Escrito em: 20 de novembro de 2024
Por Lucas Rabelo de Vasconcellos
Quando pensamos em fósseis, é comum associá-los à paleontologia, geralmente com base no método científico. A forma como devemos analisar esses vestígios de outras eras é a ciência – essa é a noção amplamente compartilhada, quase inquestionável. Vivendo em uma sociedade ocidental, definida por visões de mundo eurocêntricas, é natural que associemos a natureza ao saber científico, pois é esse o meio mais frequentemente utilizado para explicar a realidade.
Como um legado da colonização e do imperialismo, as perspectivas europeias modernas se espalharam pelo mundo. No entanto, culturas indígenas, tanto antigas quanto atuais, que não foram influenciadas pela visão europeia, desenvolveram formas ricas de interpretar e interagir com o mundo. Essas perspectivas eram fundamentais para sua visão de mundo e podem ser, além de fascinantes, uma fonte de inspiração e aprendizado.
Hoje, existem algumas investigações sobre como culturas não-ocidentais abordavam e abordam elementos de estudo paleontológico e geológico, embora essas pesquisas ainda sejam relativamente escassas. Nesse contexto, destaca-se o sul do continente africano, que, mais do que qualquer outro lugar, teve sua geomitologia – o uso desses elementos no contexto cultural e de visão de mundo – especialmente negligenciada. Exemplos dessa geomitologia, embora extremamente interessantes, são raramente buscados e, quando encontrados, não recebem a atenção que merecem. Vamos explorar um pouco desse mundo?
Os chamados “abrigos rochosos” são relativamente comuns na África do Sul e em países vizinhos, e alguns deles revelam pistas sobre o passado humano. No município de Cederberg, por exemplo, próximo a um desses abrigos, foram encontrados cristais de quartzo, fragmentos minerais, ferramentas de pedra e, talvez o mais impressionante, um fóssil inconfundível de trilobita. Seria coincidência demais que um fóssil fosse encontrado ao lado de ferramentas humanas, especialmente considerando que o depósito fossilífero mais próximo está a 10 quilômetros de distância. Isso indica que os antigos habitantes da região reconheceram o fóssil como algo especial e admirável, e o coletaram por esse motivo. Outro fóssil de trilobita foi encontrado em condições semelhantes na reserva natural de Robberg, também na África do Sul, demonstrando que esse fenômeno não foi isolado. Fósseis eram vistos como objetos de encantamento, também, por povos africanos originários.
Além disso, há relatos de povos que não apenas achavam elementos naturais peculiares, dando-lhes valor e guardando-os, mas também os incorporavam em suas tradições. Os povos sãs, habitantes da região, formam diferentes etnias de caçadores-coletores, com diversas línguas e nações. O povo !Kung (cujo “!” representa um som de clique presente em sua língua, para o qual o alfabeto latino não possui letra) tem uma conexão fascinante com os fulguritos – tubos de vidro naturais formados pela fusão do quartzo na areia devido à incidência de raios. Esses objetos, chamados por eles de “dentes da chuva” ou “dentes do relâmpago”, são usados em rituais. Após coletados, geralmente sob árvores atingidas por raios, os fulguritos são despedaçados, adicionados a matéria vegetal e colocados em cornetas para chamar a chuva – provavelmente um ritual climático originado em um passado distante.
Outro exemplo fascinante é o da caverna Mokhali, em Lesoto, onde missionários encontraram e relataram arte rupestre contendo um desenho interpretado como uma pegada de dinossauro, ao lado da representação de três criaturas bípedes – provavelmente os imaginados donos das pegadas. Até aqui, pode parecer apenas uma interpretação fantasiosa, mas o interessante é que o vale próximo à caverna é repleto de trilhas fossilizadas de dinossauros, e em uma pedra próxima à caverna havia até material esquelético desses animais. O achado sugere que essas culturas não só tinham consciência de que o que viam eram rastros de seres vivos, mas também provavelmente sabiam que essas criaturas não mais existiam, e imaginavam como seriam.
O mais impressionante é que a ilustração dos dinossauros feita pelos sã é bizarra e surpreendentemente similar ao grupo de dinossauros que os paleontólogos atuais acreditam ter deixado muitas das pegadas da região – os Ornithopoda. Mais ainda, as primeiras reconstruções dos cientistas ocidentais erraram o que os sã já haviam acertado, provavelmente milênios antes: esses animais andavam sobre duas patas, e não sobre quatro.
É possível, até, que os sã tenham usado sua expertise como rastreadores (trackers) como inspiração para sua religião e cosmogonia – talvez investindo na crença de que os vestígios encontrados seriam de entidades espirituais acessadas por rituais xamânicos, ou de criaturas antigas de lenda e história. No folclore sã, há registro de um grande monstro pré-histórico, similar a um dragão no entendimento ocidental, chamado “Kholumolumo”. A besta, descrita como como “o devorador do mundo”, teria reinado sobre todas as outras criaturas do mundo durante tempos imemoriais. Hoje, como vestígios de sua antiga grandiosidade, restam suas pegadas e ossos transformados em pedra. Paleontólogos que visitam o Lesoto relatam que, ainda hoje, os habitantes locais, quando questionados sobre o que os cientistas estão procurando, dizem que eles estão em busca dos rastros de Kholumolumo – nome que, aliás, foi dado até a um gênero de dinossauros, em homenagem a esse ser do folclore local.
Esses exemplos demonstram que existem muitas maneiras diferentes de se relacionar com objetos tradicionalmente vistos como pertencentes à ciência, além das abordagens mais convencionais. Muitos povos antigos e tradicionais fazem isso. Portanto, é fundamental manter a mente aberta a diferentes interpretações e perspectivas que desafiem a dominância eurocêntrica ocidental, pois, além de interessantes e merecedoras de respeito por si só, elas podem ser verdadeiramente inspiradoras. A geomitologia no sul da África ainda tem muito a revelar, e com mais investimentos, cada vez mais descobertas podem ser feitas – descobertas que podem se tornar fontes legítimas de orgulho, celebração do patrimônio cultural e identidade, especialmente para esses países em processo de ressignificação identitária após um longo e doloroso período de dominação colonial.
Texto fonte: Helm, C. W.; Benoit, J.; Mayor, A.; Cawthra, H. C.; Penn-Clarke, C. R.; Rust, R. (2019). Interest in geological and palaeontological curiosities by southern African non-western societies: A review and perspectives for future study. Proceedings of the Geologists’ Association, v. 130, n. 5, p. 541–558. https://doi.org/10.1016/j.pgeola.2019.01.001
Fonte e legenda da imagem de capa: Arte rupestre em Sevilla após a aplicação do conjunto de ferramentas CPED (imagem cortesia de Kevin Crause). Fig. 12 do texto fonte. Disponível em <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S001678781930001X>, acesso em: 20/11/2024
Texto revisado por: Lucas Rabelo e Alexandre Liparini.