Escrito em: 06 de dezembro de 2024
Por: Lívia Seixas Botelho
Muito se ouve sobre as mudanças climáticas causadas pelo ser humano e suas consequências para a diversidade de espécies do planeta. Mas você já parou para pensar por quanto tempo essas mudanças podem afetar os seres? E se mudanças climáticas do passado nos afetam até hoje? Há estudos sobre o paleoclima (clima de milhares de anos atrás) que tentam entender os efeitos de eventos passados na distribuição atual das espécies.
Os seres vivos evoluem em determinadas circunstâncias, então podemos inferir que os padrões de biodiversidade dependem destas circunstâncias, e o clima é uma delas.
A distribuição das espécies é limitada pelo clima ou por barreiras geográficas, porém, não apenas as condições atuais determinam esses fatores. Ou seja, as condições atuais de um local podem ser favoráveis para a ocupação de uma determinada espécie, entretanto, as condições desfavoráveis do passado podem justificar a não presença dela ali, hoje.
O clima pode gerar legados históricos, sendo dois tipos de legados históricos reconhecidos: efeitos duradouros de eventos passados transientes (como as glaciações); e efeitos cumulativos de processos contínuos dependentes do tempo (como a diversificação de grupos biológicos). Exemplos desses processos seriam a perda de diversidade causada por algum desastre natural, que após o acontecimento, voltaria a aumentar; ou, por exemplo, um processo de aquecimento pós glaciação, que elevaria o número de espécies. Para ambos os processos é importante o conceito de “time lag” (atraso temporal), que seria o tempo até alcançar um número alto de espécies após uma perturbação. Esse termo “time lag” está relacionado também com a ideia de “legado climático”.
Estudos mostram que a riqueza de espécies em escala de biomas possui maior relação com o clima do Paleógeno e Neógeno, do que com o clima atual. Uma pesquisa realizada mostrou que a diversidade de palmeiras florestais na África, era maior em áreas com maiores níveis de precipitação no Plioceno; enquanto palmeiras de locais abertos possuem maior riqueza de espécies em locais que eram mais secos durante o Mioceno (Blach-Overgaard et al., 2013).
Estudos sobre a influência do paleoclima em padrões de diversidade atuais são importantes pois, além de ajudarem a compreender melhor o passado, mostram que as mudanças climáticas atuais, causadas em parte pelo ser humano, podem ter efeitos por longos períodos. Ainda mais, com esse conhecimento, é possível traçar melhores estratégias de conservação, por saber quais espécies possuem maior chance de adaptação favorável ou dispersão, e locais climaticamente mais estáveis que funcionariam como refúgios no futuro.
Fonte original: SVENNING, Jens-Christian et al. (2015). The influence of paleoclimate on present-day patterns in biodiversity and ecosystems. Annual Review of Ecology, Evolution, and Systematics, v. 46, n. 1, p. 551-572. doi: 10.1146/annurev-ecolsys-112414-054314. Fonte complementar: BLACH-OVERGAARD, Anne et al. Multimillion‐year climatic effects on palm species diversity in Africa. Ecology, v. 94, n. 11, p. 2426-2435, 2013.
Disponível em: https://doi.org/10.1146/annurev-ecolsys-112414-054314.
DOI: 10.1146/annurev-ecolsys-112414-054314.
Fonte e legenda da imagem de capa: Foto tirada do espaço da atmosfera da Terra.
Disponível em: commons.wikimedia.org.
Texto revisado por: Cíntia Silva, Alexandre Liparini e Sandro Ferreira de Oliveira.