Como a paleontologia ajuda no entendimento evolutivo das plantas*

03 de julho de 2022

Por: Dragonfly

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Os fósseis de plantas podem se apresentar como impressões (icnofósseis), partes da planta conservadas em âmbar, ou mesmo em uma rocha, após um fenômeno de permineralização, o qual consiste no preenchimento de espaços na madeira por minerais como carbonato de cálcio, sílica, dentre outros. Com isso, a paleobotânica auxilia a elucidar o percurso evolutivo das plantas, mostrando as diversas transformações ocorridas desde a sua origem e fornecendo dados para a compreensão da filogenia vegetal.

Visto que as transformações na aparência de um organismo ocorrem a partir de uma mudança no DNA e, consequentemente suas expressões proteicas, que serão transmitidas para as próximas gerações, a paleontologia pode mostrar como essas transformações na fisiologia e aparência das plantas aconteceram a partir do registro fóssil. Antes de adentrar um pouco mais, cabe falar sobre a auxina, um fitormônio relacionado ao crescimento vegetal, através do alongamento celular. Produzido principalmente no meristema apical, esse hormônio é transportado do ápice para a base (polar), mecanismo envolvido também no surgimento da madeira, o que ocorreu há aproximadamente 400 milhões de anos, no Devoniano e, provavelmente, está presente em todos os ancestrais das plantas vasculares. Sabe-se disso porquê há presença de madeira em fósseis de licófitas da extinta ordem Lepidodendrales e de equisetófitas Calamitales. Como havia transporte de auxina polar nesses dois clados, possivelmente a evolução e desenvolvimento de todas as espécies lenhosas que já existiram tinham esse mecanismo atuante.

E como se sabe disso?

O teste dessa hipótese ocorreu a partir de análises das madeiras paleozoicas de uma licófita lepidodendraliana, a Paralicopoditos, e de uma equisetófita calamitaliana, a Artropatias.

A partir do que foi analisado no registro fóssil, pode-se inferir que o transporte de auxina polar compartilhado participa evolutivamente da padronização da madeira, entretanto, pelo fato do ancestral comum mais recente de licófitas e eufilófitas não ter produzido tecidos secundários, a origem da madeira ocorreu paralelamente em cada um desses grupos, diante de uma via regulatória de auxina.

Outro aspecto evolutivo vegetal que teve auxílio da paleobotânica foi o padrão das nervuras nas folhas. Os estudos sobre a evolução e desenvolvimento a partir de fósseis vegetais mostram que houve várias origens das folhas eufilófitas, com evidências de padrão paralelo nas nervuras. As folhas de equisetófitas, samambaias, progimnospermas e plantas com sementes apresentam partes terminais lineares com uma nervura em cada segmento, padrão evidenciado pelo registro fóssil que denota evolução convergente nesses grupos, com atividade dos meristemas evolutivamente paralela.

Isso mostra o quão importantes são os registros e as análise de fósseis para elucidar caminhos evolutivos a partir de padrões observados ao longo do tempo, fornecendo bases para outros estudos e para inferir hipóteses, não só na botânica, mas em todas as faces da biologia.

Artigo fonte: Rothwell, G. W.; Wyatt, S. E.; Tomescu, A. M. (2014). Plant evolution at the interface of paleontology and developmental biology: An organism-centered paradigm. American Journal of Botany, v. 101, n. 6, p. 899-913. Doi: 10.3732/ajb.1300451. Disponível em: https://bsapubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.3732/ajb.1300451. Acessado em: 23/09/2022

Fonte e legenda da imagem de capa: Registros fósseis apresentando padrões de nervura em diferentes grupos. Extraída artigo fonte.

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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