Será mesmo que tecidos moles não podem virar fósseis, ou estamos subestimando o que o tempo pode preservar?

Escrito em: 05 de maio de 2026

Por: Caio Rodrigues da Cruz

Sempre quando a palavra fóssil vem à mente, imaginamos ossos, dentes, ou pelo menos alguma outra parte dura do esqueleto de animais. Porém, estudos da paleontóloga Mary Schweitzer revelaram que tecidos moles, como as células que compõem os ossos, vasos sanguíneos, e até mesmo glóbulos vermelhos, podem ter sido conservados durante o tempo geológico.

Para quem está por fora do assunto, esses tecidos são compostos por estruturas muito sensíveis à degradação, como proteínas e lipídios, tornando-se instáveis após a morte do organismo. Enzimas, variações de pH, temperatura e umidade, bem como ação de microrganismos podem interferir na estrutura desses compostos, causando a sua decomposição. Então, como explicar essas estruturas?

A equipe de Mary, em seu estudo de 2006, realizou simulações com ossos para entender como essas estruturas poderiam ser preservadas, como observado em fósseis de Tyrannosaurus rex, mamutes e mastodontes (utilizou-se de avestruzes, por terem ossos e tecidos comparáveis aos do T. rex, e camundongos, por serem fáceis de trabalhar em laboratório) e, surpreendentemente, os experimentos chegaram a durar mais de 3 anos! Mary criou um mini cenário de fossilização para investigar como essas preservações ocorreram desde o Cretáceo Superior, há cerca de 66 milhões de anos.

A resposta está na química: os pesquisadores entenderam que o ferro presente na hemoglobina (proteína responsável pelo transporte do oxigênio nos glóbulos vermelhos) pode ter desencadeado reações químicas que fizeram com que os tecidos deixassem de ser frágeis e passassem a formar uma rede de ligações cruzadas, ou cross-linking, estabilizando-os e protegendo-os dos agentes decompositores. O formol, substância muito comum utilizada em museus, age de forma semelhante para conservar seres mortos por mais tempo, só que, nesse caso, o próprio ferro agiu espontaneamente. Em seguida, minerais presentes no ambiente, como fosfatos, podem se depositar nesses tecidos, preservando sua forma ao longo do tempo. Assim, o que vemos nos fósseis não são tecidos intactos, mas versões quimicamente alteradas e estabilizadas deles.

Os ossos também podem ter servido como capa protetora, justamente por serem mais rígidos e fechados, o que previne a entrada de decompositores, por exemplo. Outros fatores importantes incluem a entrada de minerais e a formação de biofilmes bacterianos (uma substância pegajosa que as bactérias secretam), que podem ter tido ação na preservação desses tecidos moles.

Portanto, essas descobertas têm implicações muito importantes: elas sugerem que o processo de fossilização não é apenas uma simples substituição por minerais, mas envolve transformações químicas complexas que podem preservar vestígios da vida que antes se acreditava serem impossíveis de preservar.

Schweitzer, Mary Higby; Wittmeyer, Jennifer L.; Horner, John R. (2006). Soft tissue and cellular preservation in vertebrate skeletal elements from the Cretaceous to the present. Proceedings of the Royal Society B, v. 274, n. 1607, p. 183-197. DOI: 10.1098/rspb.2006.3705

Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC1685849/pdf/rspb20063705.pdf

Acesso em: 01 de maio de 2026

Legenda da imagem de capa:  Esquema de como a fossilização ocorre. O processo inclui três mecanismos distintos:  a participação do ferro como gerador das ligações cruzadas que estabilizam o tecido, o depósito de minerais no material, e a ação de microrganismos  produtores de biofilme. Imagem em cores fantasia e fora de escala.

Fonte da imagem de capa: OPENAI. Imagem gerada por inteligência artificial (Chat GPT, GPT-5.3), a partir de prompt do autor. 2026.


Texto revisado por: Luiza Brasileiro e Alexandre Liparini.

Deixe um comentário