Escrito em: 3 de novembro de 2023
Por Samantha Viegas
Você provavelmente já viu e leu sobre fósseis de dinossauros, preguiças-gigantes e mamutes. São fósseis raros, mas possíveis de se encontrar por aí. Mas e os microrganismos – aqueles que só conseguimos ver através de microscópicos, como bactérias, fungos e vírus: eles podem ser preservados?
A resposta é sim! Já foram encontrados microfósseis de fungos e bactérias em rochas antigas. Mas e quanto aos vírus? Já imaginou como seria possível preservar um parasita que só se reproduz dentro de uma célula e são ainda menores do que bactérias?
Bom, um grupo de cientistas na França conseguiu – simulando experimentalmente o processo de microfossilização natural. Para isso, eles selecionaram 3 vírus diferentes, começando por um com formato de bastonete que infecta arqueias – microrganismos que, apesar de se parecerem com bactérias, são mais proximamente relacionados aos eucariotos, incluindo os seres humanos – que vivem em nascentes vulcânicas. Também foram selecionados dois vírus com formato de limão: um infecta arqueias encontradas em chaminés hidrotermais a 2.700 metros de profundidade, e outro, arqueias de águas profundas e hiper quentes. Todos esses vírus têm algo em comum: são capazes de infectar arqueias hipertermofílicas, microrganismos que se parecem bactérias, mas não são, e vivem em ambientes com temperaturas acima de 80 °C.
Ou seja, tanto esses vírus quanto as arqueias parasitadas por eles vivem em ambientes muito extremos, que lembram as condições na Terra há alguns bilhões de anos, quando os primeiros organismos surgiram. Isso quer dizer que esses microrganismos potencialmente se parecem com as primeiras formas de vida, já que vivem em ambientes tão extremos quanto os do passado. Porém, não ouvimos falar de fósseis de vírus encontrados por aí. A explicação para isso está no seu tamanho: vírus podem ser centenas a milhares de vezes menores do que uma célula.
Então como os cientistas conseguiram fossilizar os vírus?
Bom, tudo começou com a sílica, um mineral que hoje é encontrado em rochas e areia, mas que era muito abundante nos oceanos da Terra primitiva, bilhões de anos atrás. De fato, os fósseis mais antigos de microrganismos já encontrados foram preservados em restos silicificados. Nesse processo, a sílica se precipitou ao redor das estruturas, formando ligações químicas com proteínas e outras moléculas que ajudaram na sua preservação. E foi a partir disso que os cientistas tiveram a ideia de tentar realizar a fossilização experimental daqueles três vírus em sílica, avaliando sua preservação ao longo de vários meses.
E de fato eles conseguiram fossilizar os vírus, com diferentes níveis de sucesso – o vírus em formato de bastonete demonstrou maior afinidade com a sílica, enquanto os outros dois, que possuem envelopes lipídicos, mostraram menor interação. O que provavelmente aconteceu é que as partículas virais foram aprisionadas no precipitado de sílica, e isso ajudou na conservação das proteínas e envelopes. Por microscopia eletrônica de transmissão, eles puderam ver as partículas virais ao longo do tempo, algumas cobertas e preenchidas por um precipitado escuro, provavelmente composto de sílica.
A conclusão disso tudo é que sim, vírus podem ser fossilizados com sílica, e os seus restos e vestígios podem ser preservados no registro geológico. Porém, não é tão simples assim: a identificação destes microfósseis pode ser um desafio por causa do tamanho diminuto dos vírus, que os torna difíceis de diferenciar de artefatos minerais. A boa notícia é que isso prova que vírus podem ser fossilizados, e que olhares mais atentos talvez encontrem vestígios de vírus fossilizados por aí no futuro.
Texto fonte: Orange, F.; Chabin, A.; Gorlas, A.; Lucas-Staat, S.; Geslin, C.; Le Romancer, M.; Prangishvili, D.; Forterre, P.; Westall, F. (2011). Experimental fossilisation of viruses from extremophilic Archaea. Biogeosciences, v. 8, p. 1465–1475. https://doi.org/10.5194/bg-8-1465-2011.
Fonte e legenda da imagem de capa: Partícula viral coberta e preenchida com precipitados de sílica. Fig. 3G do texto fonte. Disponível em < https://bg.copernicus.org/articles/8/1465/2011/ >, acesso em: 13/01/2025
Texto revisado por: Lucas Rabelo e Alexandre Liparini.