08 de novembro de 2023
Por: Marco Túlio Silva Reis
*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>
Um dos grandes mistérios que todos os amantes, entusiastas e pesquisadores de dinossauros possuem para desvendar é: quais sons será que essas criaturas faziam? Nos últimos anos, estudos de uma caixa vocal (laringe) preservada de uma espécie de dinossauro vêm esclarecendo sobre os possíveis sons que esses animais, hoje extintos, faziam enquanto andavam e se comunicavam pelo seu habitat. A espécie em questão é a Pinacosaurus grangeri, um dinossauro anquilossaurídeo que viveu há mais de 80 milhões de anos atrás. A descoberta desse fóssil ocorreu em 2005 no Deserto de Gobi, Mongólia.
A laringe, ou caixa vocal, é uma estrutura oca, em forma de tubo, localizada no topo da garganta, que tem anatomia adaptada para produção de ondas sonoras, através de vibração das cordas vocais. Esse é o método mais comum de se vocalizar, presente em répteis, anfíbios, mamíferos e aves. As aves, porém, possuem uma estrutura extra, a siringe, responsável pela capacidade complexa de canto desses animais. A siringe, é uma estrutura muito mais complexa e cientistas ainda não sabem ao certo como ela veio a se originar da laringe, que é uma estrutura bem mais simples.
Arcossauria é o nome de um grupo de animais que incluem alguns répteis atuais, como os crocodilos, além de aves, dinossauros e outros organismos extintos. Os anquilossauros, como o pinacossauro mencionado acima, fazem parte desse grupo. Os fósseis mais antigos dos arcossauros eram animais semelhantes a répteis primitivos, mas que se diferenciavam em duas linhagens distintas principais. Uma linhagem se tornou o que conhecemos hoje como os grupos dos dinossauros, incluindo as aves e os pterossauros, por exemplo. A outra linhagem se ramifica nos crocodilos e seus semelhantes fósseis. De acordo com cientistas, os pinacossauros teriam vocalização intermediária entre os representantes atuais desses dois grupos, que são os crocodilos e as aves.
No aparato vocal fossilizado encontrado, foram identificadas estruturas anatômicas que parecem se assemelhar tanto às características de répteis modernos, como também ao aparato vocal de aves. Sabe-se, portanto, com certa segurança, que dinossauros não-avianos eram capazes de vocalizar de modo semelhante aos répteis, possivelmente com algumas particularidades que poderiam aproximar ao estilo de vocalização de algumas aves.
Comparada a de outros répteis atuais, a laringe do pinacossauro descrito é bem mais alongada, sugerindo que teria sido utilizada para gerar sons contínuos, e não na diferenciação dos sons, como fazem os répteis, que possuem um aparato mais largo. Aves modernas são capazes de gerar som utilizando uma estrutura diferente, mas de modo semelhante. Levando tais fatos em consideração, pinacossauros podem ter sido capazes de criar sons altos e explosivos, semelhantes às vocalizações de aves viventes como as dos gêneros Nothura e Nothoprocta, assim, os paleontólogos envolvidos no estudo sugerem que esses animais podem ter soado também como como pássaros, provavelmente executando sons como arrulhos, gorjeios ou chilreios, utilizados, talvez, no ato de cortejo, para se comunicar com a prole ou demarcar território.
Texto fonte: Yoshida, J., Kobayashi, Y. & Norell, M.A. An ankylosaur larynx provides insights for bird-like vocalization in non-avian dinosaurs. Commun Biol 6, 152 (2023). Disponível em <https://doi.org/10.1038/s42003-023-04513-x>;, acessado em: 08/11/2023.
Fonte e legenda da imagem de capa: Ilustração aproximada do que seria o aparato vocal da espécie Pinacosaurus grangeri por Tatsuya Shinmura. Extraída do texto fonte. Disponível em <https://www.nature.com/articles/s42003-023-04513-x/figures/3>, acessada em: 08/11/2023.