Escrito em: 7 de novembro de 2023
Por: Eloy Ramos Seixas
O Thylacosmilus atrox foi um mamífero que habitava o continente sul-americano durante o Plioceno, cerca de 5 milhões de anos atrás, e embora não seja um canguru, ele pertence ao mesmo grupo, os marsupiais. O T. atrox era um quadrúpede de porte semelhante ao de uma onça-pintada que possuía caninos hiperdesenvolvidos semelhantes aos de um tigre-dente-de-sabre. Esses dentes especializados são frequentemente citados como um exemplo clássico de convergência evolutiva, um fenômeno em que uma característica evoluiu independentemente em diferentes espécies, sem estar presente em um ancestral comum.
Essa semelhança aparente entre o T. atrox e outros “dentes de sabre”, como o Smilodon fatalis, da ordem Carnívora, sugere morfologias e comportamentos predatórios semelhantes. Por isso, é razoável supor que esses grandes dentes tenham exigido adaptações anatômicas e ecológicas específicas para seu desenvolvimento e uso. Tais mudanças eram direcionadas, por exemplo, no tamanho e orientação dos músculos adutores para possibilitar uma maior extensão da mandíbula, além de outras adaptações que permitiam esses animais fincar seus “dentões” em suas presas sem prejudicar a si mesmos. No entanto, será que a semelhança anatômica por si só é suficiente para afirmar que esses dois animais desempenhavam o mesmo papel ecomorfológico?
Um estudo publicado no periódico PeerJ, pelos pesquisadores Christine M. Janis, Borja Figueirido, Larisa DeSantis e Stephan Lautenschlager, analisou o crânio e a dentição do T. atrox e do S. fatalis, revelando várias disparidades nessas estruturas. Os pesquisadores concluíram que esses dois animais não desenvolveram seus super-caninos para a mesma finalidade e não compartilhavam um comportamento predatório idêntico. Para chegar a essa conclusão, eles realizaram uma análise detalhada e comparativa das características craniodentais, considerando morfologia, desgaste dos dentes, comportamento e preferências alimentares. Além disso, conduziram simulações do desempenho do crânio e da dentição desses animais, explorando a biomecânica dessas estruturas em diversos cenários predatórios.
Os resultados obtidos demonstram que o T. atrox possuía uma combinação única de características, que o distinguia de qualquer carnívoro placentário com “dentes de sabre” conhecido. Com base nessas descobertas, os pesquisadores propuseram diferentes estratégias de predação, mas reconheceram que a anatomia do T. atrox fornece poucas pistas sobre como ele realmente caçava suas presas. O estudo também destaca que essas particularidades não podem ser atribuídas apenas ao fato dele ser um marsupial em vez de um mamífero placentário. Em outras palavras, essas características foram adaptadas em contextos ecomorfológicos distintos dos observados nos felinos “dentes de sabre”.
Outro ponto interessante abordado pelos pesquisadores é o costume de tentarmos encaixar um bicho extinto dentro do que já conhecemos de outros animais viventes, como já se fez com elefantes e girafas extintos. No entanto, parece não haver nenhum organismo vivo ou extinto com papel ecomorfológico análogo ao do dente-de-sabre marsupial. Sendo assim, essa análise não apenas expande nosso entendimento sobre a diversidade da vida pré-histórica, mas também nos lembra que a evolução é um processo complexo e multifacetado, que molda as espécies de maneiras únicas e surpreendentes.
Palavras-chave: Marsupial, Tigre-dentes-de-sabre, Ecomorfologia, Predação
Fonte e legenda da imagem de capa: Ilustração representativa do T. atrox em vida, carregando um filhote no marsúpio. Disponível em: https://paleontologiahoje.com/wp-content/uploads/2025/01/d08fc-thylacosmilusatrox25percent.jpg
Texto fonte: M. Janis C, Figueirido B, DeSantis L, Lautenschlager S. (2020). An eye for a tooth: Thylacosmilus was not a marsupial “saber-tooth predator”. PeerJ 8:e9346 https://doi.org/10.7717/peerj.9346
Disponível em: ttps://peerj.com/articles/9346 acessado em 07/11/2023
Texto revisado por: Fernanda Moreira