Escrito em: 26 de abril de 2025
Por: Camila Muzzi
A lógica, aparentemente universal, de que a inteligência surge da integração entre um centro de comando — o cérebro — e um corpo executor, é desafiada por uma criatura que “borra” a linha entre a mente e o corpo: o polvo. Com um sistema nervoso fascinante, ele escapa às nossas classificações tradicionais. Complexo para um invertebrado e, embora modesto quando comparado ao dos mamíferos, seu sistema apresenta uma sofisticação cognitiva equivalente. Que pressões seletivas foram capazes de moldar, em um animal tão próximo de uma lesma, uma inteligência tão elaborada?
Além de um cérebro comparável em tamanho ao de pequenos mamíferos, cerca de dois terços dos neurônios do polvo se espalham por seus oito braços, conectados a um grande cordão nervoso. Cada braço é capaz de processar informações sensoriais e tomar decisões locais, funcionando de maneira semiautônoma. Entretanto, seu sistema nervoso é mais do que apenas um corpo guiado por um cérebro, o que sugere a existência de uma forma diferente — e altamente eficiente — de consciência.
Diferente de ossos ou conchas, que resistem ao tempo, sistemas nervosos raramente deixam rastros no registro fóssil. No entanto, em formações geológicas com condições extremamente favoráveis, foram encontrados fósseis extraordinariamente bem preservados de Coleoidea — sub-classe que inclui polvos, lulas e seus ancestrais. Esses fósseis trouxeram revelações raríssimas: não apenas músculos, mas também cordões nervosos axiais. A partir desse material, pesquisadores traçaram comparações anatômicas com espécies modernas e utilizaram modelos matemáticos para inferir o modo de vida desses antigos coleoides. Utilizando técnicas avançadas de visualização tridimensional, associadas a análises filogenéticas e a modelos de reconstrução ancestral, eles decifraram as pistas escondidas nas rochas.
Os resultados revelaram que esses animais antigos já exibiam uma arquitetura neural sofisticada e descentralizada. Desde o Jurássico Médio, suas capacidades motoras eram refinadas e permitiam uma interação complexa com o ambiente, muito semelhante à dos polvos modernos. Isso mostra que o ambiente em que viviam exerceu pressões seletivas intensas: a necessidade de capturar presas na escuridão, mover-se com precisão em três dimensões e escapar de predadores, tudo sem um exoesqueleto protetor, impulsionou o surgimento de comportamentos mais elaborados e de uma cognição descentralizada. Eram predadores ativos, capazes de manipular objetos, caçar estrategicamente e navegar em ambientes complexos.
Dessa forma, o que emerge é a história de uma inteligência antiga e solitária, que floresceu contra todas as probabilidades e nos confronta com algo que também fala sobre nós mesmos: a consciência, em suas muitas formas, é uma resposta engenhosa às complexidades da vida — e não uma conquista exclusiva da nossa linhagem.
Texto fonte: Klug, C.; Hoffmann, R.; Tischlinger, H.; Fuchs, D.; Pohle, A.; Rowe, A.; Rouget, I.; Kruta, I. (2023). ‘Arm brains’ (axial nerves) of Jurassic coleoids and the evolution of coleoid neuroanatomy. Swiss Journal of Palaeontology’, v. 142, n. 1, p. 22. Doi: 10.1186/s13358-023-00285-3.
Disponível em: https://doi.org/10.1186/s13358-023-00285-3.
Fonte e legenda da imagem de capa: Polvo nadando próximo aos corais.
Disponível em: Canva Pro, design de Ann Antonova.
Texto revisado por: Eric Issao Inamura e Alexandre Liparini.