O Enigma das Samambaias Fósseis: Como Folhas “Mutantes” Revelam o Passado Climático da América do Sul

Escrito em: 20 de maio de 2026

Por: Analice Barbosa Dias

Se fosse possível viajar no tempo para o período Permiano, há mais de 250 milhões de anos, não encontraríamos campos de grama ou flores coloridas, mas sim um cenário dominado por imensas folhagens conhecidas como pecopterídeas. Essas plantas, que guardam uma semelhança visual impressionante com as samambaias, que decoram as casas modernas, foram as grandes protagonistas de uma era de transformações profundas no antigo supercontinente Gondwana (um supercontinente que incluía o que hoje são a América do Sul, Antártida, África, Oceania, Madagascar, Seychelles, Nova Caledônia, Nova Guiné e Índia). Em um estudo detalhado que abrangeu fósseis encontrados no Brasil e na Bolívia, o pesquisador Carlos Eduardo Lucas Vieira desvendou mistérios que confundiam paleontólogos há quase um século, utilizando a anatomia dessas plantas para ler as mudanças climáticas do passado.

Um dos pontos centrais da descoberta foi a resolução de um quebra-cabeça biológico chamado polimorfia, que é a capacidade de um mesmo organismo apresentar formas diferentes ao longo de sua vida. Por muito tempo, a ciência classificou os fósseis da espécie Asterotheca piatnitzkyi (fértil e com esporos) e da Pecopteris pedrasica (estéril) como se fossem plantas completamente distintas. No entanto, a pesquisa provou que elas são, na verdade, fases diferentes de uma mesma planta, representando estágios de desenvolvimento de um único organismo. Essa unificação não apenas organizou a árvore genealógica dessas samambaias, mas também permitiu que os cientistas acompanhassem como essa planta “única” se espalhou por vastas regiões da Argentina, Brasil e Bolívia.

Além de colocar ordem na nomenclatura científica, o estudo revelou que as folhas dessas samambaias funcionavam como verdadeiros “sensores ambientais”. No período Eopermiano (de 300 a 252 milhões de anos atrás), as plantas possuíam características hidromórficas (características típicas de ambientes com muita água). À medida que o tempo avançou para o Neopermiano (280 e 245 milhões de anos atrás), o cenário mudou drasticamente, e as samambaias responderam a essa transformação desenvolvendo características de resistência à seca, conhecidas como xeromorfias. Foram cobertas por pelos protetores e com bordas enroladas para evitar a perda de água, o que confirma que a América do Sul passava por um processo severo de aridização muito antes da era dos dinossauros.

A trajetória das pecopterídeas na América do Sul reflete um legado de adaptação e resiliência em um planeta em constante mutação. Essas samambaias não foram apenas espectadoras da história, mas colonizadoras ágeis que migraram das regiões tropicais do norte para o interior do continente, adaptando-se até mesmo a climas sazonais onde as florestas chegavam a perder suas folhas para sobreviver ao estresse hídrico. Ao identificar áreas biológicas únicas, como a Área Andina e a Área Sul-Brasileira, o estudo de Vieira redefine nossa compreensão sobre como a vida vegetal moldou e foi moldada pelo clima. Compreender como essas samambaias superaram mudanças climáticas globais no passado oferece ferramentas valiosas para prevermos como a biodiversidade atual poderá reagir aos desafios ambientais de um futuro cada vez mais incerto.

Texto fonte: VIEIRA, C. E. L. Taxonomia, Paleoecologia e Paleofitogeografia de Frondes Pecopterídeas do Neopaleozóico da América do Sul. 2004. Tese (Doutorado) – UFRGS, Porto Alegre.

Disponível em: https://royalsocietypublishing.org/rspb/article/290/2004/20222490/79694/A-macroscopic-free-swimming-medusa-from-the-middle.

Fonte e legenda da imagem de capa:  Exemplo de fóssil de uma folhagem pecopteris.

Disponível em: IStock


Texto revisado por: Fernanda Moreira Batitucci e Alexandre Liparini.

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