O último olhar às estrelas: o Legado de um filhote do Pleistoceno

Escrito em: 17 de dezembro de 2024

Por: Pedro Marzano

O horizonte é branco assim como os flocos que descansam em seu pelo, mas o frio não te incomoda. Passo a passo, o peso que exerce sobre a neve mal deixa marcas, afinal você ainda é pequeno demais para isso. Por sorte, seus olhos juvenis já estão acostumados com a paisagem pálida, tornando-a trivial. Mas, mesmo no cotidiano esbranquiçado, destaques fazem com que você se oriente.

Você olha para cima e o céu apresenta os mesmos pontos brilhantes de sempre. Mas hoje, tons verdes, azuis e acinzentados parecem dançar junto a eles. É algo novo. Talvez, em breve, a dança do céu se torne tão trivial quanto os pontos brancos que dele caem. Mas, por enquanto, é inédito. Algo que jamais ocorrera na eternidade que compõe as três semanas de sua existência.

Você se distrai com os movimentos celestes. Tão acostumado a olhar para frente, você fica paralisado ao olhar para cima. É como se o tempo parasse. Você ergue o corpo e tenta tocar o que se movimenta acima de você, mas apenas frios flocos de neve tocam suas patas arredondadas.

Por sorte, há alguém que lhe traz de volta à realidade.

Um rugido tímido atinge seus pequenos ouvidos, que orientam sua cabeça de volta àquela que vem lhe guiando desde que você enxergou pela primeira vez. Seu pelo é muito mais escuro do que o dela, que parece se disfarçar no próprio branco que chamam de casa. Mesmo assim, o movimento que ela faz é tão inconfundível  quanto as luzes que dançam ao céu.

É a sua mãe, afinal.

Instintivamente você retorna à sua posição de jornada, virando-se abruptamente em direção ao seu norte materno. Ali, naquele instante, o peso frágil de todo o seu corpo pressiona contra o gelo onde caminha.

Você ouve um barulho.

Um estalo.

E, de repente, o frio aumenta e todo branco se torna azul.

O tempo, de fato, para.

Mas a sua história não termina.

——

Em 2020, pesquisadores encontraram, na fria região da República de Sakha (Yakutia), na Rússia, algo extraordinário. Em meio ao permafrost da região, uma figura amarronzada destoava do gelo ao redor. Ao analisar de perto, o formato da bola de pelo se revelava no que pareciam patas, depois orelhas e depois um focinho. Era uma múmia.

Sem perder tempo, os cientistas iniciaram a extração do espécime para análise em laboratório. Tratava-se de um achado raro, mas não inédito. Apesar de raras, múmias já foram encontradas na região. As condições gélidas do permafrost, junto às nevascas constantes, tornam restos de animais particularmente suscetíveis a este processo no local. Especialmente mamutes.

Um torso com 6 pares de costelas inteiros e 6 fragmentados, dois membros anteriores e uma cabeça foram retirados do local de descanso do animal. Mas algo era ainda mais espetacular. Onde estava a tromba? Por que era tão pequeno? Por que as patas eram assim, arredondadas e afofadas?

Não era uma múmia qualquer. Tratava-se de um felino.

Emergido de paredes brancas de gelo, o corpo retorna a paredes brancas de azulejo. É colocado dentro de uma máquina cilíndrica grande, um aparelho de tomografia computadorizada. Por ser valioso demais, os cientistas preferem não arriscar danificar o espécime. Um escaneamento tridimensional é feito, uma reconstrução digital capaz de fornecer informações valiosas para saciar a curiosidade dos pesquisadores.

A tumba de metal gira, range e apita enquanto a anatomia do animalzinho é, ponto a ponto, reconstruída na tela que ocupa os olhos dos cientistas. Sem perder tempo, o trabalho é iniciado. Réguas virtuais são traçadas sobre cada parte da reconstrução, transformando-a em uma série de medidas milimétricas de cada porção do filhote.

Mas havia muito a fazer. Contendo os ânimos, os pesquisadores contentaram-se em encontrar um foco inicial: o crânio. Este sim traria informações fundamentais no momento.

Era preciso entender quem fora aquele filhote. Quem eram seus parentes na família evolutiva? Onde, afinal, estava este bichinho na gigantesca árvore da vida? O crânio, que um dia sustentou o rosto que olhou para as estrelas, era o registro anatômico de onde sairiam aquelas respostas.

Ao analisar marcações específicas do crânio, a ligação entre esses ossos e suas proporções, bem como especificidades da arcada dentária, foi possível dar nome e idade ao animal. As especificidades dessa estrutura posicionaram o filhote como um Homotherium, um predador adaptado ao frio do Pleistoceno Superior. Quanto à idade, pôde-se avaliar com base no desgaste das presas, condizente com o que é observado em leões filhotes de cerca de três semanas de idade.

Inclusive, não foi apenas um filhote de leão usado como comparação. Infelizmente, a falta de parentes recentes dos Homotherium dificultou o trabalho comparativo feito pelos pesquisadores. Por sorte, havia acesso a uma grande coleção de espécimes de leão em coleções locais. Apesar de não ser ideal, os leões são alguns dos felinos mais estudados da atualidade, o que permite que estruturas anatômicas possam ser comparadas e suas funções inferidas com base no vasto conhecimento que a comunidade possui destes felinos.

Outra característica marcante encontrada pelos cientistas fora o pescoço robusto do pequeno animal. Para o seu tamanho, a musculatura ao redor de seu pescoço era impressionante. Não passou muito tempo até que os pesquisadores imaginassem o potencial predador que o animalzinho teria se tornado. A força do pescoço certamente serviria para que a potência fatal de suas mordidas derrubasse a maior e mais veloz das presas.

Assim como o pescoço, os membros anteriores também eram particularmente grandes e compridos. Provavelmente para que fossem lançados na direção de suas futuras refeições enquanto ainda vivas. Se tivesse tido a oportunidade, o filhote teria usado as mesmas patas que estendeu ao céu para capturar seus alvos. Patas essas que pareciam bem mais arredondadas do que àquelas dos leões, o que permitia a espreita astuta e persistente de sua espécie, bem como a protegia do próprio frio que compunha sua identidade.

Em uma última análise antes de publicar a descoberta, os cientistas voltaram-se ao pelo escuro do animal. Uma amostra coletada teve seus isótopos de carbono-14 datados e a pausa no tempo do filhote foi revelada: 35 mil anos.

Ali, na paisagem fria e branca do permafrost russo, 35 mil anos atrás, a história do felino começava.

Mas ainda há muito trabalho a fazer.

E essa história certamente não terminou.

Texto fonte: Lopatin, Alexey & Sotnikova, Marina & Klimovsky, Aisen & Lavrov, Alexander & Protopopov, A. & Gimranov, Dmitriy & Parkhomchuk, Ekaterina. (2024). Mummy of a juvenile sabre-toothed cat Homotherium latidens from the Upper Pleistocene of Siberia. Scientific Reports. 14. 1-10. 10.1038/s41598-024-79546-1.

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/385817965_Mummy_of_a_juvenile_sabre-toothed_cat_Homotherium_latidens_from_the_Upper_Pleistocene_of_Siberia

DOI: 10.1038/s41598-024-79546-1.

Fonte e legenda da imagem da capa: Múmia congelada do Homotherium latidens

Disponível em: https://www.researchgate.net/figure/The-frozen-mummy-of-Homotherium-latidens-Owen-1846-specimen-DMF-AS-RS-no-Met-20-1_fig1_385817965

Texto revisado por: Alexandre Liparini e Sandro Ferreira de Oliveira

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