Escrito em: 09 de abril de 2023
Por: Rachel Magalhães Chiaradia
As lontras-marinhas são mamíferos carnívoros da família Mustelidae, que inclui também as doninhas e texugos. Única de seu gênero, a Enhydra lutris é uma espécie considerada ameaçada, embora os esforços de conservação já tenham-na tirado de uma possível extinção na década de 1910, em decorrência da ampla caça de sua pele, que é como um grosso casaco. Esses animais têm em sua dieta moluscos — e conseguem quebrar suas conchas utilizando-se de rochas — crustáceos e ouriços-do-mar, desempenhando, portanto, um papel fundamental na proliferação de kelps (algas) a partir da predação de ouriços, cujo crescimento populacional exagerado pode acarretar na redução acentuada das florestas de kelps, impactando negativamente toda a cadeia alimentar daquele ecossistema marítimo. Por esse motivo, esses animais fofos são considerados uma espécie-chave, ou seja, aquela que desempenha um papel crítico na manutenção da estrutura de um ecossistema. Por serem uma espécie-chave, muito se sabe atualmente sobre o comportamento e a ecologia das lontras-marinhas, no entanto, sua origem e história evolutiva permanece pouco esclarecida, e isso se deve principalmente ao fato de terem um registro fóssil escasso e fragmentado.
Na tentativa de elucidar a história evolutiva do mamífero semi-aquático marinho, cuja linha foi a mais recente adquirir este hábito, vários estudos têm sido feitos. Em um deles, o autor realiza discussões sobre as diversas hipóteses já propostas para explicar a origem e a diversificação desse animal, além de apresentar novos achados que sustentam a sua ocorrência no Norte da Califórnia no Pleistoceno Médio (há 129 mil anos). Contudo, o seu surgimento é datado do início do Plioceno, há cinco milhões de anos. Durante seu tempo de existência, o registro fóssil existente aponta para a convivência de E. lutris com E. macrodonta, a qual já está extinta. Mesmo assim, as relações evolutivas entre os Enhydrini (grupo que compreende as lontras-gigantes extintas Enhydritherium, Enhydriodon e as Enhydra) não são claras, justamente pela natureza fragmentada da maioria dos fósseis dessas lontras, não permitindo análises de suas relações evolutivas viáveis para a determinação de suas histórias.
Com a análise de um fêmur de Enhydra sp. encontrado na formação geológica de Merced, na Califórnia, foi identificada a ocorrência mais antiga do gênero Enhydra no Pacífico Norte. Com isso, foi possível detectar diferenças estratigráficas das antigas Enhydritherium para as recentes Enhydra, indicando um possível surgimento do último gênero através de uma evolução in situ, ou seja, a espécie surgiu naquele local. O registro geocronológico apontava para o surgimento do grupo Enhydra no Atlântico Norte e extremo oriente da Rússia, tendo sido deslocada, por meio do Estreito de Bering para o leste, até o Alasca, chegando no Ártico e, enfim, no Pacífico, ao longo da costa ocidental na América do Norte. Ainda assim, mais descobertas envolvendo as formações geológicas e suas relações com mamíferos marinhos do início do Pleistoceno ainda são necessárias para clarear a história desse tão carismático – e fofo – animal!
Texto fonte: Boessenecker, R. W. (2018). A middle Pleistocene sea otter from northern California and the antiquity of Enhydra in the Pacific Basin. Journal of Mammalian Evolution, v. 25, p. 27-35.
DOI: 10.1007/s10914-016-9373-6
Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s10914-016-9373-6#Sec7, acessado em: 24/04/2024
Fonte e legenda da imagem de capa: Lontra-marinha (Enhydra lutris). Imagem disponível em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/0/02/Sea_Otter_%28Enhydra_lutris%29_%2825169790524%29_crop.jpg/640px-Sea_Otter_%28Enhydra_lutris%29_%2825169790524%29_crop.jpg
Texto revisado por: Milena R. Fonseca, Vicente Pereira de Sousa Neto e Alexandre Liparini.