Escrito em: 04 de Novembro de 2023
Por: Geisler Peixoto da Cruz
Pelo título, já é possível sentir certo desconforto, não é, caro leitor? Pois é, até mesmo os insetos podem sofrer com animais semelhantes às temidas lombrigas. Os insetos e os nematódeos (nome dado ao grande grupo que engloba esses parasitos), têm uma relação muito antiga que perdura até os dias atuais.
Hoje, você vai descobrir um pouco sobre insetos que foram parasitados por esses vermes já no Período Cretáceo, e a relevância das descobertas destes seres presos no âmbar, uma resina vegetal que guarda curiosidades do passado profundo de nosso planeta.
Em uma pesquisa realizada por cientistas do Instituto de Geologia e Paleontologia de Nanjing, da Academia Chinesa de Ciências (NIGPAS), em colaboração com outros pesquisadores dos EUA e do Reino Unido, foi descrita a descoberta de cerca de 16 espécies de uma Família de nematódeos chamada Mermithidae. Os registros foram feito a partir de âmbares de Kashin, um sítio fossilífero localizado no Vale Hukawng no norte de Myanmar, um país do sudeste asiático.
Primeiramente, como são os Mermithidae? Estes parasitos se diferenciam por ter um corpo relativamente grande, e são normalmente enrolados. Para identificação, foram feitas comparações com membros dessa Família atualmente viventes. Outro ponto importante é que estes animais são parasitos obrigatórios de invertebrados. O que isso quer dizer? Quer dizer que, para completar seu ciclo de desenvolvimento, em alguma etapa precisam estar em um hospedeiro e no caso dos Mermithidae, seus hospedeiros são os insetos.
Animais infectados por esse grupo morrem quando os parasitos emergem, e há registros de que os parasitos podem romper os corpos de seus hospedeiros mesmo antes de se tornarem adultos, em caso de estresse fisiológico no inseto. Ambos esses fatos são importantes, pois aumentam a chance de preservação destes animais no registro fóssil, mais especificamente dos que morreram presos em âmbar ao emergirem do inseto. Sabendo disso, também, é possível hipotetizar que esses parasitos podem ter desempenhado o papel de controle populacional de seus hospedeiros nos paleoambientes do Período Cretáceo.
Nessa pesquisa, foram feitas descobertas bem curiosas. Uma delas é o registro de insetos que foram parasitados por esses vermes, mas que não se tinha conhecimento dessa relação seja no passado ou no presente, por exemplo, as traças-saltadoras (Archaeognatha) ou que atualmente não são mais parasitados, como por exemplo, os piolhos (Psocodae).
O estudo revela pontos bastante interessantes sobre o parasitismo. Hoje, sabemos que esses nematódeos de insetos possuem uma certa preferência por insetos que têm desenvolvimento holometábolo, que é o que chamamos de desenvolvimento completo. Porém, nos estudos feitos com esses fósseis do Cretáceo, percebeu-se uma prevalência desses parasitos em insetos não holometábolos. O que se leva a crer, fazendo comparações com achados em âmbar Báltico (Eoceno ~45Ma) e âmbar Dominicano (Mioceno ~18Ma), que esses parasitos não exploraram de forma ampla os insetos holometábolos, talvez por uma maior disponibilidade de não-holometábolos no passado evolutivo desta relação. Aparentemente, esta relação parasita-hospedeiro em holometábolos se deu de forma mais efetiva no Cenozóico.
Pode-se dizer que o estudo dos fósseis de Mermithidae em âmbar nos fornece informações valiosas sobre a evolução, ecologia e diversidade desses parasitos e seus hospedeiros. Espero que você tenha gostado de aprender um pouco mais sobre esses vermes que atormentam os insetos há milhões de anos!
Texto fonte: Luo, C., Poinar, G. O., Xu, C., Zhuo, D., Jarzembowski, E. A., & Wang, B. (2023). Widespread mermithid nematode parasitism of Cretaceous insects. eLife, 12, e86283.
Disponível em: https://doi.org/10.7554/eLife.86283
Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem mostra nematódeos Mermithidae emergindo de seus hospedeiros. É possível perceber os abdomens ocos por conta do desenvolvimento dos nematódeos em seu interior.
Disponível em: https://elifesciences.org/articles/86283.
Texto revisado por: Gustavo Firpe, Sandro Ferreira e Alexandre Liparini.