O que os ossos do seu ouvido tem a ver com sua temperatura corporal?*

25 de setembro de 2022

Por: Júlia Gomide

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

A temperatura corporal é uma medida fisiológica que varia entre indivíduos de espécies diferentes, mas não entre indivíduos da mesma espécie. Os ossos que compõem o ouvido podem revelar se determinado animal é capaz de se aquecer e manter sua temperatura (classificando-o como endotérmico, ou popularmente chamado de “animal de sangue quente”) ou se ele necessita do ambiente para que possa regulá-la (ectotérmico, ou “animal de sangue frio”). Recentemente, cientistas utilizaram fósseis dos ossos de ouvido de espécies de mamíferos já extintas para tentar descobrir quando surgiram os primeiros animais de sangue quente dentro desse grupo. Eles descobriram que, diferentemente do que se pensava até pouco tempo atrás, os primeiros répteis parecidos com mamíferos, os Synapsida, provavelmente eram todos ectotérmicos, ou seja, de sangue frio.

O ouvido interno é composto por duas partes principais: a cóclea, responsável pela audição; e o sistema vestibular, responsável por detectar movimentos e contribuir para a manutenção do equilíbrio. O sistema vestibular possui um sistema de canais semicirculares cheios de um líquido chamado de endolinfa, que é necessária para a percepção dos movimentos da cabeça do animal. Contudo, a função desse líquido é afetada pela sua viscosidade, que por sua vez, diminui conforme a temperatura do animal aumenta. Além disso, animais endotérmicos são mais ativos que animais ectotérmicos, e a percepção dos movimentos da cabeça é extremamente importante para o controle corporal e consciência espacial. Levando isso em consideração, os “animais de sangue quente” precisariam de mecanismos para aumentar a viscosidade de sua endolinfa ou de modificações na estrutura do sistema de canais semicirculares, para que pudessem sustentar seus modos de vida.

Um grupo de cientistas, então, criou, a partir de registros fósseis, uma “taxa de termo-motilidade” e cálculos que relacionam aspectos estruturais do sistema de canais semicirculares, atividade do animal e temperatura corporal. Comparando os resultados obtidos nas análises feitas, eles concluíram que os primeiros mamíferos endotérmicos teriam surgido aproximadamente há 233 milhões de anos atrás, quando a Terra passava pelo episódio pluvial Carniano, no meio para o final do período triássico. Segundo os pesquisadores, a mudança para o modo de vida endotérmico teria sido brusca, provavelmente ocorrida na base do grupo caracterizado como Mammaliamorpha, e estaria correlacionada com a expansão das capacidades aeróbicas e anaeróbicas do grupo, ou seja, sua maior capacidade de gerar energia com e sem oxigênio, respectivamente.

Artigo fonte: Araújo, R., David, R., Benoit, J. et al. (2022). Inner ear biomechanics reveals a Late Triassic origin for mammalian endothermy. Nature, v. 607, p. 726–731. Doi: https://doi.org/10.1038/s41586-022-04963-z . Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41586-022-04963-z . Acessado em 24/04/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Visualização dos sistemas vestibulares de diferentes espécies de animais. Extraída do artigo fonte.

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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