O olho da cara: Indícios da visão há 400 milhões de anos

Escrito em: 06 de abril de 2023

Por: Anderson Rodrigues de Oliveira

Ler este texto em uma tela, assistir a um filme no sábado e ver o semáforo ficar vermelho são ações do nosso dia-a-dia que fazemos usando nossa visão. De tão corriqueiro, não pensamos como os olhos são interessantes e poderosos, nos auxiliando em diversas atividades e, provavelmente, eles auxiliavam também os peixes placodermos (Figura da capa) há 400 milhões de anos, no período Devoniano! Um fóssil australiano muito bem preservado de um desses peixes indica pistas sobre como o olho pode ter evoluído nos animais vertebrados, como nós.

Falar sobre a evolução dos olhos e da visão é de grande importância histórica, visto que foi um dos temas que o famoso Charles Darwin achava intrigante. Como uma estrutura tão complexa, cheia de nervos, vasos sanguíneos, células que captam intensidade luminosa e cores, e partes delicadas pode ter evoluído de forma gradual? Na época de Darwin, há uns 150 anos, isso era um pouco mais difícil de responder, já que não tínhamos material e técnicas muito sofisticados para elucidar o tema. No entanto, hoje temos não só técnicas, como também novos achados fósseis para nos ajudar a entender melhor essas “peças de quebra-cabeça” estudadas na área da paleontologia.

A cápsula ocular, ou o “buraco” do olho de um Murrindalaspis (gênero de peixes placodermos descrito pela primeira vez em 1988), encontrado na Austrália, foi analisada em detalhes através de tomografia computadorizada. Tanto a estrutura geral, quanto passagens de artérias e nervos foram estudadas, mostrando que os olhos e a visão podem ser bem mais antigos do que imaginávamos.

Segundo o pesquisador Gavin C. Young, da Universidade Nacional Australiana, que ajudou a descrever o “olho”, no seu artigo “Evolução inicial do olho dos vertebrados – evidência fóssil” publicado na revista científica Evolution: Education and Outreach em 2008: “Com sua estrutura única, esses placodermos preenchem uma lacuna na morfologia dos vertebrados e também no registro fóssil de vertebrados. Como muitos outros fósseis de vertebrados elucidados desde a época de Darwin, eles são exemplos-chave das formas de transição que ele previu, mostrando combinações de caracteres que nunca foram observados juntos em espécies vivas.”

É importante lembrar que, para se falar de visão, não são apenas os olhos que devem ser investigados. Dados sobre o cérebro a partir do crânio também são importantes, já que as informações da visão da forma que conhecemos é processada pelo sistema nervoso central. Mesmo assim, são dados que causam entusiasmo. Quanto mais o tempo passa, mais a ciência se atualiza e se reinventa. Se Darwin estivesse vivo, talvez pudesse ficar satisfeito com as novas respostas sobre a visão da paleontologia sobre… a visão!

Texto fonte: Young, G.C. (2008). Early Evolution of the Vertebrate Eye—Fossil Evidence. Evolution: Education and Outreach, v. 1, p. 427–438. Doi: 10.1007/s12052-008-0087-y. Disponível em: <https://doi.org/10.1007/s12052-008-0087-y>, acessado em: 27/03/2024.

Fonte e legenda da imagem de capa: Figura 1 – Ilustração representativa do gênero Murrindalaspis. Extraída de wikipedia.org. Disponível em <https://en.wikipedia.org/wiki/Murrindalaspis#/media/File:Murrindalaspis_wallacei.jpg>, acessada em: 27/03/2024.


Texto revisado por: Milena R. Fonseca e Alexandre Liparini Campos.

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