Escrito em: 06 de maio de 2026
Por: Letícia Selvatici Tolentino
Atualmente, quando pensamos nos grandes pinguins, como o pinguim-imperador (Aptenodytes forsteri) e o pinguim-rei (Aptenodytes patagonicus), logo lembramos de paisagens geladas da Antártica. Porém, um estudo publicado em julho de 2025 descobriu que o habitat antigo desse gênero de pinguins envolvia regiões muito mais quentes e distantes do polo sul do que antes se pensava.
O grupo responsável pelo estudo, liderado pelo professor e paleontólogo Daniel Thomas, da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, encontrou um fóssil de crânio de um possível grande pinguim na Ilha Norte do país. Esse espécime era da Idade do Piacenziano, cerca de 3 milhões de anos atrás. A partir de comparações entre esse fóssil e crânios de pinguim-imperador e pinguim-rei, os pesquisadores determinaram que o espécime pertence ao gênero dos grandes pinguins (Aptenodytes), mas não foram capazes de determinar sua espécie. Ainda assim, notaram que o comprimento de seu crânio era 31% maior do que o do pinguim-imperador e que as proporções entre comprimento do bico e comprimento total do crânio eram mais parecidas com a de pinguins-rei. Um detalhe interessante é que, para as comparações, foram utilizados tanto os crânios reais quanto modelos 3D em alta definição, que permitiram uma análise mais minuciosa do fóssil.
Após determinarem que o espécime encontrado realmente era de um grande pinguim, os autores analisaram as temperaturas médias da superfície do mar, tanto do Piacenziano (3 Ma), quanto da atualidade (2023), comparando com o habitat dos três Aptenodytes. A nova espécie teria vivido em latitudes de 40.5°S, mais perto do Equador do que os membros atuais desse gênero, pois os que vivem mais ao norte estão em 46.1°S, nas Ilhas Crozet. O mais impressionante é a diferença de temperatura, visto que a superfície do mar da região do espécime apresentava temperaturas maiores ou iguais à 20°C, enquanto as maiores temperaturas dos habitats atuais estão entre 3-10°C.
Um fato curioso é que os grandes pinguins atuais conseguem tolerar as temperaturas a que seu ancestral estaria submetido, porém não mais ocupam as regiões da Nova Zelândia. Isso levou os pesquisadores a hipotetizar o que teria pressionado os Aptenodytes a migrarem para o sul. Ao analisarem a presença de possíveis predadores, eles notaram que o gavião-cinza e a águia-de-Haast, grandes aves de rapina, divergiram cerca de 2 milhões de anos atrás. Ou seja, surgiram após a espécie ancestral do fóssil encontrado. Em suas dietas, grandes aves como os grandes pinguins estavam inclusos. Portanto, os descendentes do indivíduo estudado seriam possíveis presas dessas aves de rapina. Assim, o que levou o gênero Aptenodytes a se concentrar em mares gelados foi possivelmente uma pressão dos predadores, ao invés de barreiras climáticas.
Texto fonte: Tennyson, A. J., Marx, F. G., Ksepka, D. T., & Thomas, D. B. (2025). Emperor penguin’s fossil relatives inhabited subtropical waters. Journal of Paleontology, v. 99, n. 5, p 1-9. DOI: 10.1017/jpa.2025.10162.
Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/395653643_Emperor_penguin’s_fossil_relatives_inhabited_subtropical_waters.
Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem feita por Thomas Fuhrmann, 2017. Pinguins-rei (Aptenodytes forsteri), do gênero dos grandes pinguins, em seu habitat natural, que atualmente compreende regiões polares e subpolares. Na imagem, dois indivíduos podem ser vistos em pé, com um terceiro deitado na vegetação.
Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:King_penguin_(Aptenodytes_patagonicus)_-_Parque_Pinguino_Rey_02.jpg.
Texto revisado por: Milena Ramos Fonseca e Alexandre Liparini.