fazem parte da história natural brasileira e têm extrema relevância científica e cultural para o país. Entretanto, apesar de existirem diversas pesquisas sobre esses animais, pouco é falado sobre suas interações ecológicas no passado e como a falta desses seres vivos impactam os dias atuais.
Estudos recentes na área da paleoecologia nos mostram como a extinção dos grandes herbívoros, como as preguiças gigantes e os gonfotérios, “elefantes” de 4 presas, afetam a dispersão de algumas sementes, como as do pequi e do abacate. Sabe-se que esses animais eram dispersores de tais sementes, pois foram encontrados resquícios delas em coprólitos, fezes fossilizadas, desses grandes herbívoros. Além disso, foram efetuados estudos sobre a dentição e a biomecânica dos fósseis, que analisaram como o corpo e especialmente a mandíbula desses animais funcionava, reforçando a hipótese de que as sementes eram ingeridas pelos mesmos.
Assim, pesquisadores da Unicamp e Unesp iniciaram uma investigação sobre como se dava a dispersão dessas sementes. Para isso desenvolveram um modelo matemático que procura calcular as diferentes fases do processo de dispersão, o que envolve: a quantidade de frutas ingeridas, o tempo de digestão dos frutos e a distância percorrida pelos animais até que as sementes fossem dispersas pelas fezes. Para chegar nessas extrapolações, o fator mais essencial foi o tamanho dos herbívoros. Dessa forma, após a modelagem, que levou em conta inúmeros fatores estatísticos para que a pesquisa ficasse o mais confiável possível, foram comparados os resultados da dispersão feita pelos grandes mamíferos extintos com a dispersão do que seriam os maiores frugívoros atuais presentes nos biomas, como as antas encontradas no cerrado. Como resultado foi observado que preguiças gigantes eram capazes de dispersar sementes de 300 até 2,5 mil metros de distância da árvore mãe, os gonfotérios de 500 a 3,5 mil metros, enquanto as antas nos dias atuais dispersam apenas de 200 a 1,4 mil metros, menos da metade da distância percorrida pelos gonfotérios, marcando uma grande diferença.
Assim, é importante questionar quais são as consequências na flora dos biomas brasileiros após a perda da megafauna e consequentemente da dispersão em larga escala de sementes. Em primeiro lugar, as plantas que possuem sementes muito grandes, como o pequizeiro e abacateiro são diretamente afetadas, pois houve toda uma coevolução entre esses organismos para que uma semente tão grande conseguisse ser dispersada pelo país, de forma que, com a extinção da megafauna, são pouquíssimos animais capazes de ingerir e transportar a semente de frutos tão grandes para que sejam defecadas e germinadas de maneira segura e por grandes distâncias. Isto posto, muitas sementes acabam apenas caindo das árvores ficando próximas da árvore mãe, o que é menos favorável evolutivamente, colocando as sementes em risco de predação por roedores e outros animais que não mantém a integridade da semente no trato digestivo por conta de seu tamanho diminuto. Além disso, as sementes que conseguem ser ingeridas como no caso das antas acabam não chegando a uma dispersão espacial suficiente, aumentando a competição entre indivíduos da mesma espécie, que estarão muito próximos e afetando a variabilidade genética que a longo prazo prejudica possivelmente a sobrevivência dessas espécies.
Portanto, os biomas brasileiros sofrem ainda hoje com a perda dos gigantes nativos e é de se esperar que as mudanças climáticas, que afetam os dispersores viventes além de alterar fatores abióticos, como o fluxo de água no Pantanal que permite de certa forma uma maior distribuição das sementes, tornem a situação ainda pior. Por isso, estudos como o relatado acima, que procuram entender a ecologia nos tempos antigos a partir de um casamento com a paleontologia e a matemática, se tornam essenciais também para a conservação, que não pode ser feita de maneira arbitrária, precisando sempre levar em conta a história evolutiva da terra.
Texto fonte: PIRES, Mathias M. et al. (2018). Pleistocene megafaunal extinctions and the functional loss of long‐distance seed‐dispersal services. Ecography, v. 41, n. 1, p. 153-163.
Disponível em: https://nsojournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/ecog.03163.
Doi: https://doi.org/10.1111/ecog.03163.
Fonte e legenda da imagem de capa: Desenho de uma preguiça gigante comendo pequi de uma árvore, carregando uma mala com sementes, demonstrando seu trabalho como dispersora de sementes, com o título do texto; “A paleontologia por trás da dispersão de sementes no Brasil”. Ilustração de arquivo pessoal
Texto revisado por: Damiane Mello e Alexandre Liparini.