Decepções paleontológicas em Jurassic Park: uma análise científica dos dinossauros no filme

Escrito em: 08 de abril de 2023

Por: Julia H. Souza

A paleontologia é uma ciência complexa que considera vários aspectos geológicos, biológicos e ambientais para, com base nos registros fósseis, reconstituir a história dos animais extintos e viventes com a maior precisão possível.

É comum que muitas pessoas, ao pensarem em registros fósseis, façam uma associação com os dinossauros, que sempre foram famosos, mas ganharam muita visibilidade com a franquia Jurassic Park, iniciada em 1990. Os filmes contam a história de um parque de dinossauros, que foram trazidos de volta à vida por biotecnologia, e devido à uma falha de segurança no parque, as personagens vivem situações de suspense e ação fugindo dos dinossauros e tentando sobreviver.

Bem, é uma ficção muito legal para quem gosta de dinossauros e de ação, porém, há uma série de inconsistências na reconstrução dos animais do filme, que, infelizmente, não tem nada a ver com as reconstruções desses animais baseadas nos registros fósseis disponíveis e nas suas relações filogenéticas com grupos viventes.

Sabe-se que foi somente no final do Mesozoico, mais especificamente no Cretáceo, há 66 milhões de anos, que houve a perda de muitos dinossauros. Acreditava-se que devido ao impacto de um cometa que atingiu a região onde atualmente está o México. Contudo, é sabido que tal asteroide não foi o único fator que contribuiu para o desaparecimento dessas espécies.

Aqui, vou falar de três dos dinossauros dos filmes que não tem NADA a ver com a realidade e de como essa inconsistência influenciou na visão do público sobre esses animais!

Atrociraptor marshalli: No filme, foram apresentados com a pele semelhante a de um elefante, grandes e com características de Dromeossaurídeos, grupo dos Velociraptors, que possuem os punhos caídos, por exemplo. As evidências fósseis, na verdade, sugerem que eram animais de aproximadamente 1,8m, com penas que cobriam até mesmo os “punhos” e com uma certa distância filogenética dos Dromeossaurídeos.

Velociraptor mongoliensis: Queridinhos do filme de 2015, foram apresentados com uma pele semelhante à de répteis, com mais de 3m de comprimento, caçando em bando e até mesmo sendo treinados, evidenciando uma certa inteligência. Em filmes mais antigos, já receberam também uma crista lacrimal no crânio. Apesar da popularidade nos filmes, é um dos que mais apresenta inconsistência científica na reconstrução do filme, sinto decepcionar. Um fóssil de um membro anterior encontrado na Mongólia, além de outras evidências, mostram que esses animais possuíam botões de penas, ou seja, eram totalmente plumados. Registros fósseis também mostram que esses animais tinham aproximadamente 2m de comprimento, não apresentavam os punhos caídos, possuíam um crânio bem maior, com a superfície superior côncava, a mandíbula inferior bem mais alongada e nada de crista lacrimal. Viviam em deserto, o que os torna muito mais propensos a serem caçadores solitários, além de não haver registro fóssil de indivíduos encontrados em localidades próximas, o que poderia indicar a caça em bando. E por fim, a inteligência desses animais seria comparável com a de um pássaro comum.

Brachiosaurus sp.: Famosos herbívoros, os ” pescoçudos”, foram retratado no filme com os dedos dos pés e a pele semelhante à de elefantes, com o comportamento de erguer-se para se alimentar, de mastigar o alimento como os mamíferos modernos e apresentando uma vocalização semelhante à das baleias. A mastigação é uma inconsistência que aparece em outros animais do filme, já que a mandíbula desses animais, de acordo com o registro fóssil, não era capaz de fazer esse movimento. É mais provável que o alimento fosse fermentado no intestino superior. O comportamento de se erguer também não faria sentido para um animal desse tamanho e tão pesado, levando em consideração a relação do seu centro de massa com comprimento dos seus membros. Seus pés na verdade possuíam dedos com garras, sua pele era recoberta por escamas e ele não era capaz de vocalizar, já que não há evidências fósseis que sugiram a presença de uma laringe vocalizante nesses répteis.

Um estudo de 2022, além de evidenciar essas inconsistências, mostrou que dentre 100 pessoas, quase metade acreditava que Jurassic Park era uma franquia fantasiosa, mas com boa base científica, além de 68% dessas pessoas acreditarem que entre uma reconstrução do T. rex antiga, a da franquia, e a mais aceita, a reconstrução da franquia era a mais correta. Vale lembrar que não há nada de errado em aproveitar uma ficção sem tanto embasamento científico, mas a influência dessa franquia tornou a iconografia desses animais totalmente inconsistente, com representações impossíveis em diversas outras mídias e lugares.

Texto fonte: Hu, Y. (2022). A collection of creature restoration inaccuracies in the Jurassic park franchise and their implications. Advances in journalism and communication, v 10 (04): 494–514. https://doi.org/10.4236/ajc.2022.104030 . Disponível em https://www.scirp.org/journal/paperinformation.aspx?paperid=122185 acessado em 08/04/2023

Fonte e legenda da imagem de capa: Foto de um registro fossíl (ossada) de ”Mammuthus columbi”, espécie já extinta.


Texto revisado por: Cíntia Silva, Alexandre Liparini, Milena R. Fonseca.

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