Que Histórias Nos Contam os Dinossauros do Ártico?

Escrito em: 7 de abril de 2023

Por: Vicenzo Blaso

Apesar de popularmente serem imaginados como grandes lagartos de sangue frio, os dinossauros pré-históricos que conhecemos na verdade eram animais de sangue quente, homeotérmicos, ou seja, eram capazes de regular a temperatura do próprio corpo. Sabe-se atualmente que alguns dinossauros possuíam penas semelhantes as das aves atuais, que os auxiliavam a manter a temperatura do corpo constante, por evitarem a perda de calor para o meio externo. Esses fatos podem ser essenciais para entender a dispersão e o domínio que esses seres exerceram no Planeta Terra antes de estarmos aqui.

Em um artigo publicado na revista Science em 2022, os cientistas Paul Olsen, Vivi Vajda e seus colaboradores revelaram uma descoberta intrigante. O grupo de pesquisa identificou fósseis de pegadas de dinossauros na região da Bacia de Junggar, na China, que no final do triássico estaria em latitudes polares setentrionais comparáveis ao ártico atual. A descoberta é muito importante pois fornece evidências de que os dinossauros, animais geralmente associados com ambientes tropicais e quentes, eram capazes de viver em climas mais frios. Mas como isso seria possível?

Inicialmente, uma das respostas que o artigo nos traz é que os dinossauros eram animais capazes de se manter protegidos das baixas temperaturas, pela homeotermia e pelo isolamento térmico promovido pelas penas, mesmo que rudimentares se comparadas com as das aves. Muitas penas encontradas em fósseis de dinossauros se parecem com filamentos, mas já cumpriam a função de manter seus corpos aquecidos.

Além disso, o clima nos polos do planeta não era tão rigoroso quanto é hoje. Isso mesmo! O Ártico, entre o final do período Triássico e início do Jurássico (cerca de 200 milhões de anos atrás) possuía um clima temperado, próximo do que se observa na Europa Central atualmente. Com invernos frios, é claro, mas não há evidências da formação de geleiras como as que vemos hoje naquela época. Isso permitiria que plantas se estabelecessem ali, criando um ambiente favorável para a sobrevivência de dinossauros herbívoros. Existindo herbívoros, certamente haveria carnívoros para se alimentarem deles, não é mesmo?

Desse modo, o artigo propõe uma forte presença de dinossauros nas regiões polares do planeta há cerca de 200 milhões de anos atrás, o que pode explicar a ascensão desse grupo de seres que, até esse momento, ainda não dominavam a Terra. Segundo os pesquisadores, essa ocupação das áreas mais geladas seria muito benéfica para os dinossauros pois, durante esse período da história do planeta, ocorreram diversas erupções vulcânicas, principalmente nas regiões mais próximas à linha do Equador. Elas foram responsáveis por extinguir diversos animais que competiam fortemente com os dinossauros por recursos e habitat, os fitossauros e os pseudosuchias.

A extinção de competidores foi um dos fatores que permitiu que os dinossauros daquela época pudessem expandir sua distribuição por todo o planeta, tornando-se extremamente dominantes até a extinção que marcou o fim de seu reinado, há cerca de 66 milhões de anos atrás. Toda essa narrativa é construída com base em evidências e pesquisas científicas, com avanços graduais como os elucidados no artigo. Os dinossauros do Ártico nos contam e ainda podem nos contar grandes histórias!

Texto fonte: Olsen, P.; Sha, J.; Fang, Y.; Chang, C.; Whiteside, J. H.; Kinney, S.; Sues, H.S.; Kent, D.; Schaller, M.; Vajda, V. (2022). Arctic Ice and the Ecological Rise of the Dinosaurs. ScienceAdvances, v. 8, n. 26.

Doi: 10.1126/sciadv.abo6342

Disponível em: https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.abo6342 acessado em: 03/04/2022

Fonte e legenda da imagem de capa: Distribuição de fósseis de dinossauros com idade de cerca de 202 milhões de anos, com destaque para a Bacia de Junggar.


Texto revisado por: André Pimenta e Alexandre Liparini

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